sexta-feira, 16 de março de 2012
quinta-feira, 8 de março de 2012
sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012
Microfábula coreana
Havia, certa vez, uma cabeleireira em Seul. Chamemo-lhe D. Luísa Kim – chamemo-lhe isto e não outra coisa por duas razões: à uma, porque a cabeleireira da minha mãe, durante longos anos, se chamava D. Luísa (se bem que não fosse a própria D. Luísa a justificar a fama do salão, mas sim uma jovem roliça e de boas cores chamada Cristina que, dizia-se, nascera já imbuída da mais solene e difícil mestria na nobre arte do secador de mão); à outra porque há mais gente de apelido Kim na Coreia do que Santos no Martiriologium.
Aos 62 anos, D. Luísa Kim era uma empresária individual de sucesso moderado. O seu salão ocupava o primeiro andar de um edifício do seu tempo: um espelho, em tijolo, cimento e vidro, de toda uma geração; pequeno; atarracado, mesmo; com um certo ar de ter sido mal nutrido na infância e de ter passado por muito; ataviado de alguma bijuteria moderna em remendos que potenciavam, mais do que escondiam, as marcas deixadas pelo tempo. Um edifício abnegado, ele mesmo um sacrifício em favor de algo em que se acreditava como valor, então: a ocupação pragmática e pobre de uma parcela de espaço para mais um berço da classe média, fronteiro ao mercado da electrónica na zona de Yongsan. Um restaurante de galinha frita e cerveja, no rés-do-chão, e D. Luísa Kim ao cimo de uma escada mal lançada. Porta de vidro automática, um secador de pé para cada uma das duas cadeiras, plantas tísicas em vasos de plástico, que eram já um caso de estudo sobre a não bio-degradabilidade do material, decoravam as três janelas que pontuavam a fachada – termo que se devia mais à orientação que a qualquer cuidado extra com o aspecto da dita em relação aos outros três lados do edifício. Um chão de linóleo azul, enxaguado muitas e muitas vezes, a limpeza deixando ver melhor as marcas da sua maioridade. Muita luz branca, verdadeiro dilúvio da dita, sinal último do espírito do lugar: modesto, sim, mas não humilde. Que o que ali se operava não era qualquer manobra de encobrimento mas a assunção plena, no espaço e nas clientes que o demandavam, de que certas coisas não têm reparo. A idade.
Como é que tudo começara? Como tudo o mais, naquele tempo: para evitar algo pior. Não se lembrava de alguém que, na sua geração, tivesse podido escolher. Depois da guerra e da pobreza, a única aspiração era por algo que tivesse qualquer sabor de normalidade. Talvez tivesse sido esse o segredo do milagre económico; gerações inteiras que de bom grado prescindiram do presente, que só desejaram ter o que fazer, ter com que se ocupar todas as horas do dia, para que o sal não fosse chegando às feridas. A sua mestra, Grace Park, havia aprendido o ofício com as mulheres dos militares americanos. E o ofício era simples: permanentes e mises de rolos. Ponto final. Eram esses os dois caminhos da normalidade e mais nenhum. Quarenta e seis anos de rolos e papel de alumínio, muito mais engenho que qualquer sombra de arte, fidelizando uma clientela perfeitamente alheada de qualquer desejo de beleza, que só queria ser como os outros e sentir que agora estava tudo bem.
Casara, como todas. Homem taciturno, de vida digna, vendendo material eléctrico. Afogado, por fim, num poço de soju e de silêncio. Uma década de viuvez e um filho de 36 anos ainda em casa. Lento e inseguro, Samuel Kim era já da geração que tinha à sua frente escolhas demais. A transição: atrás de si, os que se apagaram no trabalho; à sua frente, os que davam uns tíbios primeiros passos no caminho estranho de tentar assumir alguma individualidade. E ele no muro.
Agora que tinha mais tempo para isso, D. Luísa Kim dava por si alimentando um só desgosto: o de não ter casado com um americano. Mesmo se da soldadesca, conquanto não fosse preto. E havia tantos, no seu tempo. De repente, e havia sido de repente, reparara como o seu filho era ainda uma prova física do passado que ela queria ver enterrado de uma vez por todas. De repente, o corpo do seu filho ofendia-a pelo excesso de normalidade, daquela normalidade antiga em que tudo se anulara. Independentemente do que ele viesse a fazer com a sua vida, estava ali a sua protuberante cabeça coreana, o seu largo e baixo pescoço coreano, as suas coxas coreanas grossas como troncos. E hoje viam-se tantos estrangeiros na rua; cabeças pequeninas, pernas delgadas, pescoço alto... Os próprios coreanos mais novos pareciam ser já de outra qualidade, qualquer coisa mais de laboratório, como a batata holandesa. Mas o seu filho... ali estava o passado, em grossas vigas, mesmo à frente dos seus olhos. Tudo mudara tanto, no seu tempo, e as pessoas não se haviam importado porque estavam a produzir essa mudança – havia mises e permanentes, mais destas que das outras porque duravam mais e ficavam mais em conta; fazia-se assim porque era assim que se fazia. Só que agora, agora que parecia ser tempo de começar a pensar em pousar o secador, parecia também ser uma altura em que, como dizê-lo... as pessoas pensavam em si, ainda que nem sempre por si. Na forma do seu filho, D. Luísa Kim via a materialização de uma coisa que parecia não mais ter lugar nos dias de hoje: o trabalhador, um corpo nascido já como uma função subordinada.
Sofia Lee, a sua assistente no salão desde há dois anos, iria ser sua nora, mais mês menos mês. A moça e o seu filho ainda não se conheciam – nem isso interessava. Já era altura, para um e para outro. Já falara com a mãe dela e as contas haviam ficado acertadas. Sofia era uma rapariga das de agora; cabelo liso em cima de uma cabeça que pensava em roupas e cosméticos. Tinha jeito para as unhas e não se saía mal com o secador. Fora isso, tinha duas qualidades fundamentais: era baça e maleável. Não era feia. Nem bonita. Uma ausência de qualquer brilho próprio, de densidade e, por isso mesmo, adequada para o seu filho. Não se desmereciam, um e outro. E já era altura. A sua esperança era a de lavar, nas águas daquela união, qualquer traço de passado das suas mãos. O capítulo final dos deveres e obrigações. Depois disso, algum descanso e talvez a cirurgia para as varizes.
Na pequena cozinha nas traseiras do salão, D. Luísa Kim tirou a caixa do kimchi do armário onde tudo se guardava: arroz, café instantâneo, tubos de tintas para o cabelo meio usados, até espuma de barbear para uma cliente que tinha certos problemas. Duvidava que a cachopa soubesse fazer kimchi, pensou, mas teria tempo para aprender. Tirou os pauzinhos metálicos da gaveta e sentiu um ligeiro arrepio aos pensar nos netos que aqueles dois lhe dariam. Olhou para o salão, deserto, e para o prédio novo que agora ficava mesmo em frente das suas janelas. E não haveria maneira de terraplanar o passado por inteiro?...
Nisto, vzzzzzzzzzzzzzzzzzzt!
Moral 1: o teor de amoníaco das tintas para cabelo é altamente tóxico quando ingerido
Moral 2: que a classe média descanse em paz
segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012
Product placement - São Valentim
- Já ouviste o Canções para Senhoras? – perguntou ele, brincando com o preservativo como se fosse um iô-iô. Ou um pega-monstro.
- O quê? Tu também já ouviste? Muito me espanta...
- Que gracinha que o moço tem... Anda, vai tomar duche. Estou para ver como é que vais tirar essa merda dos tapetes de carpélio.
quinta-feira, 26 de janeiro de 2012
O lado longínquo do Mundo

Sou especialista em bestas, mais concretamente em atrair bestas, das quais depois tenho dificuldade em desenvencilhar-me. Viscosas, moentes, histriónicas, insidiosas e cruéis todas. Fazia-me lembrar uma prima que tenho, trigueira, de nariz grande e que eu não vejo há muito tempo: o cabelo negro, ligeiramente crespo, para o baixo, olhos castanhos grandes e sobrancelhas fartas. Vista de perto, a pele da face apresenta os poros dilatados, um problema de compleição dir-se-ia. Fez questão que fosse lá a casa. Primeiro mostrou-me a biblioteca. Dois tomos de Civitas Dei cheios de ‘post it’s amarelos e rosa. Depois, os vinte quatro volumes das 'Causas da Decadência da Igreja' de Georg Sand , uma biografia de Hoerbach, um portulano e um missal jesuíta de Anastacius Kirscher compunham a sua colecção de livros, que me mostrou. ‘Afinal, onde devo procurar o gato e como o devo reconhecer’ – atalhei. ‘Não sei bem. Foi visto a fugir por uma tampa de esgoto abaixo em Campo de Ourique, mas não tenho a certeza se me disseram a verdade’. Peguei na mochila, virei-lhe as costas e preparei-me para descer a velha escada de madeira e já galgara três lances dois a dois, ao que ela disse -‘Vem cá. Vamos foder! Lavei os lençóis por tua causa’. Desacelerei o passo mas não voltei atrás. ‘Não costumo, com as minhas clientes; é má deontologia. Desculpa’- Voltei a acelerar o passo. Apanhei o americano puxado por dois emigrantes sudaneses e com uns trocos que ainda tinha no bolso paguei ao revisor, que me passou um bilhete da máquina dispensadora que trazia a tiracolo. No americano, uma pequena televisão a preto-e-branco mostrava uma cinquentona ruiva a demonstrar reiki aplicado aos gatos. Uns eflúvios luminosos, que disse serem cor-de-rosa saíam-lhe das mãos para a cabeça do gato, mas aquilo pareceu-me pós-produção. Saí na Silva Carvalho, por baixo de um lodão. De mãos nos bolsos, comecei a procurar o gato, sem resultados. Passados vinte minutos, desisti e fui comer. Num banco, ao balcão estava ela a comer massa. ‘Já o encontrou?’. ‘Não. Mas ainda agora comecei.’ Pedi uma terrina de bacalhau em calda e comecei a comer em silêncio e de mochila ás costas. ‘Amanhã, tenho de apanhar o comboio. Antes disso, vou-te deixar uns apontamentos sobre marcas particulares do gato, manhas, hábitos e outras coisas que vais achar úteis, se o queres encontrar’. ‘Não quero. É pelo dinheiro. Não te serve outro gato? Vi vários por aí…’. -Disse de boca cheia. ‘Irmãozinho, não me serve um qualquer’. Tirou os fones, meteu-os nos ouvidos e foi cantarolando enquanto raspava uma nódoa da mini-saia. O empregado, com um lenço vermelho atado na cabeça aproximou-se de mim e disse: ‘ vi esse gato na biblioteca’.’Hum…qual biblioteca?’. ‘Entre os volumes quinze e dezassete das 'Causas da Decadência da Igreja' de George Sand. Falta-lhe o dezasseis’. Engoli o nabo cozido que acompanhava a terrina de bacalhau e saí a correr para casa dela. Subi as escadas e com um cartão da Carris, abri o trinco. ‘Esta gente, que deixa a porta só no trinco…’-pensei. Da estante tirei o décimo quinto volume das ‘Causas’ Lá estava um gato seco, só já pele e ossos, esborrachado como se tivesse sido passado a ferro e com ovos de traça. Ela tinha vindo atrás de mim. ‘Já me tinha esquecido que o tinha deixado aí. Fui atropelada por um triciclo motorizado com batatas há dois anos. Tive um traumatismo e estive em coma. Esqueci-me de muita coisa. Até do gato.’ Começou a chorar. ‘Como é que o empregado do bar sabia?’ – disse. ‘Acho que escrevi na ementa. Tirei o papel para fora e escrevi. Tenho episódios de escrita automática desde o acidente. Ou talvez cá tenha estado alguma vez. Ele trata-me como se me conhecesse e eu não me lembro nada dele.' ‘Deves-me trezentos euros’. – Disse-lhe eu estendendo-lhe o gato seco e passado a ferro. Ela afagou o gato. Pegou-me na mão e puxou-me para o quarto. Fodi-lhe o rabo a seco, porque ela assim me pediu. Suou, vermelha como um pimento e doía-lhe de certeza, mas não proferiu um ‘ai’. ‘Só me deves duzentos e noventa e cinco’. Peguei na mochila e fui-me embora a pensar se a quereria ver outra vez, caso em que lhe devolveria o dinheiro. 'Logo penso nisso'.
sábado, 21 de janeiro de 2012
segunda-feira, 16 de janeiro de 2012
Breviário de estilo - frases quebra-gelo, 2
"Eu concordo contigo; a sociedade e a própria linguagem são bastiões de misoginia e sexismo. É por isso que chamar-te 'ó caralha!' é um exercício de empowerment, um combate à visão da mulher como castração, percebes?"
sexta-feira, 6 de janeiro de 2012
sexta-feira, 30 de dezembro de 2011
Subsídios para a epistemologia e hermenêutica da cultura popular, 2
(não, este não é um texto sobre o Gil do Carmo...)
O ano áureo de 1976 ficou indelevelmente marcado, no que toca à cultura popular portuguesa, por dois fenómenos de inigualável quilate que, não podendo ser interpretados em conjunto, se assumiram como duas forças centrífugas que marcaram a evolução de duas correntes diversas que ainda hoje coexistem no panorama da produção artística nacional: a literatura varetiana e os glutões do Presto.
Falamos, é óbvio, dos primeiros vagidos de Vareta Funda, eterna melodia de esperança que soou nos idos de Março na Clínica de Santa Iria, e falamos também da memorável noite de 22 de Fevereiro, no Estúdio 1 da RTP, em que Carlos do Carmo e Eládio Clímaco trocaram olhinhos meigos, sob o olhar complacente de Ana Zanatti.
Num ano de festival monozigótico, em que todas as oito canções a concurso foram interpretadas pelo mancebo portalegrense da voz maviosa que certa vez chegou a retalhar a vida de um médico (médico esse reconstituído em colcha, que Cila do Carmo conserva na sua caminha de solteira), o POVO, o povo que ainda recentemente recebera a alternativa do toureio político, o povo apoderado da madrinha democracia, o povo que no meio da arena fazia verónicas aos cornudos fantasmas do passado (em pontas), o povo, dizíamos, o povo escolheu e clamou: “Vai o aborto!; para a Holanda, vai o aborto!”
Não que se fosse à Holanda abortar, não. Ir-se-ia à Holanda jogar à Eurovisão, com o Senhor do Carmo em camisola 10, treinado por José Niza e com massagens de Manuel Alegre. Ou mensagens. Ou mamensagens. Ou menmassagens. Gostamos de neologismos como gostávamos então, naquela redentora madrugada. Adiante.
O povo escolheu pela imprensa – sistema elitista, é certo, ligando o voto à literacia e aos tostõezinhos para o jornaleco. E escolheu (mal, devia ter ganho o “No teu poema”) a primeira canção portuguesa que aborda o tema do aborto sob o ponto de vista masculino (ou quase) da poesia (ou quase) de Manuel Alegre (ou nem tanto): “Uma Flor de Verde Pinho”, com o patrocínio do Brise Contínuo.
Que nos dizia, então, Alegre sobre o aborto? Vejamos:
EU PODIA CHAMAR-TE PÁTRIA MINHA
PODIA DAR-TE UM NOME DE RAINHA
MAS NÃO HÁ FORMA NÃO HÁ VERSO NÃO HÁ LEITO
COMO DIZER UM CORAÇÃO FORA DO PEITO? – potente interrogação sobre o carácter forçosamente silente do aborto enquanto prática que não se consegue dizer
MEU AMOR TRANSBORDOU E EU SEM NAVIO. – o presuntivo pai recrimina-se por não ter usado contraceptivo
GOSTAR DE TI É UM POEMA QUE NÃO DIGO – como amar o que “morreu-sem-ser”?; mais um dar de mão a Heidegger no aceitar do dizer poético como morada do ser
QUE NÃO HÁ TAÇA AMOR PARA ESTE VINHO
NÃO HÁ BARCO, NEM TRIGO, NÃO HÁ TREVO – a carestia; não se trata de um aborto burguês, um empecilho evitado, como se conclui no verso seguinte:
NÃO HÁ PALAVRAS PARA DIZER ESTA CANÇÃO. – é adultério, senhores!; adultério dos pobres, sem lugar para cantiguinhas nem excursões a Badajoz
GOSTAR DE TI É UM POEMA QUE NÃO ESCREVO. – a iliteracia do presuntivo pai, numa esquinada elitista de Alegre: o sujeito, o presuntivo pai, não tem acesso ao dizer poético, sendo portanto, e ainda na toada Heideggeriana, um elemento (pouco dotado, intui-se), do “pensamento” científico
QUE HÁ UM RIO SEM LEITO.E EU SEM CORAÇÃO. – o transporte; de súbito, Alegre guina para o misticismo típico de um Ruysbroek, postulando um “transporte trágico” ao invés do transporte do êxtase que o místico holandês descrevia – estaria Alegre a jogar ao ataque, procurando agradar ao júri holandês? Bem se fodeu, de qualquer modo, que a táctica não deu pontos
MAS NÃO HÁ FORMA, NÃO HÁ VERSO, NÃO HÁ LEITO
E por aí fora... Alegre escrevia, Niza compunha, Carmo cantava. Diz que se gravou uma versão em francês, meses mais tarde. Era chique, na altura.
Para além de convidar a uma releitura de Heidegger, “Uma Flor de Verde Pinho” foi um contributo singular para trazer à luz da mediatização a temática proscrita do aborto – falamos de 1976, recorde-se; fosse hoje e Vareta Funda provavelmente não teria nascido, que o que se poupava em Nervovitamine sempre dava para um frigorífico novo... Em resultado disso, diz que hoje é legal (tanto o aborto como o Vareta) que e se pode fazer às claras, felizmente. E já sabem: se transbordarem, usem o navio - ou o cacilheiro do dia seguinte.
Feliz Ano Novo.
quarta-feira, 14 de dezembro de 2011
quarta-feira, 30 de novembro de 2011
Subsídios para a epistemologia e hermenêutica da cultura popular, 1
Que corre sem parar - quando Glória Marta, 2ª classificada no festival e vencedora do prémio interpretação, apareceu na capa da TV Guia afirmando que A. Azinheira escrevera estes versos tendo por tema a incontinência urinária de Jorge Mendes, procurando assim criar diferendos no seio do duo, a mesma aproximou-se, por defeito, da imagem metafórica que aqui é transmitida: a da vitalidade masculina, da infindável riqueza da produção testicular. A imagem país-corpo confere nitidez a este rio que corre sem parar, no fluxo constante do desejo-sémen.
No meu país um navio
Nem sempre se faz ao mar - Azinheira introduz, pela primeira vez, de forma cortante e enfática, a temática do onanismo, não enquanto prática mas conceito; fá-lo ainda defensivamente, não negando totalmente, como o fará mais adiante, a impressão de "alternativa menor" que enforma o discurso público sobre a matéria: da parte do país-corpo, "nem sempre" há um esforço de contacto, de procura, de ligação ao exterior; é bela a forma como Azinheira aqui ilustra a temática do corpo como fronteira e insularidade.
No meu país a tristeza
Tem o nome solidão - remoque subtil à condição social do onanista.
No meu país a beleza
Invento-a na minha mão - e aqui sim, aqui o clamor de Azinheira, em belíssima imagem, sobre a assunção plena da prática masturbatória, uma verdadeira sublimação alquímica da punheta, se nos permitem, num eu que a si se contenta, espelhando de certa forma um criacionismo Deleuziano mas estanque, estanque numa individualidade singular Derridaiana ou, indo mais longe, na eleição do corpo como unidade básica e não comunicante do significado.
Navego um barco vazio
Que atravessa o rio
Para o cais da saudade - numa incursão metafísica, Azinheira aborda a mortalidade e a condição solitária da travessia da vida, o 'ser sozinho', o carácter extrínseco da 'outridade' - com um vislumbre de alguma religiosidade patente na imagem circular que o "cais da saudade" transmite enquanto ciclo de morte e ressurreição.
Vou numa onda tão bela
Neste barco à vela
Que não tem idade - referência oblíqua à perenidade do prazer onanista.
Navego um barco tão cheio
Contigo no meio
No rumo da esperança - a subtil inflexão de destinatário é, a nosso ver, um dos momentos maiores do poema de Azinheira; a forma discreta com que 'o outro' é introduzida é trazida com mestria, com a localização precisa de "contigo no meio" como prova da centralidade (e porventura da discursividade?) física e literal do falo; o "barco tão cheio" como imagem potente da plenitude de si, da existência singular.
Vou numa onda tão bela
Neste barco à vela
Com ar de criança - novamente a perenidade, o carácter de 'amigo de infância' da prática masturbatória, da punheta como primeira memória do prazer.
No meu país há um rio
Que corre sem parar
No meu país um navio
Nem sempre se faz ao mar
O meu país é um sol
De raiva, de alecrim - versos de grande carga telúrica; a imagem fálica do alecrim, a "raiva" associada ao poder físico, ao carácter totémico do falo como deus-corpo e deus-sol.
Mesmo assim tem uns olhos
Negros que esperam por mim - a morte, a morte como travão último - e único? - ao prazer onanista, fechando em beleza esta obra notável antes da repetição do refrão.
Navego um barco tão cheio
Contigo no meio
No rumo da esperança
Vou numa onda tão bela
Neste barco à vela
Com ar de criança
Para além da obra lírica, merece a pena atentar em três detalhes, todos eles concentrados nos primeiros trinta segundos, do videoclip acima reproduzido:
1) o automóvel descapotável - sendo sobejamente conhecida a carga fálica do símbolo "automóvel", a escolha de um descapotável de pequenas dimensões funciona também como símbolo de transparência. Há, por detrás desta escolha, uma mensagem a dois tempos: um claro "não me escondo como punheteiro" e um oblíquio, no sentido Barthesiano do termo, "enquanto punheteiro, toda a temática da dimensão do órgão sexual me é irrelevante: o meu basta-me na sua individual perfeição".
2) a espiral de Niemeyer - referência elíptica, por um lado à erudição de Mendes e Azinheira, e, por outro, à própria forma da espiral enquanto infinitude em si mesma, adonando-se assim de mais uma representação gráfica para a simbologia onanista.
3) o blusão de ganga com pelo de ovelha por dentro - tentativa nobre da definição de um código visual do onanista; verdadeira exortação: "punheteiro!, conhece-te e faz-te conhecer!"... A escolha da ganga pela sua simbologia proletária e minoritária é elegantemente complementada pelo fraseado filosófico que representa o pelo de ovelha por dentro do blusão: a inversão ou interiorização do exterior; a pele que sobre si mesma se vira; a dupla insularidade (ou tripla, se tivermos em conta que o videoclip é filmado na Madeira). Arriscaríamos ainda um potencial significado adicional: a eventualidade de Mendes ou Azinheira ou ambos terem sido sujeitos a circuncisão, simbolizando o blusão uma espécie de "retorno do prepúcio"?
Sobre o impacto social que esta obra feliz teve no nosso país, os mais recentes estudos de Maria Filomena Mónica transmitem uma imagem fidedigna e adequada, nada havendo a acrescentar.




