"Eu concordo contigo; a sociedade e a própria linguagem são bastiões de misoginia e sexismo. É por isso que chamar-te 'ó caralha!' é um exercício de empowerment, um combate à visão da mulher como castração, percebes?"
segunda-feira, 16 de janeiro de 2012
sexta-feira, 6 de janeiro de 2012
sexta-feira, 30 de dezembro de 2011
Subsídios para a epistemologia e hermenêutica da cultura popular, 2
(não, este não é um texto sobre o Gil do Carmo...)
O ano áureo de 1976 ficou indelevelmente marcado, no que toca à cultura popular portuguesa, por dois fenómenos de inigualável quilate que, não podendo ser interpretados em conjunto, se assumiram como duas forças centrífugas que marcaram a evolução de duas correntes diversas que ainda hoje coexistem no panorama da produção artística nacional: a literatura varetiana e os glutões do Presto.
Falamos, é óbvio, dos primeiros vagidos de Vareta Funda, eterna melodia de esperança que soou nos idos de Março na Clínica de Santa Iria, e falamos também da memorável noite de 22 de Fevereiro, no Estúdio 1 da RTP, em que Carlos do Carmo e Eládio Clímaco trocaram olhinhos meigos, sob o olhar complacente de Ana Zanatti.
Num ano de festival monozigótico, em que todas as oito canções a concurso foram interpretadas pelo mancebo portalegrense da voz maviosa que certa vez chegou a retalhar a vida de um médico (médico esse reconstituído em colcha, que Cila do Carmo conserva na sua caminha de solteira), o POVO, o povo que ainda recentemente recebera a alternativa do toureio político, o povo apoderado da madrinha democracia, o povo que no meio da arena fazia verónicas aos cornudos fantasmas do passado (em pontas), o povo, dizíamos, o povo escolheu e clamou: “Vai o aborto!; para a Holanda, vai o aborto!”
Não que se fosse à Holanda abortar, não. Ir-se-ia à Holanda jogar à Eurovisão, com o Senhor do Carmo em camisola 10, treinado por José Niza e com massagens de Manuel Alegre. Ou mensagens. Ou mamensagens. Ou menmassagens. Gostamos de neologismos como gostávamos então, naquela redentora madrugada. Adiante.
O povo escolheu pela imprensa – sistema elitista, é certo, ligando o voto à literacia e aos tostõezinhos para o jornaleco. E escolheu (mal, devia ter ganho o “No teu poema”) a primeira canção portuguesa que aborda o tema do aborto sob o ponto de vista masculino (ou quase) da poesia (ou quase) de Manuel Alegre (ou nem tanto): “Uma Flor de Verde Pinho”, com o patrocínio do Brise Contínuo.
Que nos dizia, então, Alegre sobre o aborto? Vejamos:
EU PODIA CHAMAR-TE PÁTRIA MINHA
PODIA DAR-TE UM NOME DE RAINHA
MAS NÃO HÁ FORMA NÃO HÁ VERSO NÃO HÁ LEITO
COMO DIZER UM CORAÇÃO FORA DO PEITO? – potente interrogação sobre o carácter forçosamente silente do aborto enquanto prática que não se consegue dizer
MEU AMOR TRANSBORDOU E EU SEM NAVIO. – o presuntivo pai recrimina-se por não ter usado contraceptivo
GOSTAR DE TI É UM POEMA QUE NÃO DIGO – como amar o que “morreu-sem-ser”?; mais um dar de mão a Heidegger no aceitar do dizer poético como morada do ser
QUE NÃO HÁ TAÇA AMOR PARA ESTE VINHO
NÃO HÁ BARCO, NEM TRIGO, NÃO HÁ TREVO – a carestia; não se trata de um aborto burguês, um empecilho evitado, como se conclui no verso seguinte:
NÃO HÁ PALAVRAS PARA DIZER ESTA CANÇÃO. – é adultério, senhores!; adultério dos pobres, sem lugar para cantiguinhas nem excursões a Badajoz
GOSTAR DE TI É UM POEMA QUE NÃO ESCREVO. – a iliteracia do presuntivo pai, numa esquinada elitista de Alegre: o sujeito, o presuntivo pai, não tem acesso ao dizer poético, sendo portanto, e ainda na toada Heideggeriana, um elemento (pouco dotado, intui-se), do “pensamento” científico
QUE HÁ UM RIO SEM LEITO.E EU SEM CORAÇÃO. – o transporte; de súbito, Alegre guina para o misticismo típico de um Ruysbroek, postulando um “transporte trágico” ao invés do transporte do êxtase que o místico holandês descrevia – estaria Alegre a jogar ao ataque, procurando agradar ao júri holandês? Bem se fodeu, de qualquer modo, que a táctica não deu pontos
MAS NÃO HÁ FORMA, NÃO HÁ VERSO, NÃO HÁ LEITO
E por aí fora... Alegre escrevia, Niza compunha, Carmo cantava. Diz que se gravou uma versão em francês, meses mais tarde. Era chique, na altura.
Para além de convidar a uma releitura de Heidegger, “Uma Flor de Verde Pinho” foi um contributo singular para trazer à luz da mediatização a temática proscrita do aborto – falamos de 1976, recorde-se; fosse hoje e Vareta Funda provavelmente não teria nascido, que o que se poupava em Nervovitamine sempre dava para um frigorífico novo... Em resultado disso, diz que hoje é legal (tanto o aborto como o Vareta) que e se pode fazer às claras, felizmente. E já sabem: se transbordarem, usem o navio - ou o cacilheiro do dia seguinte.
Feliz Ano Novo.
quarta-feira, 14 de dezembro de 2011
quarta-feira, 30 de novembro de 2011
Subsídios para a epistemologia e hermenêutica da cultura popular, 1
Que corre sem parar - quando Glória Marta, 2ª classificada no festival e vencedora do prémio interpretação, apareceu na capa da TV Guia afirmando que A. Azinheira escrevera estes versos tendo por tema a incontinência urinária de Jorge Mendes, procurando assim criar diferendos no seio do duo, a mesma aproximou-se, por defeito, da imagem metafórica que aqui é transmitida: a da vitalidade masculina, da infindável riqueza da produção testicular. A imagem país-corpo confere nitidez a este rio que corre sem parar, no fluxo constante do desejo-sémen.
No meu país um navio
Nem sempre se faz ao mar - Azinheira introduz, pela primeira vez, de forma cortante e enfática, a temática do onanismo, não enquanto prática mas conceito; fá-lo ainda defensivamente, não negando totalmente, como o fará mais adiante, a impressão de "alternativa menor" que enforma o discurso público sobre a matéria: da parte do país-corpo, "nem sempre" há um esforço de contacto, de procura, de ligação ao exterior; é bela a forma como Azinheira aqui ilustra a temática do corpo como fronteira e insularidade.
No meu país a tristeza
Tem o nome solidão - remoque subtil à condição social do onanista.
No meu país a beleza
Invento-a na minha mão - e aqui sim, aqui o clamor de Azinheira, em belíssima imagem, sobre a assunção plena da prática masturbatória, uma verdadeira sublimação alquímica da punheta, se nos permitem, num eu que a si se contenta, espelhando de certa forma um criacionismo Deleuziano mas estanque, estanque numa individualidade singular Derridaiana ou, indo mais longe, na eleição do corpo como unidade básica e não comunicante do significado.
Navego um barco vazio
Que atravessa o rio
Para o cais da saudade - numa incursão metafísica, Azinheira aborda a mortalidade e a condição solitária da travessia da vida, o 'ser sozinho', o carácter extrínseco da 'outridade' - com um vislumbre de alguma religiosidade patente na imagem circular que o "cais da saudade" transmite enquanto ciclo de morte e ressurreição.
Vou numa onda tão bela
Neste barco à vela
Que não tem idade - referência oblíqua à perenidade do prazer onanista.
Navego um barco tão cheio
Contigo no meio
No rumo da esperança - a subtil inflexão de destinatário é, a nosso ver, um dos momentos maiores do poema de Azinheira; a forma discreta com que 'o outro' é introduzida é trazida com mestria, com a localização precisa de "contigo no meio" como prova da centralidade (e porventura da discursividade?) física e literal do falo; o "barco tão cheio" como imagem potente da plenitude de si, da existência singular.
Vou numa onda tão bela
Neste barco à vela
Com ar de criança - novamente a perenidade, o carácter de 'amigo de infância' da prática masturbatória, da punheta como primeira memória do prazer.
No meu país há um rio
Que corre sem parar
No meu país um navio
Nem sempre se faz ao mar
O meu país é um sol
De raiva, de alecrim - versos de grande carga telúrica; a imagem fálica do alecrim, a "raiva" associada ao poder físico, ao carácter totémico do falo como deus-corpo e deus-sol.
Mesmo assim tem uns olhos
Negros que esperam por mim - a morte, a morte como travão último - e único? - ao prazer onanista, fechando em beleza esta obra notável antes da repetição do refrão.
Navego um barco tão cheio
Contigo no meio
No rumo da esperança
Vou numa onda tão bela
Neste barco à vela
Com ar de criança
Para além da obra lírica, merece a pena atentar em três detalhes, todos eles concentrados nos primeiros trinta segundos, do videoclip acima reproduzido:
1) o automóvel descapotável - sendo sobejamente conhecida a carga fálica do símbolo "automóvel", a escolha de um descapotável de pequenas dimensões funciona também como símbolo de transparência. Há, por detrás desta escolha, uma mensagem a dois tempos: um claro "não me escondo como punheteiro" e um oblíquio, no sentido Barthesiano do termo, "enquanto punheteiro, toda a temática da dimensão do órgão sexual me é irrelevante: o meu basta-me na sua individual perfeição".
2) a espiral de Niemeyer - referência elíptica, por um lado à erudição de Mendes e Azinheira, e, por outro, à própria forma da espiral enquanto infinitude em si mesma, adonando-se assim de mais uma representação gráfica para a simbologia onanista.
3) o blusão de ganga com pelo de ovelha por dentro - tentativa nobre da definição de um código visual do onanista; verdadeira exortação: "punheteiro!, conhece-te e faz-te conhecer!"... A escolha da ganga pela sua simbologia proletária e minoritária é elegantemente complementada pelo fraseado filosófico que representa o pelo de ovelha por dentro do blusão: a inversão ou interiorização do exterior; a pele que sobre si mesma se vira; a dupla insularidade (ou tripla, se tivermos em conta que o videoclip é filmado na Madeira). Arriscaríamos ainda um potencial significado adicional: a eventualidade de Mendes ou Azinheira ou ambos terem sido sujeitos a circuncisão, simbolizando o blusão uma espécie de "retorno do prepúcio"?
Sobre o impacto social que esta obra feliz teve no nosso país, os mais recentes estudos de Maria Filomena Mónica transmitem uma imagem fidedigna e adequada, nada havendo a acrescentar.
terça-feira, 29 de novembro de 2011
segunda-feira, 31 de outubro de 2011
A ACADEMIA DO NU
O espólio epistolar do Padre António Fernandes d’Azevedo veio-me parar ás mãos num bem atado molho de papel amarelecido que consultei mesmo ali, de joelhos, num recanto do enorme e poeirento alfarrabista da Misericórdia. Desdobrei as páginas ressequidas à medida que se aguçava a minha curiosidade. A maioria polemizava com interlocutores que desconhecia, mas pus de parte várias que debatiam um tema particular: a ‘Academia do Nu’. Datada de 1780, a Acta de Constituição desta academia dizia tratar-se esta mesma ‘de uma sociedade artística dedicada ao exercício e excelência do desenho, pintura e escultura do corpo humano nu’, com sede na Travessa do Cabral, número quinze, em Lisboa. Terá sido atribulada a primeira sessão de desenho, pois instigada por umas senhoras piedosas, uma pequena multidão foi lançar pedras às janelas da Academia na sua primeira sessão.Isto, após sérias dificuldades em encontrar um homem que aceitasse posar despido. O Padre d’ Azevedo era o secretário da Academia e numa carta ao seu amigo Arquibaldo Alves, dono de uns banhos públicos em Alcântara, descreve assim, Rodrigo, o modelo contratado: ‘era farto de carnes e ventrudo, tinha as pernas fininhas e a testa baixa, várias escrófulas e nascidos saíam-lhe das costas e um túbaro era mor de muito mais descaído que outro que quase chegava a meio da coxa. ‘ No entanto, foi Rodrigo, que era calafate de profissão, o único que aceitou expor-se assim à vista dos artistas. Encontrei um dos esquissos do padre e fiquei perplexo. Era o mais infantil dos desenhos, num papel cheio de manchas amareladas que deixavam cair um pó algo fétido e com cheiro a peixe. Descartei que se tratasse de bolor e de repente enrubesci, pois dei-me conta que seriam manchas de sémen e que as motivações d ´Azevedo eram as mais veneais e muito menos artísticas! Ejaculara profusamente para o desenho – disciplina para a qual não tinha a menor vocação – por cupidez e volúpia. Á medida que fui passando as cartas uma a uma, fui encontrando comentários de cariz misantrópico e mesmo apreciações do físico de Rodrigo que se aproximavam da pornografia, tais como aquela de Sebastião João Mendes ‘o venoso membro de Rodrygo, saliente de crespa pinteleyra faz-me correr a bílis ao traseiro, o que me dá uma vontade inevitável de obrar e depois andar com a tercida acima e abaixo para obter voluptuosas sensações enquanto remiro as nalgas fortes de Rodrigo e imagyno que lhe engulo o marsapo e (ilegível) os quelhoens’. Enojado, deixei cair o molho das cartas aos pés. Outro comentário, este de Ramiro de Cinfães, que dizia ‘Eu, Ramiro de Cinfaens, adido de Sua Majestade ao Paço de Villa Viçosa, eis-me perdido em devaneios do sentido, ao contemplar a beleza apolínea de Rodrigo e tremem minhas carnes ao pensar que podia fazer como de fanchono com ele ali atrás do…’ A dura realidade impôs-se e deduzi claramente que a ‘Academia do Nu’ não passava do debochado clube de invertidos da Lisboa de Bocage e Filinto Elísio. A suar, dirigi-me à Igreja do Loreto e rezei. Passaram horas. O prior, estranhando a minha persistência e imobilidade, aproximou-se e tocou-me no ombro ‘filho, estás bem? Estás há já quatro horas aí sentado’. Queres um copo de água? ‘ Dizia isto, enquanto me fazia trejeitos e olhinhos dengosos. Passou a mão pelas virilhas e lambeu o lábio superior. Aos tropeções e agarrando o molho de cartas, corri atabalhoadamente por entre os bancos da igreja e saí porta fora. Á noite tive insónias e nos poucos períodos em que dormi, soçobrei; e acordava suado e sempre depois do mesmo pesadelo: uma rapariga morena, de cabelo encaracolado e uma covinha no queixo aproximava-se nua e abria as pernas por cima de mim, mas atrás da vagina tinha uns grandes e imoderadamente descaídos testículos. Nisto, entravam dois enfermeiros e prendiam-na numa camisa-de-forças. E era levada dali a espernear aos gritos, enquanto a figura soturna e magra de d´Azevedo ria desbragadamente no canto sombrio do quarto. Acordava suado, mas aliviado. No dia seguinte, fui queimar as cartas e nunca mais pensei no assunto.
FIM





