sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Subsídios para a epistemologia e hermenêutica da cultura popular, 2

Carlos do Carmo e o aborto

(não, este não é um texto sobre o Gil do Carmo...)

O ano áureo de 1976 ficou indelevelmente marcado, no que toca à cultura popular portuguesa, por dois fenómenos de inigualável quilate que, não podendo ser interpretados em conjunto, se assumiram como duas forças centrífugas que marcaram a evolução de duas correntes diversas que ainda hoje coexistem no panorama da produção artística nacional: a literatura varetiana e os glutões do Presto.

Falamos, é óbvio, dos primeiros vagidos de Vareta Funda, eterna melodia de esperança que soou nos idos de Março na Clínica de Santa Iria, e falamos também da memorável noite de 22 de Fevereiro, no Estúdio 1 da RTP, em que Carlos do Carmo e Eládio Clímaco trocaram olhinhos meigos, sob o olhar complacente de Ana Zanatti.

Num ano de festival monozigótico, em que todas as oito canções a concurso foram interpretadas pelo mancebo portalegrense da voz maviosa que certa vez chegou a retalhar a vida de um médico (médico esse reconstituído em colcha, que Cila do Carmo conserva na sua caminha de solteira), o POVO, o povo que ainda recentemente recebera a alternativa do toureio político, o povo apoderado da madrinha democracia, o povo que no meio da arena fazia verónicas aos cornudos fantasmas do passado (em pontas), o povo, dizíamos, o povo escolheu e clamou: “Vai o aborto!; para a Holanda, vai o aborto!”

Não que se fosse à Holanda abortar, não. Ir-se-ia à Holanda jogar à Eurovisão, com o Senhor do Carmo em camisola 10, treinado por José Niza e com massagens de Manuel Alegre. Ou mensagens. Ou mamensagens. Ou menmassagens. Gostamos de neologismos como gostávamos então, naquela redentora madrugada. Adiante.

O povo escolheu pela imprensa – sistema elitista, é certo, ligando o voto à literacia e aos tostõezinhos para o jornaleco. E escolheu (mal, devia ter ganho o “No teu poema”) a primeira canção portuguesa que aborda o tema do aborto sob o ponto de vista masculino (ou quase) da poesia (ou quase) de Manuel Alegre (ou nem tanto): “Uma Flor de Verde Pinho”, com o patrocínio do Brise Contínuo.

Que nos dizia, então, Alegre sobre o aborto? Vejamos:

EU PODIA CHAMAR-TE PÁTRIA MINHA

DAR-TE O MAIS LINDO NOME PORTUGUÊS – o nomear como trazer à existência; Alegre em toada Heideggeriana ou as meias-voltas desta coisa da poesia, em que o anti-fascista dá a mão ao proto-nazi

PODIA DAR-TE UM NOME DE RAINHA

QUE ESTE AMOR É DE PEDRO POR INÊS. – diz que era menina; Alegre, pondo seus académicos pés nos sapatões deformados pelos joanetes do pai presuntivo, carpe a melancolia do nome que ficou por dar à menina que ficou por ser; a referência camoniana é um momento maior neste poema: vislumbre da neurose, do progenitor obrigando o mundo a “adorar a morta”


MAS NÃO HÁ FORMA NÃO HÁ VERSO NÃO HÁ LEITO

PARA ESTE FOGO AMOR, PARA ESTE RIO – o somatório das impossibilidades, a não-existente-existência do feto abortado; imagens poderosas: fogo, amor, o carácter sanguíneo do rio, o des-desejo perante o órgão sexual da mulher que aborta


COMO DIZER UM CORAÇÃO FORA DO PEITO? – potente interrogação sobre o carácter forçosamente silente do aborto enquanto prática que não se consegue dizer


MEU AMOR TRANSBORDOU E EU SEM NAVIO. – o presuntivo pai recrimina-se por não ter usado contraceptivo


GOSTAR DE TI É UM POEMA QUE NÃO DIGO – como amar o que “morreu-sem-ser”?; mais um dar de mão a Heidegger no aceitar do dizer poético como morada do ser


QUE NÃO HÁ TAÇA AMOR PARA ESTE VINHO

NÃO HÁ GUITARRAS, NEM CANTAR DE AMIGO

NÃO HÁ FLOR, NÃO HÁ FLOR DE VERDE PINHO. – uma singela tergiversação pela imagética mundana da festa que se não fez, da expectativa gorada. “eu já tinha comprado o Brise Contínuo e tudo”...


NÃO HÁ BARCO, NEM TRIGO, NÃO HÁ TREVO – a carestia; não se trata de um aborto burguês, um empecilho evitado, como se conclui no verso seguinte:


NÃO HÁ PALAVRAS PARA DIZER ESTA CANÇÃO. – é adultério, senhores!; adultério dos pobres, sem lugar para cantiguinhas nem excursões a Badajoz


GOSTAR DE TI É UM POEMA QUE NÃO ESCREVO. – a iliteracia do presuntivo pai, numa esquinada elitista de Alegre: o sujeito, o presuntivo pai, não tem acesso ao dizer poético, sendo portanto, e ainda na toada Heideggeriana, um elemento (pouco dotado, intui-se), do “pensamento” científico


QUE HÁ UM RIO SEM LEITO.E EU SEM CORAÇÃO. – o transporte; de súbito, Alegre guina para o misticismo típico de um Ruysbroek, postulando um “transporte trágico” ao invés do transporte do êxtase que o místico holandês descrevia – estaria Alegre a jogar ao ataque, procurando agradar ao júri holandês? Bem se fodeu, de qualquer modo, que a táctica não deu pontos


MAS NÃO HÁ FORMA, NÃO HÁ VERSO, NÃO HÁ LEITO

PARA ESTE FOGO AMOR, PARA ESTE RIO

COMO DIZER UM CORAÇÃO FORA DO PEITO?

MEU AMOR TRANSBORDOU E EU SEM NAVIO.

GOSTAR DE TI É UM POEMA QUE NÃO DIGO

QUE NÃO HÁ TAÇA AMOR PARA ESTE VINHO

NÃO HÁ GUITARRAS NEM CANTAR DE AMIGO

NÃO HÁ FLOR NÃO HÁ FLOR DE VERDE PINHO.

E por aí fora... Alegre escrevia, Niza compunha, Carmo cantava. Diz que se gravou uma versão em francês, meses mais tarde. Era chique, na altura.

Para além de convidar a uma releitura de Heidegger, “Uma Flor de Verde Pinho” foi um contributo singular para trazer à luz da mediatização a temática proscrita do aborto – falamos de 1976, recorde-se; fosse hoje e Vareta Funda provavelmente não teria nascido, que o que se poupava em Nervovitamine sempre dava para um frigorífico novo... Em resultado disso, diz que hoje é legal (tanto o aborto como o Vareta) que e se pode fazer às claras, felizmente. E já sabem: se transbordarem, usem o navio - ou o cacilheiro do dia seguinte.

Feliz Ano Novo.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Art Class


quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Subsídios para a epistemologia e hermenêutica da cultura popular, 1


O DUO NEVADA

O ano de 1987 ficou indelevelmente marcado, no que toca à cultura popular portuguesa, por dois fenómenos de elevado quilate que, não podendo ser interpretados em conjunto, se assumiram como duas forças centrípetas que marcaram a evolução de duas correntes diversas que ainda hoje coexistem no panorama da produção artística nacional. Falamos, é óbvio, da primeira publicação de Vareta Funda, ainda sob o pseudónimo que os pais lhe haviam dado ao nascer, numa colectânea de poesia infantil lançada pela então Escola Preparatória n.º 2 de Tomar (obra de surpreendente maturidade e profundidade, articulando um pensamento bem definido, estruturado e estruturante da nova escola da filosofia portuguesa, agrupada sob o chavão necessariamente vago de "olha que o gajo/a gaja é mais esperto/esperta do que parece"), e falamos também da memorável noite no Casino do Funchal em que o Duo Nevada levou para casa um bocadinho da base misturada com suor da Ana Zanatti, como prémio pela vitória no Festival RTP da Canção.

Sendo que a exegese da obra singular de Vareta Funda tem já sido levada a cabo por académicos de renome, a nossa análise de hoje irá incidir no contributo maior que a obra lírica do Duo Nevada, melhor dizendo: de Alfredo Azinheira, aportou à reestruturação da mentalidade portuguesa no que toca a comportamentos sexuais recorrentes mas ausentes, por princípio, do debate popular sobre a matéria: o onanismo.

Sobre a singela melodia de Jorge Mendes e Alfredo Azinheira, com a acertada orquestração de Ramon Galarza, o Duo Nevada perpetrou um salto épico, um rasgar de limites no conteúdo lírico da canção popular - não se trata apenas da primeira letra inteiramente dedicada à masturbação (masculina, no caso) mas outrossim da coragem em assumir toda uma simbologia (vide videoclip acima) conexa, sobre a qual algumas pistas serão indicadas mais adiante.

Debrucemo-nos, de antemão, sobre a elegante obra de Alfredo Azinheira, que abaixo se transcreve, com análise de entremeio:

NESTE BARCO À VELA - o evidente mas não deselegante jogo gráfico transporta-nos, por homofonia, para a assunção fálica de que neste barco HÁ vela. Se Maria Velho da Costa argumentou, em defesa da canção de Mário Mata, preterida naquele festival, que este mesmo título é em si mesmo sexista e misógino, permitimo-nos salientar o frescor e a frontalidade com que Azinheira assume uma masculinidade inteira e não castrada, pré-freudiana, inscrevendo-se numa tradição telúrica e ancestral que, em 1987, ainda sob os escombros do terramoto Modern Talking, urgia recuperar.

No meu país há um rio

Que corre sem parar - quando Glória Marta, 2ª classificada no festival e vencedora do prémio interpretação, apareceu na capa da TV Guia afirmando que A. Azinheira escrevera estes versos tendo por tema a incontinência urinária de Jorge Mendes, procurando assim criar diferendos no seio do duo, a mesma aproximou-se, por defeito, da imagem metafórica que aqui é transmitida: a da vitalidade masculina, da infindável riqueza da produção testicular. A imagem país-corpo confere nitidez a este rio que corre sem parar, no fluxo constante do desejo-sémen.
No meu país um navio
Nem sempre se faz ao mar
- Azinheira introduz, pela primeira vez, de forma cortante e enfática, a temática do onanismo, não enquanto prática mas conceito; fá-lo ainda defensivamente, não negando totalmente, como o fará mais adiante, a impressão de "alternativa menor" que enforma o discurso público sobre a matéria: da parte do país-corpo, "nem sempre" há um esforço de contacto, de procura, de ligação ao exterior; é bela a forma como Azinheira aqui ilustra a temática do corpo como fronteira e insularidade.

No meu país a tristeza
Tem o nome solidão
- remoque subtil à condição social do onanista.
No meu país a beleza
Invento-a na minha mão -
e aqui sim, aqui o clamor de Azinheira, em belíssima imagem, sobre a assunção plena da prática masturbatória, uma verdadeira sublimação alquímica da punheta, se nos permitem, num eu que a si se contenta, espelhando de certa forma um criacionismo Deleuziano mas estanque, estanque numa individualidade singular Derridaiana ou, indo mais longe, na eleição do corpo como unidade básica e não comunicante do significado.

Navego um barco vazio
Que atravessa o rio
Para o cais da saudade -
numa incursão metafísica, Azinheira aborda a mortalidade e a condição solitária da travessia da vida, o 'ser sozinho', o carácter extrínseco da 'outridade' - com um vislumbre de alguma religiosidade patente na imagem circular que o "cais da saudade" transmite enquanto ciclo de morte e ressurreição.
Vou numa onda tão bela
Neste barco à vela
Que não tem idade - referência oblíqua à perenidade do prazer onanista.

Navego um barco tão cheio
Contigo no meio
No rumo da esperança - a subtil inflexão de destinatário é, a nosso ver, um dos momentos maiores do poema de Azinheira; a forma discreta com que 'o outro' é introduzida é trazida com mestria, com a localização precisa de "contigo no meio" como prova da centralidade (e porventura da discursividade?) física e literal do falo; o "barco tão cheio" como imagem potente da plenitude de si, da existência singular.
Vou numa onda tão bela
Neste barco à vela
Com ar de criança - novamente a perenidade, o carácter de 'amigo de infância' da prática masturbatória, da punheta como primeira memória do prazer.

No meu país há um rio
Que corre sem parar
No meu país um navio
Nem sempre se faz ao mar

O meu país é um sol
De raiva, de alecrim -
versos de grande carga telúrica; a imagem fálica do alecrim, a "raiva" associada ao poder físico, ao carácter totémico do falo como deus-corpo e deus-sol.
Mesmo assim tem uns olhos
Negros que esperam por mim -
a morte, a morte como travão último - e único? - ao prazer onanista, fechando em beleza esta obra notável antes da repetição do refrão.

Navego um barco tão cheio
Contigo no meio
No rumo da esperança
Vou numa onda tão bela
Neste barco à vela
Com ar de criança

Para além da obra lírica, merece a pena atentar em três detalhes, todos eles concentrados nos primeiros trinta segundos, do videoclip acima reproduzido:

1) o automóvel descapotável - sendo sobejamente conhecida a carga fálica do símbolo "automóvel", a escolha de um descapotável de pequenas dimensões funciona também como símbolo de transparência. Há, por detrás desta escolha, uma mensagem a dois tempos: um claro "não me escondo como punheteiro" e um oblíquio, no sentido Barthesiano do termo, "enquanto punheteiro, toda a temática da dimensão do órgão sexual me é irrelevante: o meu basta-me na sua individual perfeição".

2) a espiral de Niemeyer - referência elíptica, por um lado à erudição de Mendes e Azinheira, e, por outro, à própria forma da espiral enquanto infinitude em si mesma, adonando-se assim de mais uma representação gráfica para a simbologia onanista.

3) o blusão de ganga com pelo de ovelha por dentro - tentativa nobre da definição de um código visual do onanista; verdadeira exortação: "punheteiro!, conhece-te e faz-te conhecer!"... A escolha da ganga pela sua simbologia proletária e minoritária é elegantemente complementada pelo fraseado filosófico que representa o pelo de ovelha por dentro do blusão: a inversão ou interiorização do exterior; a pele que sobre si mesma se vira; a dupla insularidade (ou tripla, se tivermos em conta que o videoclip é filmado na Madeira). Arriscaríamos ainda um potencial significado adicional: a eventualidade de Mendes ou Azinheira ou ambos terem sido sujeitos a circuncisão, simbolizando o blusão uma espécie de "retorno do prepúcio"?

Sobre o impacto social que esta obra feliz teve no nosso país, os mais recentes estudos de Maria Filomena Mónica transmitem uma imagem fidedigna e adequada, nada havendo a acrescentar.



terça-feira, 29 de novembro de 2011

Holy Shit!


segunda-feira, 31 de outubro de 2011

A ACADEMIA DO NU



O espólio epistolar do Padre António Fernandes d’Azevedo veio-me parar ás mãos num bem atado molho de papel amarelecido que consultei mesmo ali, de joelhos, num recanto do enorme e poeirento alfarrabista da Misericórdia. Desdobrei as páginas ressequidas à medida que se aguçava a minha curiosidade. A maioria polemizava com interlocutores que desconhecia, mas pus de parte várias que debatiam um tema particular: a ‘Academia do Nu’. Datada de 1780, a Acta de Constituição desta academia dizia tratar-se esta mesma ‘de uma sociedade artística dedicada ao exercício e excelência do desenho, pintura e escultura do corpo humano nu’, com sede na Travessa do Cabral, número quinze, em Lisboa. Terá sido atribulada a primeira sessão de desenho, pois instigada por umas senhoras piedosas, uma pequena multidão foi lançar pedras às janelas da Academia na sua primeira sessão.Isto, após sérias dificuldades em encontrar um homem que aceitasse posar despido. O Padre d’ Azevedo era o secretário da Academia e numa carta ao seu amigo Arquibaldo Alves, dono de uns banhos públicos em Alcântara, descreve assim, Rodrigo, o modelo contratado: ‘era farto de carnes e ventrudo, tinha as pernas fininhas e a testa baixa, várias escrófulas e nascidos saíam-lhe das costas e um túbaro era mor de muito mais descaído que outro que quase chegava a meio da coxa. ‘ No entanto, foi Rodrigo, que era calafate de profissão, o único que aceitou expor-se assim à vista dos artistas. Encontrei um dos esquissos do padre e fiquei perplexo. Era o mais infantil dos desenhos, num papel cheio de manchas amareladas que deixavam cair um pó algo fétido e com cheiro a peixe. Descartei que se tratasse de bolor e de repente enrubesci, pois dei-me conta que seriam manchas de sémen e que as motivações d ´Azevedo eram as mais veneais e muito menos artísticas! Ejaculara profusamente para o desenho – disciplina para a qual não tinha a menor vocação – por cupidez e volúpia. Á medida que fui passando as cartas uma a uma, fui encontrando comentários de cariz misantrópico e mesmo apreciações do físico de Rodrigo que se aproximavam da pornografia, tais como aquela de Sebastião João Mendes ‘o venoso membro de Rodrygo, saliente de crespa pinteleyra faz-me correr a bílis ao traseiro, o que me dá uma vontade inevitável de obrar e depois andar com a tercida acima e abaixo para obter voluptuosas sensações enquanto remiro as nalgas fortes de Rodrigo e imagyno que lhe engulo o marsapo e (ilegível) os quelhoens’. Enojado, deixei cair o molho das cartas aos pés. Outro comentário, este de Ramiro de Cinfães, que dizia ‘Eu, Ramiro de Cinfaens, adido de Sua Majestade ao Paço de Villa Viçosa, eis-me perdido em devaneios do sentido, ao contemplar a beleza apolínea de Rodrigo e tremem minhas carnes ao pensar que podia fazer como de fanchono com ele ali atrás do…’ A dura realidade impôs-se e deduzi claramente que a ‘Academia do Nu’ não passava do debochado clube de invertidos da Lisboa de Bocage e Filinto Elísio. A suar, dirigi-me à Igreja do Loreto e rezei. Passaram horas. O prior, estranhando a minha persistência e imobilidade, aproximou-se e tocou-me no ombro ‘filho, estás bem? Estás há já quatro horas aí sentado’. Queres um copo de água? ‘ Dizia isto, enquanto me fazia trejeitos e olhinhos dengosos. Passou a mão pelas virilhas e lambeu o lábio superior. Aos tropeções e agarrando o molho de cartas, corri atabalhoadamente por entre os bancos da igreja e saí porta fora. Á noite tive insónias e nos poucos períodos em que dormi, soçobrei; e acordava suado e sempre depois do mesmo pesadelo: uma rapariga morena, de cabelo encaracolado e uma covinha no queixo aproximava-se nua e abria as pernas por cima de mim, mas atrás da vagina tinha uns grandes e imoderadamente descaídos testículos. Nisto, entravam dois enfermeiros e prendiam-na numa camisa-de-forças. E era levada dali a espernear aos gritos, enquanto a figura soturna e magra de d´Azevedo ria desbragadamente no canto sombrio do quarto. Acordava suado, mas aliviado. No dia seguinte, fui queimar as cartas e nunca mais pensei no assunto.

FIM

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Halloween


domingo, 16 de outubro de 2011

Dirty Mind


sábado, 15 de outubro de 2011

Atheist Bastard

sábado, 8 de outubro de 2011

Sê tu próprio!





segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Harley Davidson


sábado, 16 de julho de 2011

O Frique





  • Rastas velhas de anos e onde a pediculose só não prospera por milagre

  • Fitinhas de ginástica rítmica com uns pesos na ponta para as gajas (e só as gajas) fazerem uma merda qualquer a que aparentemente chamam dança, ora para extorquir cobres a totós, ora para passar o tempo.

  • Falta de higiene generalizada

  • Djambés

  • Odor desagradável a suor com patine de 3-15 dias

  • Didgeridoos

  • Gaia, oh Gaia!

  • Cuspir onde se senta

  • Vegan

  • Percevejos

  • Sarro no pescoço

  • Rafeiros com sarna

  • Apanhar tachadas de Casal da Eira entre ganzas que rodam por 30 bocas que andaram sabe-se lá onde

  • Pulgas

  • Arrastar o cu pelo miradouro de Santa Catarina todo o santo dia privando assim as pessoas humanas daquele espaço

  • Betos a armar ao indigente convencidos que são almas livres

  • brincar com pauzinhos em chamas

  • Rafeiros que cagam onde não devem

  • Bochcechas cheias de pitrol para os gajos (e só os gajos!) irem melgar o pobre incauto que resolveu parar na esplanada a beber um cafézinho

  • Chatos

  • Rafeiros com chagas

  • Carraças

  • Crusty Punks

  • Anilhas dispersas um pouco por todas as partes visíveis do corpo (das outras não sei - nem quero saber), augurando um porvir preocupante quando as carnes começarem a amolecer e a pender por mor da passagem do tempo

  • Manchas de suor nas t-shirts apertadas das gajas, onde também vislumbras uma argamassada e generosa massa pilosa

sexta-feira, 15 de julho de 2011

TEATRO PORNOGRÁFICO NOVECENTISTA DE CORDEL: HAMLET



- Oh bela Ofélia, de flores ornada em refulgentes cores, corres graciosa em prados e bosques, frescos regatos, colhendo ambrósia no Parnasso dos verdes campos da Dinamarca. Quisera eu em teu regaço repousar meu rosto cansado das vãs oposições com teu pai, Túlio Emídio.

- Oh Hameleto, que me namoriscas galante, conhecendo eu bem teus bárbaros intuitos libidinosos de furar-me o tracto traseiro com sórdida e insalubre verga, amassando-me a torcida mas picando-te nas pevides de melancia da Dinamarca que comi ontem.

- Como eu gostava que foras antes viril mancebo, pois meus entusiasmos veneais são mais conformes à condição varonil e outrossim queria eu meu tracto traseiro preenchido a rebentar pela semente da soldadesca, anões de circo, gado muar e asinino.

- Ah estulto Hameleto, que cuidas de tão malsãs inclinações! E eu aqui abandonada ao frémito cuja semente lançaste em minh’ alma e que descendo a meu ventre, aí fez acorrem víscidos humores e lânguidas mas ardentes disposições. Cuidaria poder, por detrás daquela verdejante e salvífica folhagem consumar o venéreo acto, mas deixando intacta minha virtude, pois para o sacro matrimónio me guardo, com Itríblio, o Electricista.

- Ah Ofélia, que te perdes em sensuais desígnios! Guarda essa dupla virtude e ainda a de outros doces orifícios também aptos a fruir das naturais alegrias!

-Sus! Que dizeis, Hameleto? Como posso não me perder no fogo da lascívia, agora que os quentes eflúvios escorrem da minha matriz e sinto suaves estocadas no tracto traseiro, fremente que é de desejo de ser preenchido e alargado até atingir a plena lisura dos dóceis e frágeis hímenes e subir ventre acima até meu colo e assomar-se nas orelhas, esta grossa torcida que desejo ver por ti amassada?

-São delírios de louca, os que proferes, Ofélia! Pois o mesmo desejo eu, com Asdrúbio, o teu bárbaro servo etíope. Que me varasse com o seu grosso e venoso membro escuro e me rebentasse os interfolia até ao ducto do ventre onde os fluidos quentes da sua semente se misturariam com os biliosos fleumas de meu corpo, que tanta melancolia me causam.

- Mas ora, esquecei, Hamleto, vossas inclinações e antes chupai em minha rósea e generosa natureza, que quasi glabra a achareis e se mesmo uma rala pubescência encontrades, estou certa que a achareis mui prazenteira e suave!

-Assim farei Ofélia… smmmurfffblll…

- Oh doces e prazerosos espasmos sinto em meu virginal vazadoiro! Que grande confusão sinto em minhas carnes! Que concupiscências descubro eu, por haveres ora sugado recolhidas e secretas excrescências! Confundo-me Hameleto e parece-me que sinto em meu ventre largarem-se umas gordas massas fedentinosas. Peço-te que não me recrimineis, se em tua franca face de Príncipe as ora largo profusas!

Mas, Oh, doce Ofélia, como pudera censurar-te? Se neste amplexo me acho coberto do fruto castanho de teu doce ventre descuidado!

- Então aqui vão mais.

Oh.

Oh.

Finis.

sexta-feira, 8 de julho de 2011

HIPÉRBATOS




Si Amor entre las plumas de su nido
Prendió mi libertad, ¿qué hará ahora,
Que en tus ojos, dulcísima señora,
Armado vuela, ya que no vestido?

Entre las vïoletas fui herido
Del áspid que hoy entre los lilios mora;
Igual fuerza tenías siendo aurora,
Que ya como sol tienes bien nacido.

Saludaré tu luz con voz doliente,
Cual tierno ruiseñor en prisión dura
Despide quejas, pero dulcemente.

Diré como de rayos vi tu frente
Coronada, y que hace tu hermosura
Cantar las aves, y llorar la gente.


Luis de Góngora y Argote (1561- 1627)

Do alvescente ventre as saudades sinto, em meu sentido volteando; em meu ser a cândida imagem de alvos orbes, os teus seios de róseas e hírtulas aréolas, o leite esguichando, de dois já prenhe, pois havemos-nos descuidado e soi esguichar eu em teu posterior tracto, a tua Natureza quis eu daquela vez, num bruto forçar, as delicadas peles rebentar. Do ventre, a contenção já esquecida era, pois de tantos anos a fio o tracto zurzir, lasso se quedou e flácido esmaeceu; laradas e ventos extemporâneos soltando. Fedentes placas de velho chorume, de anos, guardas no teu rendado intérulo (*). Pernas abaixo vêm amiúde laradas grossas, antes pelas virginais virilhas escorrendo, depois pelas coxas e as fivelas dos sapatos cobrindo de grossa e amarela pastada. Glauca (**) a tua crica, do muito afazer que lhe davas, moços da aldeia, ferradores, gado: tudo no teu virginal vazadoiro malhava e zurzia, ó Musa! Loiros caracóis a tua cabeça outrora ostentava, ora glabra e piolhosa por esses tempos de folia debalde suspiras descontente. Grande era teu ânimo de borrada te veres e os muitos sucos em tuas alvas e esvoaçantes vestes empapavam, viscoso rasto no chão deixando, qual fémino caracol. Na tua boca, de que os dentes mera lembrança ora são, alva semente de burros, pretos e almocreves, em borbotões se acoitavam, de tal sorte que as tuas amigas, apenas de olhar para ti, de esperanças ficavam. Pelos floridos prados, pernas abaixo, os filhos ias largando e com as vacas se criavam. Dotes belos, doces lembranças, ora canto musa querida, sobretudo em dias de regras, gostava de te malhar na ferida…

(*) o.m.q. roupa interior; cuecas. Do latim interulus.
(**) O m.q. azul.