- Rastas velhas de anos e onde a pediculose só não prospera por milagre
- Fitinhas de ginástica rítmica com uns pesos na ponta para as gajas (e só as gajas) fazerem uma merda qualquer a que aparentemente chamam dança, ora para extorquir cobres a totós, ora para passar o tempo.
- Falta de higiene generalizada
- Djambés
- Odor desagradável a suor com patine de 3-15 dias
- Didgeridoos
- Gaia, oh Gaia!
- Cuspir onde se senta
- Vegan
- Percevejos
- Sarro no pescoço
- Rafeiros com sarna
- Apanhar tachadas de Casal da Eira entre ganzas que rodam por 30 bocas que andaram sabe-se lá onde
- Pulgas
- Arrastar o cu pelo miradouro de Santa Catarina todo o santo dia privando assim as pessoas humanas daquele espaço
- Betos a armar ao indigente convencidos que são almas livres
- brincar com pauzinhos em chamas
- Rafeiros que cagam onde não devem
- Bochcechas cheias de pitrol para os gajos (e só os gajos!) irem melgar o pobre incauto que resolveu parar na esplanada a beber um cafézinho
- Chatos
- Rafeiros com chagas
- Carraças
- Crusty Punks
- Anilhas dispersas um pouco por todas as partes visíveis do corpo (das outras não sei - nem quero saber), augurando um porvir preocupante quando as carnes começarem a amolecer e a pender por mor da passagem do tempo
- Manchas de suor nas t-shirts apertadas das gajas, onde também vislumbras uma argamassada e generosa massa pilosa
sábado, 16 de julho de 2011
O Frique
sexta-feira, 15 de julho de 2011
TEATRO PORNOGRÁFICO NOVECENTISTA DE CORDEL: HAMLET
- Oh bela Ofélia, de flores ornada em refulgentes cores, corres graciosa em prados e bosques, frescos regatos, colhendo ambrósia no Parnasso dos verdes campos da Dinamarca. Quisera eu em teu regaço repousar meu rosto cansado das vãs oposições com teu pai, Túlio Emídio.
- Oh Hameleto, que me namoriscas galante, conhecendo eu bem teus bárbaros intuitos libidinosos de furar-me o tracto traseiro com sórdida e insalubre verga, amassando-me a torcida mas picando-te nas pevides de melancia da Dinamarca que comi ontem.
- Como eu gostava que foras antes viril mancebo, pois meus entusiasmos veneais são mais conformes à condição varonil e outrossim queria eu meu tracto traseiro preenchido a rebentar pela semente da soldadesca, anões de circo, gado muar e asinino.
- Ah estulto Hameleto, que cuidas de tão malsãs inclinações! E eu aqui abandonada ao frémito cuja semente lançaste em minh’ alma e que descendo a meu ventre, aí fez acorrem víscidos humores e lânguidas mas ardentes disposições. Cuidaria poder, por detrás daquela verdejante e salvífica folhagem consumar o venéreo acto, mas deixando intacta minha virtude, pois para o sacro matrimónio me guardo, com Itríblio, o Electricista.
- Ah Ofélia, que te perdes em sensuais desígnios! Guarda essa dupla virtude e ainda a de outros doces orifícios também aptos a fruir das naturais alegrias!
-Sus! Que dizeis, Hameleto? Como posso não me perder no fogo da lascívia, agora que os quentes eflúvios escorrem da minha matriz e sinto suaves estocadas no tracto traseiro, fremente que é de desejo de ser preenchido e alargado até atingir a plena lisura dos dóceis e frágeis hímenes e subir ventre acima até meu colo e assomar-se nas orelhas, esta grossa torcida que desejo ver por ti amassada?
-São delírios de louca, os que proferes, Ofélia! Pois o mesmo desejo eu, com Asdrúbio, o teu bárbaro servo etíope. Que me varasse com o seu grosso e venoso membro escuro e me rebentasse os interfolia até ao ducto do ventre onde os fluidos quentes da sua semente se misturariam com os biliosos fleumas de meu corpo, que tanta melancolia me causam.
- Mas ora, esquecei, Hamleto, vossas inclinações e antes chupai em minha rósea e generosa natureza, que quasi glabra a achareis e se mesmo uma rala pubescência encontrades, estou certa que a achareis mui prazenteira e suave!
-Assim farei Ofélia… smmmurfffblll…
- Oh doces e prazerosos espasmos sinto em meu virginal vazadoiro! Que grande confusão sinto em minhas carnes! Que concupiscências descubro eu, por haveres ora sugado recolhidas e secretas excrescências! Confundo-me Hameleto e parece-me que sinto em meu ventre largarem-se umas gordas massas fedentinosas. Peço-te que não me recrimineis, se em tua franca face de Príncipe as ora largo profusas!
Mas, Oh, doce Ofélia, como pudera censurar-te? Se neste amplexo me acho coberto do fruto castanho de teu doce ventre descuidado!
- Então aqui vão mais.
Oh.
Oh.
Finis.
sexta-feira, 8 de julho de 2011
HIPÉRBATOS
Si Amor entre las plumas de su nido
Prendió mi libertad, ¿qué hará ahora,
Que en tus ojos, dulcísima señora,
Armado vuela, ya que no vestido?
Entre las vïoletas fui herido
Del áspid que hoy entre los lilios mora;
Igual fuerza tenías siendo aurora,
Que ya como sol tienes bien nacido.
Saludaré tu luz con voz doliente,
Cual tierno ruiseñor en prisión dura
Despide quejas, pero dulcemente.
Diré como de rayos vi tu frente
Coronada, y que hace tu hermosura
Cantar las aves, y llorar la gente.
Luis de Góngora y Argote (1561- 1627)
Do alvescente ventre as saudades sinto, em meu sentido volteando; em meu ser a cândida imagem de alvos orbes, os teus seios de róseas e hírtulas aréolas, o leite esguichando, de dois já prenhe, pois havemos-nos descuidado e soi esguichar eu em teu posterior tracto, a tua Natureza quis eu daquela vez, num bruto forçar, as delicadas peles rebentar. Do ventre, a contenção já esquecida era, pois de tantos anos a fio o tracto zurzir, lasso se quedou e flácido esmaeceu; laradas e ventos extemporâneos soltando. Fedentes placas de velho chorume, de anos, guardas no teu rendado intérulo (*). Pernas abaixo vêm amiúde laradas grossas, antes pelas virginais virilhas escorrendo, depois pelas coxas e as fivelas dos sapatos cobrindo de grossa e amarela pastada. Glauca (**) a tua crica, do muito afazer que lhe davas, moços da aldeia, ferradores, gado: tudo no teu virginal vazadoiro malhava e zurzia, ó Musa! Loiros caracóis a tua cabeça outrora ostentava, ora glabra e piolhosa por esses tempos de folia debalde suspiras descontente. Grande era teu ânimo de borrada te veres e os muitos sucos em tuas alvas e esvoaçantes vestes empapavam, viscoso rasto no chão deixando, qual fémino caracol. Na tua boca, de que os dentes mera lembrança ora são, alva semente de burros, pretos e almocreves, em borbotões se acoitavam, de tal sorte que as tuas amigas, apenas de olhar para ti, de esperanças ficavam. Pelos floridos prados, pernas abaixo, os filhos ias largando e com as vacas se criavam. Dotes belos, doces lembranças, ora canto musa querida, sobretudo em dias de regras, gostava de te malhar na ferida…
(*) o.m.q. roupa interior; cuecas. Do latim interulus.
(**) O m.q. azul.
quarta-feira, 6 de julho de 2011
A CASA DO MORTO SECO
‘Qual delas era a mais velha?’ – Isso já tinham as duas irmãs esquecido. As pequenas quezílias próprias de quem vive junto à dezenas de anos davam densidade ao torpor quotidiano daquelas duas irmãs solteiras, em que pouco ou nada de novo havia. Uma escondia a placa esquelética à outra e ria-se ás escondidas, por exemplo. E passavam o dia nisto. A lista de pequenas e infames malvadezes que Florinda fazia á irmã era, no entanto, mais longa: encher-lhe a fralda para adultos incontinentes com mostarda e pimenta, pôr-lhe o aparelho auditivo e a televisão com o volume no máximo, pôr-lhe o pó de ralar os calos no pimenteiro, bostear o bordo da sanita depois de lhe dar laxante à sucapa, desviar-lhe o vale da pensão para ela passar fome o resto do mês, por o número de telefone em páginas de encontros sexuais, declarar óbito da irmã na caixa geral de pensões, pôr massa consistente dentro do tubo da pasta dentífrica, sodomizá-la com um ‘strap-on’ de 24 polegadas depois de lhe dar dose tripla de comprimidos para dormir e depois deixar dois euros no travesseiro, roubar-lhe as cuecas todas, telefonar a ameaçar suicídio e depois espalhar uns restos de tripas que pediu no talho mesmo por baixo da janela e esconder-se, enfim, pequenas e muitas maldades de irmã para irmã.
Adélia, a vítima das pequenas mas perversas sevícias decidiu por cobro ao abuso e urdiu um plano de vingança. Modificou a fechadura para apenas poder ser destrancada por fora e saiu enquanto a irmã estava a dormir a sesta após o almoço. Tinha entaipado as janelas à pressa com tijolos e cortado o fio do telefone. Depois, levantou todo o dinheiro da conta conjunta onde juntavam algumas poupanças e fugiu para o Mónaco. Passados dois anos, voltou á casa onde tinha deixado a irmã para morrer. A casa tinha dado lugar a um centro de estética e talassoterapia onde aplicavam botox. Questionou sem resultado os poucos conhecidos que se lembravam delas. Sofreu, por não poder contemplar a sua vingança. Queria ver o cadáver ressequido, desorbitado e pendendo carnes pútridas da irmã na cadeira de baloiço. Riu-se tresloucadamente: ‘ah ah ah ah ah ah ah ah ah ah ah ah ah ah ah ah ah ah ah ah ah ah!....’ e perdeu urina mesmo ali no passeio em frente à geladaria. Um mês depois estava no manicómio, drogada a pintar na sala de convívio quando a enfermeira lhe disse que tinha uma visita. Adélia engasgou-se, arregalou os olhos e tolhida de horror e incredulidade viu a sua irmã entrar. Olha-a inexpressivamente e em silêncio. ‘Pensavas que tinhas acabado comigo, hein? ‘- disse. ‘Escapei pelo sifão da sanita depois de duas semanas de horrível dieta para emagrecer e lá caber. Nesse tempo só comi broa de Avintes e anchovas de tomatada. Sofri muito, mas besuntei-me de sebo das botas e escapuli-me até á ETAR onde fui socorrida por um rico homem com quem casei. Era um bom homem mas morreu de uns ataques. –‘Maldita!’ – Disse Adélia. A enfermeira tinha sido subornada por Florinda e á noite á sucapa preparava-se para fazer uma lobotomia a Adélia. Pé ante pé, foi até a cela almofadada de Adélia com um serrote, uma pua e um alguidar para aparar o sangue e os miolos. Mas tropeçou no vaso de noite que estava muito cheio e entornou-o. Sobressaltada, Adélia acordou e sacou da caçadeira de canos serrados que tinha debaixo dos lençóis. A cabeça da enfermeira ficou espalhada na parede do quarto. Adélia saiu do manicómio no cesto da roupa suja e em poucas horas logrou localizar a irmã. Escondeu-se no quarto e esperou. A irmã, por fim, regressou do centro de dia, bebeu um chá de camomila e foi-se deitar. Sentiu nos lençóis o pegajoso de uma feijoada à transmontana e guinchou enojada. Adélia saiu do roupeiro e riu-se num esgar demencial: ‘ah ah ah ah ah ah ah ah ah ah ah ah ah ah ah ah ah ah ah ah ah ah ah ah ah ah ah ah ah ah ah ah ah ah ah ah!...’ A irmã golpeou-lhe a cabeça com um candeeiro e Adélia bateu com a cabeça na bacia dos despejos. Quando acordou, estava atada á cama e amordaçada. A irmã meneava um safa-calos e preparava-se para lhe ralar um joanete. Fitou a irmã com um misto de ódio e horror e pensou na próxima vingança que havia de perpetrar: havia de matar um cão, cortar-lhe o pénis cheio de esperma seca esverdeada e enfiá-lo na merenda de ‘Lanche Isidoro’ e meia carcaça de Florinda. Ela havia de se vomitar toda e Adélia teria a sua vingança. Servida fria.
FIM
sexta-feira, 1 de julho de 2011
segunda-feira, 27 de junho de 2011
OS PESADELOS DE CORDEL DE ASSENTO DA SANITA- I : um pesadelo matemático.
Kurt Gödel (1906 - 1978)
'A mathematician is a device for turning coffee into theorems'. ~ Paul Erdos
As instruções surgiram num sonho particularmente lúcido. Dele acordei gradualmente, sem nada do seu conteúdo se ter desvanecido na transição para vigília. Na praça, terceira rua à esquerda, junto ao chafariz; terceiro andar esquerdo. Sou normalmente esquivo e ansioso nos contactos sociais, mas nesse dia, ao homem de cerca de sessenta anos que me abriu a porta, sorri e disse-lhe sem mais delongas, que tinha sonhado com aquela porta verde-escura, naquele terceiro andar. Não pareceu estranhar e mandou-me entrar cordialmente. No corredor havia cheiro a madeira e tapetes velhos e o soalho rangia. O homem guiou-me vagarosamente até uma sala na semi-sombra. Na parede haviam quadros com gravuras: de astronomia, alquimia, história natural, símbolos cabalísticos,mitológicos, plantas e mapas. A dada altura causou-me alguma estranheza ter de virar à esquerda para entrar num segundo corredor à direita, onde tive de andar ás arrecuas, seguindo as instruções do homem – para poder atingir a ombreira da porta uns dois metros à frente. Pensei em truques de feira com espelhos, mas decidi não me deter e suspender o julgamento deste facto apenas insólito. Depois de me estender uma chávena de café e beber um golo da sua, disse-me: - ‘Aponte-me um destes quadros. Com qual deles sonhou hoje? ‘ Apontei para uma gravura setecentista representando o Sol com feições antropomórficas, gravada na prata de um espelho. Levantei-me e observei mais atentamente o espelho. A minha própria face reflectia-se na superfície espelhada pode detrás dos traços da gravura. De súbito, como se tivesse surgido um segundo espelho, o meu reflexo multiplicou-se. Depois, como se o segundo espelho se aproximasse do primeiro, o número de imagens tornou-se infinito. De seguida, brotaram transfinitas imagens, ou seja mais que infinitas, como se as superfícies dos espelhos coalescessem e se fundissem uma na outra. Despertei desses poucos segundos hipnóticos e perturbadores, abanando a cabeça rapidamente para um lado e para o outro e, passando a mão na cara, limpei o suor. – ‘Que se passa?’- inquiri.- ‘Nada de especial’ - disse o homem. –‘Apenas viu a sua verdadeira natureza, que é transfinita’. - disse o homem. .- ‘Nada de especial’– ‘Que se passa?’- inquiri.- Despertei desses poucos segundos hipnóticos e perturbadores, abanando a cabeça rapidamente para um lado e para o outro e, passando a mão na cara, limpei o suor. De súbito, brotaram transfinitas imagens, ou seja mais que infinitas, como se as superfícies dos espelhos coalescessem e se fundissem uma na outra. Depois, como se o segundo espelho se aproximasse do primeiro, o número de imagens tornou-se infinito. Em seguida, como se tivesse surgido um segundo espelho, o meu reflexo multiplicou-se.
Assim, todos os acontecimentos se sucederam de forma retrógrada, até estar a sonhar e acordei antes de adormecer. Depois, experimentei tudo em simultâneo: dormir, acordar, sonhar, levantar-me, ir até ao terceiro andar da terceira rua, ver-me ao espelho & etc. E essa experiência continha, de novo, a experiência do tempo retrógrado e a simultaneidade, como naquelas figuras que se representam a si próprias e assim por diante, num recesso infinito de auto-referência. Não podendo conter, em si mesma, a sua própria explicação, a Experiência total, isto é, vista do exterior, coisa que apenas consigo conceber e não experimentar, é ainda assim INCOMPLETA. Há zonas cinzentas, acerca das quais nada pode ser dito e por mais que se busque a sua explicação no seu espelho recíproco. São indecidíveis. O tempo para resolver o seu estatuto de verdade ou ilusão é indeterminado. Podem ser segundos, podem ser eons.
Acordei num estado de puro pânico por sonhar esta monstruosidade. E aterrorizou-me pensar que era isto, de certa forma, a Plenitude ou a Eternidade. A imagem do homem, que percebo agora, primeiro ter sido a de Bernhard Riemman, depois a de Georg Cantor, depois a de Henri Poincaré, depois a de Kurt Gödel e por fim as de Alonso Church e Alan Turing, demorou todo o dia a desvanecer-se e à medida que o sentimento da Realidade vulgar retornava muito lentamente.
Estive mais de oito dias sem querer adormecer. Mas, um efeito colateral do pesadelo: saber o que está nas zonas cinzentas, não deixa de me obcecar.
domingo, 26 de junho de 2011
quinta-feira, 2 de junho de 2011
HISTÓRIA DE 'O'
Dentro do automóvel, o amante pegou-lhe docemente na mão e pediu-lhe que tirasse as cuecas. Ela sentiu o couro dos estofos colar-se ás nádegas. Deixou-se ficar enquanto o amante lhe passava as mãos pelos seios. Por fim, beijou-a nos lábios. ‘Está na hora. Tens de ir’. Através do portão de grades, iluminavam-se as janelas do Castelo de Roissy. O estava um pouco apreensiva e viu aproximar-se o criado, que a conduziu cordialmente à entrada enquanto lhe olhava para as nádegas, um tudo-nada sobressaindo da curtíssima mini-saia. Os saltos-altos de O pisando por sobre as folhas secas do Outono produziam o único som em redor. O criado arfava ligeiramente. Lá longe ouviam-se risos, vindos de uma janela aberta do castelo. Nisto, dois galifões saltaram de trás de um arbusto e agarraram o criado. Desapertaram-lhe o cinto, baixaram-lhe as calças e sodomizaram-no. Ele tinha um quisto esfinctero-perineal muito grande, que foi empurrado à bruta pelo recto adentro ‘Ai! Ai! Ai! Ai!...’ – gritava. O quisto, que era causado por uma ténia, mas que entretanto já tinha morrido lá dentro e apodrecido, rebentou e os líquidos nauseabundos esguicharam-lhe pelo ânus indo regar uns rododendros. Mais, ainda se borrou todo. Os galifões, depois de terminarem o servicinho, sacudiram as toscas roupas de serapilheira cheias de catotas coladas, vestígios das arremetidas anteriores contra o criado e debandaram aos pulos. – ‘Tem tendências, você’ – perguntou O. O criado fez um risinho envergonhado, recompôs as ceroulas e indicou-lhe novamente o caminho, em silêncio. Nisto, por detrás de uma sebe de buxo artisticamente topiada, surgiram de novo os galifões e atracaram-se ao traseiro do criado, zurzindo-o sem dó nem piedade enquanto emitiam animalescos urros. O criado esborratou-se pernas abaixo de novo e ficou com os sapatos cheios de merda. Eram uns belos sapatos italianos, daqueles com buraquinhos e que ficaram irremediavelmente entupidos com fezes dos galifões. A dobra das calças também ficara cheia de uma larada amarelada, com bagos de arroz por digerir e com um forte cheiro a azedo. Parecia que tinha farrapos no meio de um líquido amarelado e leitoso. Fazia ‘chlap, chlap’ quando o criado andava. O seguia-o em silêncio e ao fim de hora e meia nunca mais chegavam ao castelo. O sentia a volúpia das gotas de suor que corriam pelas virilhas por baixo da saia, levemente excitada e distraída, quando o criado estacou. ‘-Hum. Cheira-me aqui a marosca…’-disse. Um leve ruído saiu de trás de uma moita de escalónia e a cabeça de um dos galifões assomou-se com um riso sardónico. ‘Eh, eh, eh, zumba, zumba’ – disse guturalmente um deles. O outro só se ria com a gosma a borbulhar nos brônquios. Alçaram-se num salto para cima do criado e atafulharam-lhe o recto com as insalubres vergas. O criado gritava ‘Ai, ui, uiui, aiaiai…a minha rica tripinha. Uma grossa hemorróida rebentou-lhe de esguicho para cima do soutien de um dos galifões. O, entretanto, arrepelava as peles das unhas das mãos com uma lima, assobiava e tirava catotas brancas do espaço entre os grandes e os pequenos lábios. Colando-as áquelas que retirava do ânus ficava com uma dupla catota preta e branca e dizia: -‘olha, é a chamada ‘catota Sheridans’. E ria-se a bandeiras despregadas. O criado estava desmoralizado e as gotas de suor rolavam-lhe pela testa. –‘ É assim a vida de um humilde serviçal, senhora’. As cuecas do criado eram agora uma pasta ensopada de merda rala, meita e coágulos avermelhados. Voltou a colocá-las e as cuecas colaram-se-lhe integralmente aos tomates. Peidou-se copiosamente, suspirou e seguiram o caminho do castelo.
Sir Stephen olhava pela janela afastando o cortinado de veludo brocado. Uma criada semi-nua, apenas de meias, ligas, uma gargantilha de veludo e um grosso cilindro de baquelite fundamente enfiado no recto ‘para ir alargando’, servia-lhe um Chateau Grouvignac de 1956, aproximando a bandeja com uma vénia ligeira. Sir Stephen via ao longe dois vultos cavalgando um outro entre dois arbustos enquanto sons longínquos e resfolegantes (e uns ’ais’) se faziam ouvir vindos da janela.
FIM
sexta-feira, 27 de maio de 2011
i.
eu não me consigo sentar sobre os calcanhares. não consigo, pronto. dobro os joelhos até certo ponto, sim, mas o melhor que consigo é ficar com o ar de quem arreia o calhau atrás de umas moitas. lá se foi a elasticidade. e foi-se a troco de quê?
ii.
a elasticidade física ainda é como o outro. se sentirmos muito a sua falta, diz-se adeus à auto-imagem viril e faz-se a inscrição no ioga. a elasticidade mental, essa, já é outra história. a sua ausência dá umas cãibras fodidas.
iii.
lembra-me como se fosse hoje. eu, o carlos, a cláudia, o rui e a kikas podíamos estar animadamente a brincar aos Cinco (cabia-me o papel de tim, o cão, por ser o mais novo...) e, de repente, alguém dizia ‘vamos antes brincar às escondidas’. e íamos. fretava-se uma aviãozinho militar para decidir quem ficava a contar e, em menos de um fósforo (cabia-me o papel de não brincar com eles...), mudava-se o jogo. assim, como quem estala os dedos porque nasceu com eles e não é entrevadinho.
iv.
mudava-se o jogo porque sim. e, a tomar conta de nós, estava o télé, manuel qualquer coisa, respeitável geronte que teria os seus 90 anos quando eu nasci. dedos e unhas amarelos do tabaco, que nunca largou, e uma cadeira de metal entre a porta, que também parecia nunca largar. ao contrário dos outros adultos que pareciam levar tudo a sério, o télé tinha qualquer coisa de beatífico. se nos distraíamos a encher panelas com água, terra e ervas que depois lhe atirávamos, a sua ira momentânea era uma coisa ligeira, meia dúzia de palavras ríspidas que mal percebíamos e uma certa impassabilidade – quase conivência – como quem sabe que nada é como vai ser dantes.
v.
mudava-se o jogo porque não. porque não valia a pena acreditar que o outro jogo é que era bom. porque, se fosse jogo de haver quem perdesse ou ganhasse, nada em disputa valia a perda de não experimentar outro jogo. e, assim como assim, tudo acabaria nas vozes das mães a lembrar-nos que era hora de papo-secos com manteiga e leite com toddy.
vi.
era isso que nós queríamos. brincar, tanto fazia se a isto se a outra coisa; brincar até que nos apetecesse o papo-seco – uma oposição dialética e às vezes de proto-guerrilha entre o apetite pelo papo-seco e o dever do papo-seco. brincar, brincar a não brincar, brincar a decidir a que é que se brinca, brincar à experimentação pura de qualquer ideia que parecesse valer a pena.
vii.
eu não me consigo sentar sobre os calcanhares. será, porventura, saudável. a falta de flexibilidade torna-me incapaz de me auto-felar, o que me leva a aceitar viver em sociedade e a participar activamente na bolsa de valores da companhia. não sei ao certo quando é que comecei a brincar ao jogo do ‘a sério’ com outros adultos – sei que ainda estamos na mesma, pouca gente parece achar piada à cena e ninguém parece querer brincar a outra coisa.
viii.
a elasticidade mental, pobrezinha, está de há muito calcinada por se brincar sempre ao mesmo. primeiro sintoma: o de sentir uma pergunta como “o que é que tu queres?” como uma espécie de ultimato. fugimos todos dela como fugíamos da maria, filha do télé, muito menos impávida que o pai e perita no manejo de vergastas diversas.
ix.
e o que é que queremos? que ‘tenhamos muita saúde e amigos também’, como nos parabéns? o que é que queremos para nós e para os outros, em especial para os que, por conveniência de linguagem, chamamos nossos? pois é. não sabemos. não sabemos nem queremos pensar muito nisso. segue jogo; segue jogo que este, ao menos, já sabemos como é que se joga.
x.
nada é tão elementarmente conservador como uma mãe que tem comida para dar aos filhos. mais: a injustiça constitutiva do jogo actual nem sequer melindra muito porque quase qualquer mãe acredita, mesmo que o negue, que os seus filhos são melhores que os outros. repiso: uma mãe que TENHA comida para dar aos filhos. a mãe que não tem, essa, pode estar disposta a parir uma revolução.
xi.
nada é tão elementarmente conservador como o homem que consegue providenciar. é evidente, não carece de outra explicação. o que não consegue, mais depressa implode que explode.
xii.
segue jogo, portanto; segue jogo que o meu avô era soldado e eu já sou alferes; segue jogo que a minha avó era bobinadeira e eu já vendo brincos na parfois. segue jogo porque isto sempre foi assim. segue jogo porque eles não fazem nada e são todos a mesma coisa e só querem é poleiro. segue jogo porque mudamos as caras e eles continuam eles. segue jogo porque o estado está ali e eu estou aqui. segue jogo porque eu jogo esta merda mas não me deixo engrupir nessa jogatana dos partidos. segue jogo porque eu voto mas cago de alto em quem voto. segue jogo porque ainda acredito num pai natal que me vai dar aquilo que eu não sabia que queria. segue jogo porque deixámos a brincadeira definhar de tal maneira que sugerir qualquer outra coisa é como rir num enterro. segue jogo porque as perguntas incomodam e pensar é um desperdício e o tempo está porreiro e há mamas quase à mostra e está ali um tipo a comer-me com os olhos e há sardinhas e uns trocos no bolso para umas mines. segue jogo porque eu esfalfo-me a trabalhar mas o meu filho há-de ser, pelo menos, tão fodilhão como o pai e a minha filha há-de casar com quem a estime e, por isso, têm que ser como os outros e ter o que os outros têm e que nem sabemos se têm mas se aparece na televisão é porque concerteza têm e, raios m’a partam, mas os meus filhos não são menos que ninguém e isto é tudo por eles que eu só quero é que eles tenham o que eu nunca tive que a minha professora primária batia-me na pilinha com uma palmatória e a galdéria do terceiro esquerdo pensa que é alguém só porque o filho mais velho aparece aqui com um hyundai novo e engravatadinho porque é delegado de propaganda médica mas ela há-de ver quando o meu mais novo for estudar para engenheiro. segue jogo porque, concerteza, sempre houve estado, sempre houve portugal, sempre houve nações, sempre houve bola aos domingos, sempre houve escolas e hospitais e cartões de crédito. segue jogo porque estamos todos cansados demais a trabalhar para nos darmos ao luxo de pensar noutro jogo qualquer. segue jogo porque quando, no século passado, se tentou mudar de jogo, aquilo só deu merda. segue jogo porque não vale a pena pensar que este jogo já é diferente e não o vimos mudar. segue jogo porque os outros meninos ainda estão a brincar, mãe, e ainda não me apetece lanchar.
xiii.
se gostamos do jogo, é jogá-lo ‘a sério’. é o futebol total, é jogar no campo todo e pensar em tudo (e em todos) como nosso. é tomar conta dos partidos, nem que seja à bruta; é cuidar do estado como se fosse o nosso alpendre; é jogarmos todos, mesmo o badocha de merda que parece uma menina a chutar a bola. se estamos fartos, é sentar-mo-nos na mesa da cozinha, a embocar o papo-seco, a pensar e a falar que, se calhar, amanhã podíamos brincar antes a...
quinta-feira, 26 de maio de 2011
sexta-feira, 20 de maio de 2011
A ALIANÇA OVAL
Foi quando o do meio nasceu. Numa das contracções, ela apertou-me a mão com tanta força que deformou a aliança. De circular passou a oval e passados nove anos, quando a rodo, há uma posição em que me aperta o dedo e outra, a um quarto de volta, em que fica larga.
quinta-feira, 19 de maio de 2011
Negócios do Fim do Mundo (ou talvez não)
O 'DN' já mais parece o 'Correio da Manha', ou uma Sucursal d'O Incrível'...
... ou então é a realidade que é tão manhosa, que já não há maneira de lhe escapar.
Empresários ateus propõem cuidar de animais de cristãos - Globo - DN



