
(cont.)
Num belo dia, em pleno Verão quente, estava Serafim, como comecei por dizer, a martelar concentradamente o pára-choques amassado de um VW carocha branco antes de o transformar para posterior venda, quando ouviu, como dizia o fadista, "por entre as tábuas toscas da barraca" que lhe fazia de oficina e de casa de morada, o som de gritos ao longe. Calculou que viessem, mais coisa menos coisa, de perto da barraca da Suzete cerzideira. À cautela, desobstruiu o ouvido esquerdo com a unhaca do mindinho da mão esquerda (e guardou a pasta de cerúmen dentro de uma lata de salsichas Izidoro para depois usar na cabeça das velas como agente vedante de humidades) e riu-se despreocupadamente. "Lá estão outra vez os maganos dos putos a brincar aos pides a torturar comunistas e outros agitadores menores!"
Acabou de martelar o pára-choques e meteu-se debaixo do carocha. Preparava-se para raspar do cárter o que parecia ser um tufo de cabelos com um bocado de carne e osso agarrados quando lhe chegou ao nariz um perfume intenso. "Olá! temos cona?", perguntou-se, e fez deslizar o carrinho de rolamentos, até que, por entre as suas pernas, lhe surgiu no campo de visão um par de pernas seguido de um cúmulo de curvas que o deixou à beira da hiperventilação. "Afinal... o Zé era capaz de ter razão e aquilo nos calendários da Pirelli são mesmo gajas a sério!", lembra-se de pensar para consigo.
"Ooolhe, o senhor desculpe, vinha ali do Largo de Carnide em direcção ao Lumiar e resolvi atalhar caminho, e o meu carro parou ali na Azinhaga do Serrado, sem dizer nem água vai nem água vem. Fartei-me de andar a pé, nem um
táxe nem nada, dei cabo das capas todas, e ao fim de um bom bocado lá dei com um senhor que estava ao pé de uma horta a espremer um bocadinho de limão para dentro de uma colher que me disse que aqui talvez houvesse alguém que me pudesse auxiliar, e recomendou-me que dissesse que vinha da parte do Sr. Lelo dos rádios... Pode dar-me, ahhh...., uma mãozinha?"
Serafim, que só estava habituado a tratar com os habituais toxicodependentes ladrões de automóveis e que até da companhia das suas cabrinhas estava privado há largos meses, grisou-se todo, e se pudesse tinha saído a da oficina a gritar "Ó Tio! Ó Tio!", mas controlou o seu stress pós traumático, aproveitou uns bons decilitros de espuma que tinha na boca para mandar um
serenal que tinha encontrado no chão de um Fiat 600 pela goela abaixo, enquanto discretamente apertava a falanginha e a falangeta do dedo mindinho da mão esquerda com a chave inglesa que trazia consigo só para ter a certeza de que não estava outra vez a tripar com os vapores dos escapes.
Serafim (S): 'mnina, venha aqui para a sombra que senão fica como a merda ao sol: seca."
GAJA BOA (GB): Ahhh... obrigada.
S (a rolar um palito de um lado para o outro da boca e a observar GB dos pés à cabeça com olhos de carneiro mal-morto): Deixe-me só apanhar a ferramenta e já vamos ver se tratamos do seu motor.
GB: Ahhh... obrigada.
Uma vez chegados ao local da avaria:
S: Abra o seu
cápô, 'mnina, se fizer favor
GB: Ahhh... já está.
S (inclinado sobre o motor e a rolar o palito na boca): ora, 'xa cá ver... ahhhh, ahhhh, (inclina-se e escorrega num bocado de óleo)...ahhhhhn! (aterra cpom os queixos em cima dos platinados) Ora, cá está!
S: 'mnina, o seu mal é que tem um fusível solto, ligando-o, o
metor d'arranque deve funcionar, ora gire lá a chavinha se quer ver...
GB: Ahhh... ai sim, fantástico, que maravilha, funciona, funciona! (Bate palmas) Como é que resolveu isto tão depressa, Sr. Serafiiiim???
S: Ora, 'mnina, a minha postura, na mecânica, tal como
dantes, nas
quelónias, quando ia atrás dos pretos para o mato, é só uma: ou mato ou morro! Se o inimigo vem do mato, morro, se o inimigo vem do morro, mato. Sabe como é: são muitos anos a encav... a virar cabras, 'mnina.
GB: Desculpe, o senhor deve querer dizer virar frangos, não?
S: Hã?
GB: Frangos, o que se costuma virar são frangos, e não cabras.
S: Ah, pois, se calhar era isso, era. A 'mnina desculpe, mas eu, sabe, estou aqui fechado há muitos anos - saio pouco! - e estava mais habituado a distrair-me com as cabras, e as cabras, coitadinhas, até se terem ido embora, estavam habituadas a distrair-se comigo... [suspira]. Além disso, não acha as cloacas dos frangos assim um tanto ou quanto acatitadas? E depois nem sequer são mamíferos! eu não sei, eu cá falo por mim, hã, outros terão outra
openião. Já se sabe, são como tantas outras coisas nesta vida: há muitas e de todos os tamanhos e feitios!
GB: Ahhh... como???? Ai, credo, Sr. Serafim, não poooossooooo, que coisaaa! Parece que não estamos bem a falar do mesmooooo! (ih, ih, ih, ih!) O Sr. sabe que vai ter de voltar a conviver com os da sua espécie, não sabe? (Como se fosse a primewira vez que realmente olhava para S., faz um ar de gula, e olha-o de cima dos óculos de aros redondos enquanto brinca a enrolar nos dedos uma das tranças loiras) E eu, enfim, o Sr., em querendo, eu tinha muito gosto em dar-lhe boleia para a oficina e, prontos, se quisesse antes disso oferecia-lhe uma Laranjina C ou uma Cergal fresquinha. Ou então podíamos conviver um bocadinho, ali debaixo da sombra daquela oliveira, assim como assim isto é um deserto, não há ninguém à vista e eu gosto do toque áspero da casca das árvores contra a minha pele desnuda...
S: Pois 'mnina, eu oiço o que a 'mnina diz, e eu até acho que a 'mnina tem razão, mas eu estou aqui a olhar para aí, para a 'mnina e prontos, eu não sei, sabe? estou a achar que isso pode ser um tanto ou quanto complicado, sabe? É que eu estava habituado a tratar as cabras assim um bocado à minha maneira, quer dizer, à bruta e à canz... e
petrás, e eu não lhe quero fazer mal, já fiz mal que chegue na Guiné, tenho ali uma mala cheia de orelhas de cafres e até de alguns bijagós dos dias em que eu trabalhava para o mal: abro-a todos os domingos antes de ir à missa do Pastor Dirceu, para não me esquecer da maldade que há no mundo, 'mnina...
GB (já a perder a compostura e o sentido das convenções sociais): Ai, Sr. Serafim, o Sr. está a despertar em mim instintos primitivos, só me apetece dizer-lhe que lhe faço tudo o que o Sr. Quiser!!!
S: A sério, 'mnina? Tudo, tudo?
GB: SIIIIIM, Sr. Serafim!
S: É muito boazinha, 'mnina....então, nesse caso, a menina leva-me à Feira da Malveira?
FIM