quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Subsídios para a epistemologia e hermenêutica da cultura popular, 1


O DUO NEVADA

O ano de 1987 ficou indelevelmente marcado, no que toca à cultura popular portuguesa, por dois fenómenos de elevado quilate que, não podendo ser interpretados em conjunto, se assumiram como duas forças centrípetas que marcaram a evolução de duas correntes diversas que ainda hoje coexistem no panorama da produção artística nacional. Falamos, é óbvio, da primeira publicação de Vareta Funda, ainda sob o pseudónimo que os pais lhe haviam dado ao nascer, numa colectânea de poesia infantil lançada pela então Escola Preparatória n.º 2 de Tomar (obra de surpreendente maturidade e profundidade, articulando um pensamento bem definido, estruturado e estruturante da nova escola da filosofia portuguesa, agrupada sob o chavão necessariamente vago de "olha que o gajo/a gaja é mais esperto/esperta do que parece"), e falamos também da memorável noite no Casino do Funchal em que o Duo Nevada levou para casa um bocadinho da base misturada com suor da Ana Zanatti, como prémio pela vitória no Festival RTP da Canção.

Sendo que a exegese da obra singular de Vareta Funda tem já sido levada a cabo por académicos de renome, a nossa análise de hoje irá incidir no contributo maior que a obra lírica do Duo Nevada, melhor dizendo: de Alfredo Azinheira, aportou à reestruturação da mentalidade portuguesa no que toca a comportamentos sexuais recorrentes mas ausentes, por princípio, do debate popular sobre a matéria: o onanismo.

Sobre a singela melodia de Jorge Mendes e Alfredo Azinheira, com a acertada orquestração de Ramon Galarza, o Duo Nevada perpetrou um salto épico, um rasgar de limites no conteúdo lírico da canção popular - não se trata apenas da primeira letra inteiramente dedicada à masturbação (masculina, no caso) mas outrossim da coragem em assumir toda uma simbologia (vide videoclip acima) conexa, sobre a qual algumas pistas serão indicadas mais adiante.

Debrucemo-nos, de antemão, sobre a elegante obra de Alfredo Azinheira, que abaixo se transcreve, com análise de entremeio:

NESTE BARCO À VELA - o evidente mas não deselegante jogo gráfico transporta-nos, por homofonia, para a assunção fálica de que neste barco HÁ vela. Se Maria Velho da Costa argumentou, em defesa da canção de Mário Mata, preterida naquele festival, que este mesmo título é em si mesmo sexista e misógino, permitimo-nos salientar o frescor e a frontalidade com que Azinheira assume uma masculinidade inteira e não castrada, pré-freudiana, inscrevendo-se numa tradição telúrica e ancestral que, em 1987, ainda sob os escombros do terramoto Modern Talking, urgia recuperar.

No meu país há um rio

Que corre sem parar - quando Glória Marta, 2ª classificada no festival e vencedora do prémio interpretação, apareceu na capa da TV Guia afirmando que A. Azinheira escrevera estes versos tendo por tema a incontinência urinária de Jorge Mendes, procurando assim criar diferendos no seio do duo, a mesma aproximou-se, por defeito, da imagem metafórica que aqui é transmitida: a da vitalidade masculina, da infindável riqueza da produção testicular. A imagem país-corpo confere nitidez a este rio que corre sem parar, no fluxo constante do desejo-sémen.
No meu país um navio
Nem sempre se faz ao mar
- Azinheira introduz, pela primeira vez, de forma cortante e enfática, a temática do onanismo, não enquanto prática mas conceito; fá-lo ainda defensivamente, não negando totalmente, como o fará mais adiante, a impressão de "alternativa menor" que enforma o discurso público sobre a matéria: da parte do país-corpo, "nem sempre" há um esforço de contacto, de procura, de ligação ao exterior; é bela a forma como Azinheira aqui ilustra a temática do corpo como fronteira e insularidade.

No meu país a tristeza
Tem o nome solidão
- remoque subtil à condição social do onanista.
No meu país a beleza
Invento-a na minha mão -
e aqui sim, aqui o clamor de Azinheira, em belíssima imagem, sobre a assunção plena da prática masturbatória, uma verdadeira sublimação alquímica da punheta, se nos permitem, num eu que a si se contenta, espelhando de certa forma um criacionismo Deleuziano mas estanque, estanque numa individualidade singular Derridaiana ou, indo mais longe, na eleição do corpo como unidade básica e não comunicante do significado.

Navego um barco vazio
Que atravessa o rio
Para o cais da saudade -
numa incursão metafísica, Azinheira aborda a mortalidade e a condição solitária da travessia da vida, o 'ser sozinho', o carácter extrínseco da 'outridade' - com um vislumbre de alguma religiosidade patente na imagem circular que o "cais da saudade" transmite enquanto ciclo de morte e ressurreição.
Vou numa onda tão bela
Neste barco à vela
Que não tem idade - referência oblíqua à perenidade do prazer onanista.

Navego um barco tão cheio
Contigo no meio
No rumo da esperança - a subtil inflexão de destinatário é, a nosso ver, um dos momentos maiores do poema de Azinheira; a forma discreta com que 'o outro' é introduzida é trazida com mestria, com a localização precisa de "contigo no meio" como prova da centralidade (e porventura da discursividade?) física e literal do falo; o "barco tão cheio" como imagem potente da plenitude de si, da existência singular.
Vou numa onda tão bela
Neste barco à vela
Com ar de criança - novamente a perenidade, o carácter de 'amigo de infância' da prática masturbatória, da punheta como primeira memória do prazer.

No meu país há um rio
Que corre sem parar
No meu país um navio
Nem sempre se faz ao mar

O meu país é um sol
De raiva, de alecrim -
versos de grande carga telúrica; a imagem fálica do alecrim, a "raiva" associada ao poder físico, ao carácter totémico do falo como deus-corpo e deus-sol.
Mesmo assim tem uns olhos
Negros que esperam por mim -
a morte, a morte como travão último - e único? - ao prazer onanista, fechando em beleza esta obra notável antes da repetição do refrão.

Navego um barco tão cheio
Contigo no meio
No rumo da esperança
Vou numa onda tão bela
Neste barco à vela
Com ar de criança

Para além da obra lírica, merece a pena atentar em três detalhes, todos eles concentrados nos primeiros trinta segundos, do videoclip acima reproduzido:

1) o automóvel descapotável - sendo sobejamente conhecida a carga fálica do símbolo "automóvel", a escolha de um descapotável de pequenas dimensões funciona também como símbolo de transparência. Há, por detrás desta escolha, uma mensagem a dois tempos: um claro "não me escondo como punheteiro" e um oblíquio, no sentido Barthesiano do termo, "enquanto punheteiro, toda a temática da dimensão do órgão sexual me é irrelevante: o meu basta-me na sua individual perfeição".

2) a espiral de Niemeyer - referência elíptica, por um lado à erudição de Mendes e Azinheira, e, por outro, à própria forma da espiral enquanto infinitude em si mesma, adonando-se assim de mais uma representação gráfica para a simbologia onanista.

3) o blusão de ganga com pelo de ovelha por dentro - tentativa nobre da definição de um código visual do onanista; verdadeira exortação: "punheteiro!, conhece-te e faz-te conhecer!"... A escolha da ganga pela sua simbologia proletária e minoritária é elegantemente complementada pelo fraseado filosófico que representa o pelo de ovelha por dentro do blusão: a inversão ou interiorização do exterior; a pele que sobre si mesma se vira; a dupla insularidade (ou tripla, se tivermos em conta que o videoclip é filmado na Madeira). Arriscaríamos ainda um potencial significado adicional: a eventualidade de Mendes ou Azinheira ou ambos terem sido sujeitos a circuncisão, simbolizando o blusão uma espécie de "retorno do prepúcio"?

Sobre o impacto social que esta obra feliz teve no nosso país, os mais recentes estudos de Maria Filomena Mónica transmitem uma imagem fidedigna e adequada, nada havendo a acrescentar.



terça-feira, 29 de novembro de 2011

Holy Shit!


segunda-feira, 31 de outubro de 2011

A ACADEMIA DO NU



O espólio epistolar do Padre António Fernandes d’Azevedo veio-me parar ás mãos num bem atado molho de papel amarelecido que consultei mesmo ali, de joelhos, num recanto do enorme e poeirento alfarrabista da Misericórdia. Desdobrei as páginas ressequidas à medida que se aguçava a minha curiosidade. A maioria polemizava com interlocutores que desconhecia, mas pus de parte várias que debatiam um tema particular: a ‘Academia do Nu’. Datada de 1780, a Acta de Constituição desta academia dizia tratar-se esta mesma ‘de uma sociedade artística dedicada ao exercício e excelência do desenho, pintura e escultura do corpo humano nu’, com sede na Travessa do Cabral, número quinze, em Lisboa. Terá sido atribulada a primeira sessão de desenho, pois instigada por umas senhoras piedosas, uma pequena multidão foi lançar pedras às janelas da Academia na sua primeira sessão.Isto, após sérias dificuldades em encontrar um homem que aceitasse posar despido. O Padre d’ Azevedo era o secretário da Academia e numa carta ao seu amigo Arquibaldo Alves, dono de uns banhos públicos em Alcântara, descreve assim, Rodrigo, o modelo contratado: ‘era farto de carnes e ventrudo, tinha as pernas fininhas e a testa baixa, várias escrófulas e nascidos saíam-lhe das costas e um túbaro era mor de muito mais descaído que outro que quase chegava a meio da coxa. ‘ No entanto, foi Rodrigo, que era calafate de profissão, o único que aceitou expor-se assim à vista dos artistas. Encontrei um dos esquissos do padre e fiquei perplexo. Era o mais infantil dos desenhos, num papel cheio de manchas amareladas que deixavam cair um pó algo fétido e com cheiro a peixe. Descartei que se tratasse de bolor e de repente enrubesci, pois dei-me conta que seriam manchas de sémen e que as motivações d ´Azevedo eram as mais veneais e muito menos artísticas! Ejaculara profusamente para o desenho – disciplina para a qual não tinha a menor vocação – por cupidez e volúpia. Á medida que fui passando as cartas uma a uma, fui encontrando comentários de cariz misantrópico e mesmo apreciações do físico de Rodrigo que se aproximavam da pornografia, tais como aquela de Sebastião João Mendes ‘o venoso membro de Rodrygo, saliente de crespa pinteleyra faz-me correr a bílis ao traseiro, o que me dá uma vontade inevitável de obrar e depois andar com a tercida acima e abaixo para obter voluptuosas sensações enquanto remiro as nalgas fortes de Rodrigo e imagyno que lhe engulo o marsapo e (ilegível) os quelhoens’. Enojado, deixei cair o molho das cartas aos pés. Outro comentário, este de Ramiro de Cinfães, que dizia ‘Eu, Ramiro de Cinfaens, adido de Sua Majestade ao Paço de Villa Viçosa, eis-me perdido em devaneios do sentido, ao contemplar a beleza apolínea de Rodrigo e tremem minhas carnes ao pensar que podia fazer como de fanchono com ele ali atrás do…’ A dura realidade impôs-se e deduzi claramente que a ‘Academia do Nu’ não passava do debochado clube de invertidos da Lisboa de Bocage e Filinto Elísio. A suar, dirigi-me à Igreja do Loreto e rezei. Passaram horas. O prior, estranhando a minha persistência e imobilidade, aproximou-se e tocou-me no ombro ‘filho, estás bem? Estás há já quatro horas aí sentado’. Queres um copo de água? ‘ Dizia isto, enquanto me fazia trejeitos e olhinhos dengosos. Passou a mão pelas virilhas e lambeu o lábio superior. Aos tropeções e agarrando o molho de cartas, corri atabalhoadamente por entre os bancos da igreja e saí porta fora. Á noite tive insónias e nos poucos períodos em que dormi, soçobrei; e acordava suado e sempre depois do mesmo pesadelo: uma rapariga morena, de cabelo encaracolado e uma covinha no queixo aproximava-se nua e abria as pernas por cima de mim, mas atrás da vagina tinha uns grandes e imoderadamente descaídos testículos. Nisto, entravam dois enfermeiros e prendiam-na numa camisa-de-forças. E era levada dali a espernear aos gritos, enquanto a figura soturna e magra de d´Azevedo ria desbragadamente no canto sombrio do quarto. Acordava suado, mas aliviado. No dia seguinte, fui queimar as cartas e nunca mais pensei no assunto.

FIM

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Halloween


domingo, 16 de outubro de 2011

Dirty Mind


sábado, 15 de outubro de 2011

Atheist Bastard

sábado, 8 de outubro de 2011

Sê tu próprio!





segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Harley Davidson


sábado, 16 de julho de 2011

O Frique





  • Rastas velhas de anos e onde a pediculose só não prospera por milagre

  • Fitinhas de ginástica rítmica com uns pesos na ponta para as gajas (e só as gajas) fazerem uma merda qualquer a que aparentemente chamam dança, ora para extorquir cobres a totós, ora para passar o tempo.

  • Falta de higiene generalizada

  • Djambés

  • Odor desagradável a suor com patine de 3-15 dias

  • Didgeridoos

  • Gaia, oh Gaia!

  • Cuspir onde se senta

  • Vegan

  • Percevejos

  • Sarro no pescoço

  • Rafeiros com sarna

  • Apanhar tachadas de Casal da Eira entre ganzas que rodam por 30 bocas que andaram sabe-se lá onde

  • Pulgas

  • Arrastar o cu pelo miradouro de Santa Catarina todo o santo dia privando assim as pessoas humanas daquele espaço

  • Betos a armar ao indigente convencidos que são almas livres

  • brincar com pauzinhos em chamas

  • Rafeiros que cagam onde não devem

  • Bochcechas cheias de pitrol para os gajos (e só os gajos!) irem melgar o pobre incauto que resolveu parar na esplanada a beber um cafézinho

  • Chatos

  • Rafeiros com chagas

  • Carraças

  • Crusty Punks

  • Anilhas dispersas um pouco por todas as partes visíveis do corpo (das outras não sei - nem quero saber), augurando um porvir preocupante quando as carnes começarem a amolecer e a pender por mor da passagem do tempo

  • Manchas de suor nas t-shirts apertadas das gajas, onde também vislumbras uma argamassada e generosa massa pilosa

sexta-feira, 15 de julho de 2011

TEATRO PORNOGRÁFICO NOVECENTISTA DE CORDEL: HAMLET



- Oh bela Ofélia, de flores ornada em refulgentes cores, corres graciosa em prados e bosques, frescos regatos, colhendo ambrósia no Parnasso dos verdes campos da Dinamarca. Quisera eu em teu regaço repousar meu rosto cansado das vãs oposições com teu pai, Túlio Emídio.

- Oh Hameleto, que me namoriscas galante, conhecendo eu bem teus bárbaros intuitos libidinosos de furar-me o tracto traseiro com sórdida e insalubre verga, amassando-me a torcida mas picando-te nas pevides de melancia da Dinamarca que comi ontem.

- Como eu gostava que foras antes viril mancebo, pois meus entusiasmos veneais são mais conformes à condição varonil e outrossim queria eu meu tracto traseiro preenchido a rebentar pela semente da soldadesca, anões de circo, gado muar e asinino.

- Ah estulto Hameleto, que cuidas de tão malsãs inclinações! E eu aqui abandonada ao frémito cuja semente lançaste em minh’ alma e que descendo a meu ventre, aí fez acorrem víscidos humores e lânguidas mas ardentes disposições. Cuidaria poder, por detrás daquela verdejante e salvífica folhagem consumar o venéreo acto, mas deixando intacta minha virtude, pois para o sacro matrimónio me guardo, com Itríblio, o Electricista.

- Ah Ofélia, que te perdes em sensuais desígnios! Guarda essa dupla virtude e ainda a de outros doces orifícios também aptos a fruir das naturais alegrias!

-Sus! Que dizeis, Hameleto? Como posso não me perder no fogo da lascívia, agora que os quentes eflúvios escorrem da minha matriz e sinto suaves estocadas no tracto traseiro, fremente que é de desejo de ser preenchido e alargado até atingir a plena lisura dos dóceis e frágeis hímenes e subir ventre acima até meu colo e assomar-se nas orelhas, esta grossa torcida que desejo ver por ti amassada?

-São delírios de louca, os que proferes, Ofélia! Pois o mesmo desejo eu, com Asdrúbio, o teu bárbaro servo etíope. Que me varasse com o seu grosso e venoso membro escuro e me rebentasse os interfolia até ao ducto do ventre onde os fluidos quentes da sua semente se misturariam com os biliosos fleumas de meu corpo, que tanta melancolia me causam.

- Mas ora, esquecei, Hamleto, vossas inclinações e antes chupai em minha rósea e generosa natureza, que quasi glabra a achareis e se mesmo uma rala pubescência encontrades, estou certa que a achareis mui prazenteira e suave!

-Assim farei Ofélia… smmmurfffblll…

- Oh doces e prazerosos espasmos sinto em meu virginal vazadoiro! Que grande confusão sinto em minhas carnes! Que concupiscências descubro eu, por haveres ora sugado recolhidas e secretas excrescências! Confundo-me Hameleto e parece-me que sinto em meu ventre largarem-se umas gordas massas fedentinosas. Peço-te que não me recrimineis, se em tua franca face de Príncipe as ora largo profusas!

Mas, Oh, doce Ofélia, como pudera censurar-te? Se neste amplexo me acho coberto do fruto castanho de teu doce ventre descuidado!

- Então aqui vão mais.

Oh.

Oh.

Finis.

sexta-feira, 8 de julho de 2011

HIPÉRBATOS




Si Amor entre las plumas de su nido
Prendió mi libertad, ¿qué hará ahora,
Que en tus ojos, dulcísima señora,
Armado vuela, ya que no vestido?

Entre las vïoletas fui herido
Del áspid que hoy entre los lilios mora;
Igual fuerza tenías siendo aurora,
Que ya como sol tienes bien nacido.

Saludaré tu luz con voz doliente,
Cual tierno ruiseñor en prisión dura
Despide quejas, pero dulcemente.

Diré como de rayos vi tu frente
Coronada, y que hace tu hermosura
Cantar las aves, y llorar la gente.


Luis de Góngora y Argote (1561- 1627)

Do alvescente ventre as saudades sinto, em meu sentido volteando; em meu ser a cândida imagem de alvos orbes, os teus seios de róseas e hírtulas aréolas, o leite esguichando, de dois já prenhe, pois havemos-nos descuidado e soi esguichar eu em teu posterior tracto, a tua Natureza quis eu daquela vez, num bruto forçar, as delicadas peles rebentar. Do ventre, a contenção já esquecida era, pois de tantos anos a fio o tracto zurzir, lasso se quedou e flácido esmaeceu; laradas e ventos extemporâneos soltando. Fedentes placas de velho chorume, de anos, guardas no teu rendado intérulo (*). Pernas abaixo vêm amiúde laradas grossas, antes pelas virginais virilhas escorrendo, depois pelas coxas e as fivelas dos sapatos cobrindo de grossa e amarela pastada. Glauca (**) a tua crica, do muito afazer que lhe davas, moços da aldeia, ferradores, gado: tudo no teu virginal vazadoiro malhava e zurzia, ó Musa! Loiros caracóis a tua cabeça outrora ostentava, ora glabra e piolhosa por esses tempos de folia debalde suspiras descontente. Grande era teu ânimo de borrada te veres e os muitos sucos em tuas alvas e esvoaçantes vestes empapavam, viscoso rasto no chão deixando, qual fémino caracol. Na tua boca, de que os dentes mera lembrança ora são, alva semente de burros, pretos e almocreves, em borbotões se acoitavam, de tal sorte que as tuas amigas, apenas de olhar para ti, de esperanças ficavam. Pelos floridos prados, pernas abaixo, os filhos ias largando e com as vacas se criavam. Dotes belos, doces lembranças, ora canto musa querida, sobretudo em dias de regras, gostava de te malhar na ferida…

(*) o.m.q. roupa interior; cuecas. Do latim interulus.
(**) O m.q. azul.

quarta-feira, 6 de julho de 2011

A CASA DO MORTO SECO



‘Qual delas era a mais velha?’ – Isso já tinham as duas irmãs esquecido. As pequenas quezílias próprias de quem vive junto à dezenas de anos davam densidade ao torpor quotidiano daquelas duas irmãs solteiras, em que pouco ou nada de novo havia. Uma escondia a placa esquelética à outra e ria-se ás escondidas, por exemplo. E passavam o dia nisto. A lista de pequenas e infames malvadezes que Florinda fazia á irmã era, no entanto, mais longa: encher-lhe a fralda para adultos incontinentes com mostarda e pimenta, pôr-lhe o aparelho auditivo e a televisão com o volume no máximo, pôr-lhe o pó de ralar os calos no pimenteiro, bostear o bordo da sanita depois de lhe dar laxante à sucapa, desviar-lhe o vale da pensão para ela passar fome o resto do mês, por o número de telefone em páginas de encontros sexuais, declarar óbito da irmã na caixa geral de pensões, pôr massa consistente dentro do tubo da pasta dentífrica, sodomizá-la com um ‘strap-on’ de 24 polegadas depois de lhe dar dose tripla de comprimidos para dormir e depois deixar dois euros no travesseiro, roubar-lhe as cuecas todas, telefonar a ameaçar suicídio e depois espalhar uns restos de tripas que pediu no talho mesmo por baixo da janela e esconder-se, enfim, pequenas e muitas maldades de irmã para irmã.

Adélia, a vítima das pequenas mas perversas sevícias decidiu por cobro ao abuso e urdiu um plano de vingança. Modificou a fechadura para apenas poder ser destrancada por fora e saiu enquanto a irmã estava a dormir a sesta após o almoço. Tinha entaipado as janelas à pressa com tijolos e cortado o fio do telefone. Depois, levantou todo o dinheiro da conta conjunta onde juntavam algumas poupanças e fugiu para o Mónaco. Passados dois anos, voltou á casa onde tinha deixado a irmã para morrer. A casa tinha dado lugar a um centro de estética e talassoterapia onde aplicavam botox. Questionou sem resultado os poucos conhecidos que se lembravam delas. Sofreu, por não poder contemplar a sua vingança. Queria ver o cadáver ressequido, desorbitado e pendendo carnes pútridas da irmã na cadeira de baloiço. Riu-se tresloucadamente: ‘ah ah ah ah ah ah ah ah ah ah ah ah ah ah ah ah ah ah ah ah ah ah!....’ e perdeu urina mesmo ali no passeio em frente à geladaria. Um mês depois estava no manicómio, drogada a pintar na sala de convívio quando a enfermeira lhe disse que tinha uma visita. Adélia engasgou-se, arregalou os olhos e tolhida de horror e incredulidade viu a sua irmã entrar. Olha-a inexpressivamente e em silêncio. ‘Pensavas que tinhas acabado comigo, hein? ‘- disse. ‘Escapei pelo sifão da sanita depois de duas semanas de horrível dieta para emagrecer e lá caber. Nesse tempo só comi broa de Avintes e anchovas de tomatada. Sofri muito, mas besuntei-me de sebo das botas e escapuli-me até á ETAR onde fui socorrida por um rico homem com quem casei. Era um bom homem mas morreu de uns ataques. –‘Maldita!’ – Disse Adélia. A enfermeira tinha sido subornada por Florinda e á noite á sucapa preparava-se para fazer uma lobotomia a Adélia. Pé ante pé, foi até a cela almofadada de Adélia com um serrote, uma pua e um alguidar para aparar o sangue e os miolos. Mas tropeçou no vaso de noite que estava muito cheio e entornou-o. Sobressaltada, Adélia acordou e sacou da caçadeira de canos serrados que tinha debaixo dos lençóis. A cabeça da enfermeira ficou espalhada na parede do quarto. Adélia saiu do manicómio no cesto da roupa suja e em poucas horas logrou localizar a irmã. Escondeu-se no quarto e esperou. A irmã, por fim, regressou do centro de dia, bebeu um chá de camomila e foi-se deitar. Sentiu nos lençóis o pegajoso de uma feijoada à transmontana e guinchou enojada. Adélia saiu do roupeiro e riu-se num esgar demencial: ‘ah ah ah ah ah ah ah ah ah ah ah ah ah ah ah ah ah ah ah ah ah ah ah ah ah ah ah ah ah ah ah ah ah ah ah ah!...’ A irmã golpeou-lhe a cabeça com um candeeiro e Adélia bateu com a cabeça na bacia dos despejos. Quando acordou, estava atada á cama e amordaçada. A irmã meneava um safa-calos e preparava-se para lhe ralar um joanete. Fitou a irmã com um misto de ódio e horror e pensou na próxima vingança que havia de perpetrar: havia de matar um cão, cortar-lhe o pénis cheio de esperma seca esverdeada e enfiá-lo na merenda de ‘Lanche Isidoro’ e meia carcaça de Florinda. Ela havia de se vomitar toda e Adélia teria a sua vingança. Servida fria.

FIM

sexta-feira, 1 de julho de 2011

doodie
doodie.com