
Canoa usada pelo naturalista luso-brasileiro Alexandre Rodrigues Ferreira na expedição ao Rio Negro (Amazónia,1783-1787)
‘Do Forte do Maranhão, saímos no dia três de Novembro de 1783, pelas sete horas da manhã e passámos, uma semana depois, junto a Buriticupu e depois a Araguatins. Aqui nos encontrámos durante sete dias, eu e o médico Manuel Silva Mascarenhas, o segundo de Fronteira por dois costados, com o capitão-mor João Ferreira Paes, responsável pelo aprovisionamento e pelo pelotão de armas que nos acompanharia até à fronteira da capitania do Pará, em Jacareacanga. A nós, juntou-se mais tarde em Iranduba, perto da cidade de Manaus, o capitão-mar-e-guerra Joel Branco com o material de secagem e armazenagem das plantas. Levámos oitenta barricas pinceladas com pez para albergar as colecções botânicas e entomológicas e ainda dois teodolitos, três sextantes, dez termómetros e ainda uma pequena biblioteca com mapas e portulanos. Era a expedição constituída por uma corveta de calado baixo própria para o rio e nove canoas de índios com provisões e soldados. Após um mês de recolhas botânicas rumo á confluência dos rios Madeira e Negro, muito picados pelos mosquitos e nos termos perdido duas vezes durante uma semana por ter fugido o mateiro que nos guiava lográmos ser ajudados pelos padres jesuítas de Caroebe. Os meus companheiros achavam-se doentes de malária, sendo o mais doente o capitão Joel Branco. Nos seus delírios febris cantava ininterruptamente ‘Amigos até ao Fim’ e o ‘Mundo é uma bola de algodão’, tendo repetido vezes sem fim a rábula ‘Olho Vivo e Zé de Olhão’, pelo que vários índios fugiram meio tresloucados aos brados, invectivando-nos e batendo repetidamente na cabeça agravando mais ainda a nossa desventura. Temo ter eu próprio contraído alguma desconhecida doença, pois sinto intuitos libidinosos para com o capitão Mascarenhas, que belas coxas e carnes tem. Sinto apertos nas entranhas, por baixo. A nossa alimentação consiste em macacos-verdes fumados e argila do rio, pois já faz uma semana que se nos acabaram as alheiras de Mirandela e os biscoitos náuticos que trazíamos. Esta manhã não resisti e fiz o amor com o capitão Mascarenhas que agora diz que quer casar comigo e ter filhos pelo que respondi que anuísse a Santa Madre Igreja em tal abominável união carnal, apenas lograria tê-los moles, castanhos, sem esqueleto e com nervos de bife de macaco. Desses, se quisesse, teria todos os dias não se me prendessem as entranhas com a muita terra do rio que engolia. Também fiquei triste porque uma vez que encostámos na margem para pernoitar, o nosso cão foi comido por um jaguar. Achei-me melancólico durante três dias, pois gostava muito de abocanhar aquele cão: aqueles tomates peludos e pequeninos que cabiam os dois na boca de uma vez. Foi assim, que descrevi até á data, cerca de dois centos de espécies incógnitas para a Ciência e descobri o Amor de homens com homens nas remotas paragens do rio Negro'.