
Octávio, que era tudo menos parvo, e que já há que tempos tinha galado a gaiata pelo rabinho do olho, não resistiu a olhá-la. Ela parecia ter ficado atrapalhada, mas Octávio, que gostava de gajas diferentes, pensou lá para com os seus botões - "eh, quarailho, és boa, tens pinta, e se não fosse pelos carimbos e pelos agrafos na tromba diria que acabaste de sair de uma revista de gajas do tempo do meu avô, anda cá ao paizinho, anda" - cruzou as pernas para ocultar o entumescimento que já se adivinhava mal lhe assentou a vista em cima e fitou-a directamente nos olhos, fazendo um esforço para não lhe fixar o decote de forma descarada, que durou uns heróicos 25 centésimos de segundo.
Gaja Boa (GB), com genuína curiosidade: O que é que estás a fazer???
Octávio Patilhas (OP): Estou a contar tainhas.
GB: E para que é que estás a contar tainhas?
OP: Não é que tenhas grande coisa a ver com isso, mas estou a contar tainhas porque não há moscas para contar.
GB: Há sim senhor, lá dentro na cozinha há um enxame delas ao lado do alguidar da carne para mast...para moer e depois fazer hamburgas.
OP: Pois, mas eu quero estar aqui fora (atira uma beata de SG Gigante com o filtro todo prensado à água e 7 tainhas perecem na luta pela beata. OP toma nota mental e reduz a contagem para 880. Volta a sua atenção para GB).
GB: E então preferes estar aqui fora a contar tainhas que lá dentro a contar moscas?
OP: Não. Preferia estar aqui fora a contar moscas.
GB: E porque é que tu contas moscas?
OP: (a trincar gelo e a babar-se enquanto continua deslumbrado com o que o decote de GB não consegue esconder) Porque assim não penso noutras coisas que me perturbam. Foi uma técnica dos Antigos que me ensinou o meu Mestre de Meditação Transcendental.
GB: Ah. Mas e então, quando estás a contar moscas, como é que sabes se não as contaste mais de uma vez?
OP: é como com as tainhas: não sei.
GB: isso não faz muito sentido.
OP (faz um ar tentativamente zen, mas já a arrastar as palavras): esta vida não faz muito sentido, miúda. Isto também me ensinou o meu Mestre.
GB: Lá isso é verdade (inclina-se pronunciadamente sobre a mesa para levantar os copos vazios, olha para OP) E… (bate as pestanas) posso ser-te útil em mais alguma coisa?
OP: Se puderes traz-me umas moscas para contar. Olhar para as tainhas está a enjoar-me.
GB: Até trazia, mas elas fugiam. Além disso não está na lista, e depois nem a casa ganhava nada, nem tu contavas as moscas. Além de que ia perder uma carrada de tempo para nada.
OP: Porra, lá nisso tens razão.
GB: (com ar de gozo) Yá.
OP: então, epá… olha, traz-me aí outro vodca tónico.
GB (como se estivesse a recitar uma bula farmacêutica ou as condições do crédito ao consumo da Cofidis): Absolute, Eristoff, Stolychnaia? Normal, de limão, framboesa, pimenta, caramelo, pimento, cebola, ananás? com gelo, sem gelo, rodela de limão, palhinha, sem palhinha, Black Russian?
OP: Sim, pode ser.
GB: Hã?….
OP: (discretamente, olha para o rio, conta mais 20 e chega ás 900 tainhas) …. Como é que te chamas?
GB: (faz de conta que não reparou) O meu nome é Al..., quer dizer, o meu nome é Tina, mas aqui toda a gente me conhece por Hitchy Puss.
OP (com ar de gozo): Hitchy Puss???? (descruza as pernas e endireita-se na cadeira), que raio de nome é esse?
GB: (a olhar para OP e a humedecer os lábios) Sim, Hitchy Puss. E também há quem me chame Deep Throat Julia. Olha lá, isso é uma tainha fresca de 450 gramas a agitar-se aí no teu bolso, ou estás apenas contente por me ver?
OP: E porque é que te chamam Hitchy Puss?
GB: Hellooooo? Adiviiinhaaaaa!
OP: Tens pediculose genital e coças-te muito?
GB: Pedi quê? Ai, que estúpido!
OP: costumas ter infecções urinárias?
GB (a ver a vidinha a andar para trás): Mau, estou a ver que isto não está a progredir adequadamente…
OP: E Deep Throat Julia?
GB: Pá… duhhhhh (e faz um gesto com a mão como se pegasse num objecto longo e cilíndrico e o metesse de lado na boca enquanto empurra a bochecha por dentro com a língua)
OP: Costumavas fazer concursos de lagostas e eras quem puxava a maior?
GB: OK, esta conversa acabou.
OP: Tava a gozar contigo, pá. Anda lá, não te zangues, isto é o álcool a falar! Olha, por falar nisso, queres mamar aqui na minha tainha?
GB: (zangada e com ar de poucos amigos) não, hoje acordei assim: vegetariana.
OP: Mas ainda me trazes o vodca ou não?
GB: foda-se, que remédio, ainda aqui trabalho e não há mais ninguém para to trazer...
OP: Ah, ok, então pode ser de caramelo, sff. Shot. Sem gelo. Sem palhinha. Sem limão.
GB: Right on, bitch.
OP: Hã?
GB: Nada, é uma cena do rock.
OP: Ah. Olha, o que é que vais fazer quando saíres daqui?
GB (naquela de não sei se o mande foder se lhe dê outra oportunidade, também mais ruim que o cabrão do Toni e mais desgraçadinho é difícil...'xa lá ver se isto ainda se compõe): Mhhhh… vou para um cabaré, onde entretenho a audiência a fazer danças burlescas no varão.
OP: Uau… isso deve ser giro!
GB: …não é que mereças! mas acho que engracei contigo. Se prometeres que não te voltas a armar em parvo, dou-te uma nova oportunidade: podes levar-me, se quiseres, meto-te lá dentro, vês o espectáculo e se quiseres depois podes ir ter comigo ao camarim... Se me apetecer deixo-te entrar...
(Cont.)
segunda-feira, 23 de agosto de 2010
História de Enconar
História de Enconar

(Cont.)
By Vita
Chamava-se Tina, para os amigos porque os pais uns senhores abastados ali para os lados da ajuda chamaram-lhe Altina e aos 16 anos meteram-na fora de casa com dois sacos de roupa após ela ter juntamente com o Toni assaltado a casa onde roubaram alem de uma tv em bom estado e uma aparelhagem já dos tempos dos avós... todo o ouro da mãe herdado pelos pais.
Toni era o homem que tirou a virgindade a tina era um tipo alto escanzelado com uma tatuagem a dizer amor de mãe num braço e uma caveira na omoplata direita que tinha feito juntamente com Tina, tinha umas orelhas grandes (à príncipe Carlos) lábios finos (à Bono) e o cabelo rapadinho (à Britney Spears), era um grosseiro e arreava na tina quando esta não lhe trazia todo o magro ordenado que ganhava no bar reles e alguns engates que por lá arranjava. Tina tinha alguns "clientes" certos, diziam inclusive que era muito boa na profissão mais velha do mundo e ganhava uns trocos bons mas o Toni desaparecia com o dinheiro num instante, bebia e jogava poker com fartura além de não trabalhar e controlar as saídas pós trabalho de tina.
Olhava para o homem que distraidamente roía as unhas e as lançava ao rio estava tão absorvido nos seus pensamentos que nem a via...reparou na aparência sensual pois apesar de ter um ar rude o bigode fininho dava-lhe charme e a cicatriz que lhe cruzava a cara uma certa sensualidade e pensou, quem sabe um potencial cliente. Precisava arranjar dinheiro para pintar o cabelo de loiro, a amiga Ana colega de profissão tanto no bar como nos engates, uma loira com umas mamas enormes sempre com decotes e um sorriso nos lábios carnudos tinha-lhe dito que ser loira rendia mais.
Para mais o Toni andava a chatear para comprarem uma cama, farto de dormir no chão em cima de uns cobertores, pois a cama deles tinha vendido em tempos ao Zé da tripa um "dealer" que comprava todo o material roubado ou usado ali na zona de alfama onde viviam.
Reparou no olhar do homem e desviou o olhar...
(Cont.)
domingo, 22 de agosto de 2010
História de Enconar

Tinha 35 anos, bigodinho fino e aparado (à Errol Flynn), andar gingão (à John Travolta em "Grease"), um olho mais aberto do que o outro (à Manuel Alegre) e tinha ainda o peculiar hábito de usar sempre uns óculos de aros redondos (à Miguel Esteves Cardoso). Era grande apreciador de álcool em geral e de vodcas tónicos em especial. E fumava que nem um camelo. SG Gigante.
Embora de ar rude e marcado pela vida, figadeira carregada, e pele com laivos nicotínicos, não só era relativamente bem parecido - a cicatriz que lhe cruzava a cara desde a sobrancelha esquerda até à orelha e que lhe arrepanhava o olho fazia parte da sua peculiar aparência - mas, como era bem constituído, fruto de uma adolescência passada a fazer piscinas por causa de problemas crónicos respiratórios, do alto do seu 1,80 m, não era exactamente o tipo de fulano com quem alguém gostasse de medir forças.
Chamava-se Octávio Patilhas e era Detective Privado.
Estava a trabalhar num caso de um cliente industrial têxtil do Norte radicado na Trofa, que desconfiava do sócio com quem tinha aberto uma sucursal na capital.
Em concreto, desconfiava que o sócio andava a servir-se da Ford Transit de 1989, pertença da firma, assim como das instalações da loja e armazém, um espaço comercial de 50m2 com arrecadação de 12,5 m2 na Cave do Centro Comercial de Xabregas, mesmo paredes meias com uma loja de tatuagens de seu nome "hotroad tattoo and piercing" (não confundir com "hot rod"), como entreposto de passagem de material ilícito.
Octávio não era mestre na sua arte: estava naquilo há pouco menos de um ano desde que a ASAE encerrou o matadouro do MARL onde trabalhava, na secção da desossa, mas lá conseguiu desenrascar uns registos fotográficos e de vídeo com a ajuda de um amigo que fazia fotografia de casamentos em part-time, de movimentações estranhas de mercadorias que decorriam a altas horas da madrugada na sucursal lisboeta do seu cliente, e posteriormente comprovadas com uma incursãozinha no famigerado armazém a meio de uma noite de lua nova, pela calada: caixas de Berettas e Glocks, metanfetaminas, Marlboros de contrabando, modelos em silicone liofilizada de actrizes porno ucranianas arrumadas a um canto (basta juntar água), I-pads gamados na FNAC de Badajoz e pornografia às pazadas.
Diligentemente, Octávio fez chegar um relatório ao seu empregador, que rapidamente desfez a sociedade. O seu sócio morreu com um tiro mesmo entre as omoplatas. A nota de suicídio que encontraram nas suas calças era clara: tinha sido um desgosto de amor que o tinha levado a entregar-se nos braços da ceifeira, e a polícia, perante o óbvio, arquivou o processo. Passado uma semana (mas essa é outra história) já o empregador de Octávio tinha vendido a vivenda na Trofa mudando-se de armas e bagagens para Xabregas, onde gulosamente tomou conta do negócio, tendo pago a Octávio um generoso estipêndio que bem lhe podia valer meio ano de salário no matadouro. E sem aquele cheiro a sangue e tripas. Bem vistas as coisas, Octávio não se sentia mal no exercício da sua nova profissão. Aquilo era só vantagens.
Pode-se dizer que Octávio estava entre casos quando, a descer a Avenida de Ceuta a ouvir o Imagination de Belouis Some, reparou que tinha a goela desidratada e a boca seca. Imediatamente resolveu fazer aquilo que melhor sabia fazer: sentar-se num bar, beber e olhar para o vazio à espera das inevitáveis moscas, e contá-las. E foi assim que deu consigo sentado numa esplanada das Docas.
O dia estava com a costumeira brisa atlântica puxada a Norte e tinham-se dado ao trabalho de limpar a ronha da mesa e esfregar os restos de cerveja entornada da noite anterior (os pés nem se pegavam ao chão!), pelo que moscas, nem vê-las. Pediu um vodca tónico e já estava a roer o sabugo das unhas, enervado com a falta de moscas para contar, quando se apercebeu que, lá em baixo, na água, havia tainhas em barda a disputar as lascas de unhas que ia cuspindo preguiçosamente para as águas turvas do rio. Encontrou logo com que se entreter e, com as Tágides de Camões em mente, começou a contá-las.
4 vodcas tónicos depois, já debruçado sobre a barrira de protecção a 4 metros da água insalubre do rio, e ainda mal tinha passado das 887 tainhas, reparou que estava a ser observado por uma empregada de mesa. Aparentava uns 28 anos, cabelo escuro e pele muito clara, roliça qb, com um ás de copas tatuado na parte de fora da coxa (sim, ia de minissaia), uma caveira na omoplata direita e umas estrelitas coloridas perto dos tornozelos, piercings no nariz, sobrancelha e língua, lábios pintados de vermelhão, um corte de cabelo vintage... Em suma, uma verdadeira pin-up, de bandeja redonda debaixo do braço e um ar de fastio subitamente interrompido pelo espectáculo que Octávio lhe estava a proporcionar.
(Cont. Ou talvez não... alguém se chega à frente?)
segunda-feira, 9 de agosto de 2010
Histórias de Enconar

(cont.)
Num belo dia, em pleno Verão quente, estava Serafim, como comecei por dizer, a martelar concentradamente o pára-choques amassado de um VW carocha branco antes de o transformar para posterior venda, quando ouviu, como dizia o fadista, "por entre as tábuas toscas da barraca" que lhe fazia de oficina e de casa de morada, o som de gritos ao longe. Calculou que viessem, mais coisa menos coisa, de perto da barraca da Suzete cerzideira. À cautela, desobstruiu o ouvido esquerdo com a unhaca do mindinho da mão esquerda (e guardou a pasta de cerúmen dentro de uma lata de salsichas Izidoro para depois usar na cabeça das velas como agente vedante de humidades) e riu-se despreocupadamente. "Lá estão outra vez os maganos dos putos a brincar aos pides a torturar comunistas e outros agitadores menores!"
Acabou de martelar o pára-choques e meteu-se debaixo do carocha. Preparava-se para raspar do cárter o que parecia ser um tufo de cabelos com um bocado de carne e osso agarrados quando lhe chegou ao nariz um perfume intenso. "Olá! temos cona?", perguntou-se, e fez deslizar o carrinho de rolamentos, até que, por entre as suas pernas, lhe surgiu no campo de visão um par de pernas seguido de um cúmulo de curvas que o deixou à beira da hiperventilação. "Afinal... o Zé era capaz de ter razão e aquilo nos calendários da Pirelli são mesmo gajas a sério!", lembra-se de pensar para consigo.
"Ooolhe, o senhor desculpe, vinha ali do Largo de Carnide em direcção ao Lumiar e resolvi atalhar caminho, e o meu carro parou ali na Azinhaga do Serrado, sem dizer nem água vai nem água vem. Fartei-me de andar a pé, nem um táxe nem nada, dei cabo das capas todas, e ao fim de um bom bocado lá dei com um senhor que estava ao pé de uma horta a espremer um bocadinho de limão para dentro de uma colher que me disse que aqui talvez houvesse alguém que me pudesse auxiliar, e recomendou-me que dissesse que vinha da parte do Sr. Lelo dos rádios... Pode dar-me, ahhh...., uma mãozinha?"
Serafim, que só estava habituado a tratar com os habituais toxicodependentes ladrões de automóveis e que até da companhia das suas cabrinhas estava privado há largos meses, grisou-se todo, e se pudesse tinha saído a da oficina a gritar "Ó Tio! Ó Tio!", mas controlou o seu stress pós traumático, aproveitou uns bons decilitros de espuma que tinha na boca para mandar um serenal que tinha encontrado no chão de um Fiat 600 pela goela abaixo, enquanto discretamente apertava a falanginha e a falangeta do dedo mindinho da mão esquerda com a chave inglesa que trazia consigo só para ter a certeza de que não estava outra vez a tripar com os vapores dos escapes.
Serafim (S): 'mnina, venha aqui para a sombra que senão fica como a merda ao sol: seca."
GAJA BOA (GB): Ahhh... obrigada.
S (a rolar um palito de um lado para o outro da boca e a observar GB dos pés à cabeça com olhos de carneiro mal-morto): Deixe-me só apanhar a ferramenta e já vamos ver se tratamos do seu motor.
GB: Ahhh... obrigada.
Uma vez chegados ao local da avaria:
S: Abra o seu cápô, 'mnina, se fizer favor
GB: Ahhh... já está.
S (inclinado sobre o motor e a rolar o palito na boca): ora, 'xa cá ver... ahhhh, ahhhh, (inclina-se e escorrega num bocado de óleo)...ahhhhhn! (aterra cpom os queixos em cima dos platinados) Ora, cá está!
S: 'mnina, o seu mal é que tem um fusível solto, ligando-o, o metor d'arranque deve funcionar, ora gire lá a chavinha se quer ver...
GB: Ahhh... ai sim, fantástico, que maravilha, funciona, funciona! (Bate palmas) Como é que resolveu isto tão depressa, Sr. Serafiiiim???
S: Ora, 'mnina, a minha postura, na mecânica, tal como dantes, nas quelónias, quando ia atrás dos pretos para o mato, é só uma: ou mato ou morro! Se o inimigo vem do mato, morro, se o inimigo vem do morro, mato. Sabe como é: são muitos anos a encav... a virar cabras, 'mnina.
GB: Desculpe, o senhor deve querer dizer virar frangos, não?
S: Hã?
GB: Frangos, o que se costuma virar são frangos, e não cabras.
S: Ah, pois, se calhar era isso, era. A 'mnina desculpe, mas eu, sabe, estou aqui fechado há muitos anos - saio pouco! - e estava mais habituado a distrair-me com as cabras, e as cabras, coitadinhas, até se terem ido embora, estavam habituadas a distrair-se comigo... [suspira]. Além disso, não acha as cloacas dos frangos assim um tanto ou quanto acatitadas? E depois nem sequer são mamíferos! eu não sei, eu cá falo por mim, hã, outros terão outra openião. Já se sabe, são como tantas outras coisas nesta vida: há muitas e de todos os tamanhos e feitios!
GB: Ahhh... como???? Ai, credo, Sr. Serafim, não poooossooooo, que coisaaa! Parece que não estamos bem a falar do mesmooooo! (ih, ih, ih, ih!) O Sr. sabe que vai ter de voltar a conviver com os da sua espécie, não sabe? (Como se fosse a primewira vez que realmente olhava para S., faz um ar de gula, e olha-o de cima dos óculos de aros redondos enquanto brinca a enrolar nos dedos uma das tranças loiras) E eu, enfim, o Sr., em querendo, eu tinha muito gosto em dar-lhe boleia para a oficina e, prontos, se quisesse antes disso oferecia-lhe uma Laranjina C ou uma Cergal fresquinha. Ou então podíamos conviver um bocadinho, ali debaixo da sombra daquela oliveira, assim como assim isto é um deserto, não há ninguém à vista e eu gosto do toque áspero da casca das árvores contra a minha pele desnuda...
S: Pois 'mnina, eu oiço o que a 'mnina diz, e eu até acho que a 'mnina tem razão, mas eu estou aqui a olhar para aí, para a 'mnina e prontos, eu não sei, sabe? estou a achar que isso pode ser um tanto ou quanto complicado, sabe? É que eu estava habituado a tratar as cabras assim um bocado à minha maneira, quer dizer, à bruta e à canz... e petrás, e eu não lhe quero fazer mal, já fiz mal que chegue na Guiné, tenho ali uma mala cheia de orelhas de cafres e até de alguns bijagós dos dias em que eu trabalhava para o mal: abro-a todos os domingos antes de ir à missa do Pastor Dirceu, para não me esquecer da maldade que há no mundo, 'mnina...
GB (já a perder a compostura e o sentido das convenções sociais): Ai, Sr. Serafim, o Sr. está a despertar em mim instintos primitivos, só me apetece dizer-lhe que lhe faço tudo o que o Sr. Quiser!!!
S: A sério, 'mnina? Tudo, tudo?
GB: SIIIIIM, Sr. Serafim!
S: É muito boazinha, 'mnina....então, nesse caso, a menina leva-me à Feira da Malveira?
FIM
terça-feira, 3 de agosto de 2010
Histórias de Enconar

Serafim Baptista martelava concentrado o pára-choques amassado de um VW carocha branco. Exercia a profissão de bate chapas numa garagem obscura entre Carnide e o Bairro da Horta Nova.
Regressado da Guiné nos idos de '70 onde tinha lutado com honra e distinção na campanha de 1970-1973 na Companhia de Caçadores nº 969, e incapacitado de se reinserir na sociedade por mor do stress pós-traumático que, sempre que se encontrava na companhia de outras pessoas, lhe provocava uns espasmos incontroláveis e abundante produção de espuma na boca, tal qual como se padecesse de hidrofobia viral crónica terminal, Serafim foi para ali a convite do seu antigo furriel, Zé Antunes, homem de poucas falas, a quem Serafim tinha salvo a vida no mato.
O Zé, sempre conhecido entre os amigos e companheiros das 3 campanhas na Guiné, como 'Zé Bode', por jurar a pés juntos que as cabras eram muito mais quentinhas e dóceis que muitas gajas que para aí andam (cabritas inclusive), era proprietário por via sucessória de um curral de cabras e precisava de ajuda para o pastoreio porque era ardina na Rotunda do Relógio onde vendia o Diário de Lisboa e A Capital, e não podia estar em dois sítios ao mesmo tempo e as cabras, já se sabe: não esperam por ninguém.
E assim, todas as manhãs Serafim acordava, tomava o seu pequeno-almoço (almece de leite de cabra acabadinho de mungir com açúcar e canela) e levava as cabras a pastar a um descampado que ficava logo ali, onde hoje se ergue, imponente e majestoso, o Feira Nova de Telheiras.
Os ventos da liberdade trouxeram um crescimento desenfreado e caótico à cidade, que atraiu hordas de emigrantes que demandavam a capital em busca de uma vida mais desafogada, e de repente o leite, a carne, os tapetes de pele de cabra e até mesmo os prazeres proibidos que as cabras proporcionavam a alguns poucos aficionados, que os pagavam em bom dinheiro a Zé Bode, deixaram de ter viabilidade económica. Até o simples acto de pastar cabras se tornou uma gesta heróica, pois onde antes medrava a erva tenra, impunham-se agora vias rápidas de asfalto e betão, e era cada vez mais complicado manter o rebanho em condições. Já pra não falar nas sessões de gincana para levar o rebanho a pastar, que quase iam transformando Serafim y sus muchachas num misto de cascadeurs e atracção turística suburbana.
Os posteriores problemas de solvabilidade e liquidez dos empregadores de Zé Bode, e de onde este tirava, aliás, o seu principal, ainda que magro, sustento precipitaram as coisas: deixou de poder exercer como ardina e, com o coração partido, meteu-se com as cabras na carreira da Mafrense e rumou à Malveira, dita dos bois, onde vendeu a suas estimadas cabras na feira de gado por 100 contos, o que na altura até nem foi mau negócio, a uns freaks alemães que por ali andavam a perguntar a quem passava se sabiam onde ficava a Serra de Mú porque, segundo constava, tinham um encontro com Gaia.
E diga-se em abono da verdade que, no que tange a transacções comerciais de gado, a Malveira só não é a localidade mais significativa do país porque os campinos têm uma antipatia ancestral para com os saloios, preferindo de longe, vá-se lá saber porquê, deslocar-se a Beja e à Golegã.
Mas adiante, que isso são outros quejandos: com o pecúlio assim acumulado, e depois de ter pago 3 anos de quotas em atraso n'Os Belenenses, e de deixar uma pequena contribuição para a renovação da sala de espectáculos do "Vendeores de Jornais Futebol Clube", de uma pançada de Cozido à Portuguesa bem regado com águas do Cartaxo no "Oh, Lacerda!" e uma visitinha à Parreca de Monsanto, que fazia tudo por uma quinhentola e que era a coisa mais parecida com uma cabra que ele conhecia, Zé Bode reinvestiu tudo o que tinha e reconverteu o estábulo numa modesta, mas bem equipada oficina automóvel especializada em bate chapas, electricista e reconversão estética de viaturas de 2 e 4 rodas, que é uma forma idiomática e simpática de dizer que Zé Bode se passou a dedicar de alma e coração à receptação, transformação e posterior venda a terceiros, de boa ou de má-fé, de veículos furtados.
A alma do negócio era, também aqui, Serafim Baptista: tanto por força da sua infância, onde tinha sido ajudante numa bomba de gasolina ali para as bandas de Alpiarça e onde de quando em vez desenrascava um ou outro cliente mais atrapalhado e disposto a remunerar os seus serviços com alguma espórtula simpática, em géneros ou em espécie, como por força da sua actividade na Guiné.
Na Guiné, Serafim era o gajo que safava o batalhão no meio do mato, ora quando o radiador dava o berro enchendo-o com urina da Companhia, ora reparando a correia do distribuidor com as meias de seda que o Cabo Artur Ribeiro sempre trazia vestidas para não se esquecer que noutra vida, longe do Ultramar era uma dançarina de cabaret no Ritz Club que responda pelo nome de Scarlet O'Tara onde fazia playbacks da Simone e da Madalena Iglésias. Mas Serafim também era o batedor com maior sucesso do batalhão: era invariavelmente ele o soldado encarregue de sabotar os meios ao dispor do inimigo.
Foi desta guisa que Serafim se tornou um exímio retalhador de pescoços de sentinelas Turras (foi ali, aliás, que começou a acumular os seu largo espólio de orelhas que ostentava com orgulho num fio de pesca pendurado ao pescoço que ainda hoje guarda consigo) e um sabotador de motores inimigos como o Ultramar não voltou a ver.
(cont.)
terça-feira, 20 de julho de 2010
HISTÓRIA DE ENCONAR

Era uma vez uma gaja boa, que ia a atravessar o Martim Moniz fora da passadeira, direita ao Centro Comercial Caril para comprar papadams com cominhos, noodles chineses de carne de vaca e umas chamuças de carne de ra..., PERDÃO, DE VACA, da tasca do Sr. Raji Charmutakir.
Fagundes Calábrio, pedinte coxo, cego de uma vista e vesgo da outra, sem um colhão (vendeu-o por 15 dias de almoços a uns senhores de uma cervejaria na Almirante Reis famosa pelos túbaros de carneiro que servem à clientela) e com fissuras anais de comer os restos das tascas africanas do Centro Comercial da Minoria e que as curava com cataplasmas de óleo de palma e umas ladaínhas de uma velha que dormia ao lado dele debaixo das arcadas, e que conhecia o sítio como as palmas das suas mãos, cabeludas de tanto escamar o besugo como se não houvesse amanhã enquanto observava as freguesas africanas do centro Comercial a menear as ancas e coçarem o sarro dos refegos, estava à coca, pois tinha acabado de ver passar o 28 apinhado de turistas e carteiristas.
O guarda-freio, que estava a tentar sacudir uns putos que iam à pendura, enquanto procurava - perturbado - explicar a uma turista checa de calções enfiados pelas bordas e que fazia jus como poucas outras à expressão 'camel toe' que não lhe podia trocar 50 euros para comprar um bilhete de eléctrico, ia distraído com tudo isto e com a baba que lhe escorria à vista das bordas da turista, e Fagundes, rato velho da zona, percatou-se disso.
Rápido como uma flecha, pegou no ramo de árvore que lhe fazia de muleta, encaixou-o debaixo do braço, tendo tido o cuidado de calçar o sovaco com meia lista telefónica por causa dos hematomas que o ramo lhe causava, e apertando as calças, fazendo um nó de sapato com o garrote que tinha encontrado abandonado junto a um local habitualmente frequentado por toxicodependentes, voou ao pé coxinho em direcção à gaja boa, dando-lhe um pontapé digno de um Chuck Norris ou de um Steven Seagal, com a perna boa, claro, que a projectou energicamente em direcção ao passeio, onde aterrou numa poça de um líquido algo fétido e amarelado que estava a ser lambido com asco por dois rafeiros pulguentos só naquela de ver se aquilo se conseguia ingerir.
Apercebendo-se do que o indigente por si fizera, com o rosto inundado de lágrimas e o resto do corpo ensopado no tal líquido algo fétido e amarelado, e a felicidade de quem ganhou a taluda estampada no rosto, agradeceu a Fagundes Calábrio, ao que este retorquiu com um ainda vago sotaque que se lhe colou ao palato desde os tempos do seminário em Viseu: Obrigada, não, baiss'ass calssinhass! E a gaja boa, agradecida, numa artéria da capital que se dirige à Mouraria, e entre uns caixotes de papelão, baixou-as.