quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Monstros Simpáticos, I

Depoimentos de criminosos improváveis


Gervásio Sousa, 72 anos, homicida

"Era levada do diabo. Não se fazia farinha às primeiras com a minha Gertrudes. Contavam que certa vez, estava ela sozinha no café (nota: o entrevistado era proprietário do café, estabelecimento sem nome registado, em Casal das Aboboreiras, concelho de Tomar), e chegou lá o Tóvão, que andava com o caminhon das bebidas, e vai ele e diz 'Ó Dona Getrudes, era uma mine e uma punhetazinha de mamas.' Qu'a minha Gertrudes tinha um seio que era uma coisa... Toda ela era maciça, certo, mas o seio aquilo quase lhe arrebentava as blusias. Certo. Mas ela vai e não foi de modas: arregaçou a blusia e vai e diz-lhe 'Tu, ó pinchavelho? Tu nem pró meu imbigo chigavas!' E ela tinha um imbigo que aquilo era uma coisa... Parecia assim o buraco de uma rodilha mas em grande, que nem se le via o fundo. Certo. Diz que o Tóvão que ficou par lá todo encavacado e a minha Getrudes em grande risada. Que quando ela se ria aquilo era uma coisa... Parecia que tinha chocalhos na pulmoeira e tudo o que era refego se lhe sacudia de mansinho como quem estendia uma manta ao vento... Uma mulheraça... Aquilo... Certo, ela fazia duas de mim, que eu nunca fui muito grande. Nem fiquei aprovado nas sortes. Mas nunca fuin de virar a cara ao trabalho. Certo. Eu às vezes matutava que ela escunfiava que tinha sido eu a atirar c'a minha sogra par dentro do poço. E não se enganaria ela. Certo. Qu'a minha sogra fedia que aquilo era uma coisa... Parecia chanfana em antes de ir ó forno: só cheirava a cabra velha e a vinho. Certo. Mas nem foi por isso. Que nem era má mulher. Mas o meu primo Ricínio contou-me o do senhor vigário bem contado e fugiu-se-me com mais de duzentos contos em dinheiro antigo. E a minha sogra não foi senhora de se chigar à frente só que fosse siquer ò menos com um mês da refolma. Não sei que raio de estimação tinha ela pelo dinheiro, a mais qu'a Gertrudes era filha única, que deitar a paridela dum animal daqueles é coisa pra derribar uma mulher. Certo. E eu vou e começo a pensar qu'aquilo era ganho em dois enviopes: era o que se poupava no comer e nos dicamentos da velha e mais o que vinha da herdança que ela não era mulher de comprar umas cuecas c'o dinheiro dela. E eu fize-a bem feita. A velha inda gostava de acudir à horta e eu escolhi bem a hora e vou de le dizer 'ó minha sogra, venha cá ver, ali no poço, aquilo não é...'. Ela confiou-se e eu virei-a que foi um repente, qu'a mulher era seca de carnes. Certo. A Getrudes não era de grandes apegos à mãe e passou bem sem ela. Inda a velha tava quente e já ela tinha ido à feira a Tomar comprar um valente cordão d'oiro com parte da herdança. Qu'ela era opiniosa. Nunca tivéramos dinheiro para luxos mas a minha Gertrudes era opiniosa. Certo. Mas nos dias em que lá lhe abanavam algum tanchão ela vinha com remoques sobre a velha e 'bom jeito te deu' e 'sei tanto disso como tu saberás porque raio foi ela ó poço'. Nunca mo disse às claras mas que escunfiava... Que não se le comiam as papas na cabeça assim às primeiras. Andava ligeira, a minha Getrudes. Eu era mais confiado do que era ela. E bem me custou, que o meu primo Ricínio enfiou-me o garruço bem infiado e viste-lo... Lá se foi ele com duzentos contos em dinheiro antigo. Andava tudo na ponta da unha, lá no café, qu'a minha Gertrudes não era trouxa pró negócio. O café era do mê pai, que ele era de Seia mas casou para ali. E eu às vezes escunfiava, eu tamém escunfiava, qu'a minha Getrudes casou mas foi c'o café e eu, olhe, falando mal e depressa, eu era gado da casa. Certo. Mas nunca dei porque m'enganasse. Eu inda andei por lá eriçado com a Domitília... Qu'aquilo nem siquer ò menos era vistosa mas como era um bocado porca e não eram precisas mais de duas falas antes de pregar co'ela no chão, eu tamém quis ir lá ver. Mas não era nem de três parte uma a mulher qu'era a minha Gertrudes. Qu'aquilo era uma coisa... Toda ela era maciça. Aquilo era uma anca qu'enchia uma saia qu'aquilo parecia um salpicão. Certo. A gente dávamos-se bem. Ela escarnecia, às vezes. Um animal daqueles... Aquilo cada perna dela era mais larga qu'a minha cintura. E ela escarnecia... Qu'ele havia vezes de eu estar em cima dela e dela se largar a rir 'ó hóme, que raio tás tu aí a charrinfalhar?, mais vale ires pedir um dedo ó Hinlário!' Qu'o Hinlário é um homenzarrão, cada mãozorra qu'aquilo sigurava duas enxadas sem custo nenhum. Certo. Mas dávamos-se bem. Que quando ela chigava a escamisar-me a maçaroca com a boca, eu ficava tão eissitado, olhe, tão eissitado que o meu membro chigava a ter dois dedos de grosso por um de cumprido. Dos meus. Certo. E inda hoje não sei o que me chigou à cabeça naquela altura. Qu'eu tinha-lhe estimação. Um animal daqueles... E inda estava cheia de viço, a minha Getrudes. E vou eu e deixo-me cair na esparrela de comprar uns comprimidos ao Bartolameu, ele a apregoá-los qu'aquilo ficava mais dereitinho que uma pinheira nova... E eu a ingoli-los qu'aquilo até parecia a hóstia e cá em baixo nada e a minha Gertrudes ria, alma do diabo, ria que se partia em duas, a bater as palmas e a afégar e aos ais de riso, e 'ai qu'o raio do velho inda não perdeu o sentido à cobrição'. Certo. Não me desceu a força ó instrumento, certo, mas ela lá me chigou às mãos, que lhas deitei ó pescoço e vou e fico ali a apertar até ela deixar de se mexer. E levou tempo, que um animal daqueles... E vou eu e largo a correr pela aldeia fora com o fato que me deram os mês pais, aos ais e 'acudam qu'eu matei a minha Getrudes'. Ajuntou-se um poder de gente e quem é que havia de aparecer? O enxertado de corno do meu primo Ricínio, qu'aqui à atrasado m'inludiu com umas prósegas cá de uma maneira que me levou duzentos contos limpinhos em dinheiro antigo. E vai ele e diz, a apontar-me pró pai de todos, 'ó primo Gervásio, vomecê parece que traz aí o pipo da prima Gertrudes!, vai-se a ver foi isso que a matou!', e tudo a rir c'as comédias daquele ladrão. Certo. Ora, digo eu, isto não é coisa que se faça a um velho, ou é? Calhou estar a gadanha do Praxedes ali à beira e foi quantos apanhei até que o fedelho da Domitília, que nunca soube quem era o pai e hóme nenhum sabia se não era, até que o fedelho vai e m'atira c'um valente pedraço aqui à cartilage da orelha que foi o que me fez cair p'ró chão. Como não acabaram comigo logo ali, isso não o sei eu. Certo. Prontos. E assim cá vim ter. Era o que queria saber?"

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

IRRVMATIO ROMANA

Críton de Halicarnasso enrolou o papiro que estava a ler e esfregou os olhos, fatigado. Era o décimo volume das Filípicas, de Cícero, um conjunto de diatribes escritas contra Marco António que o primeiro apresentara no Senado. A influência que Críton pudesse ter nos destinos da República era indirecta, pois o seu senhor, Orestes Túlio Mumio, tribuno do povo, ouvia sempre a sua opinião antes de subir à Rostra para discursar. Orestes tinha sido um feroz defensor de Catilina e era odiado pelos Optimatae em geral, incluindo os patrícios e os Equitate . Por isso, a sua posição, apesar do apoio que tinha dos mais pobres de Roma, era efectivamente de risco pessoal, sempre que descia a Rampa para o Fórum ou atravessava o Campo de Marte para as votações.Os defensores de Marco António juraram-lhe pela pele e por isso, nunca saía sem um contingente de guarda-costas ou estes abandonavam a porta da sua casa na Subura. Naquele fim de tarde, Critón ouviu um alarido pouco habitual vindo do jardim no peristilo. Eram uma espécie de urros. Levantou-se e deixou a biblioteca. Lá fora, Orestes zurzia o traseiro de uma escrava enquanto revirava os olhos, babava-se e resfolegava. Isto era uma cena comum, pelo que Critón passou indiferente e se dirigiu para a cozinha onde estava Aemilia, a cozinheira. ‘Ó Aemilia, também ouviste…?' Nisto, já a cozinheira, sem o deixar acabar a frase, lhe abocanhava o nabo até aos colei e abanava a cabeça freneticamente para trás e para diante enquanto segurava um rábano que se preparava para estufar com figos, papas de milho-paínço, azeite, garum, nabos e fígados de javali, para o jantar. A verpa (pichota) de Critón amassava com brutalidade a epiglote de Aemilia e as peles e as outras merdas que as gajas têm na garganta. Ela emitia uns espasmódicos sons de engasgo, enquanto se lhe esbugalhavam os olhos e os leites de Critón escorriam pelos cantos da boca, descendo pelo queixo e pingando no decote. As tetas de Aemilia abanavam, badalhocas, sob a túnica encardida e cheia de nódoas. Nisto, entrou Orestes, que parou por uns instantes, mas sem hesitar, tirou o rábano das mãos de Aemilia e besuntou-o com garum , o famoso molho de pasta de peixe fermentado com sal, esfregando com ele a sobressaliente landica (grelo da cona, clitóris) da cozinheira, enquanto agarrava a mentula (a picha) de Críton, que deu um guinchinho amaricado. Numa fração de segundo, já o traseiro de Críton albergava o grosso tarôlo do seu senhor, Orestes, que se esborratava pernas abaixo de gozo. O ânus fresco de Critón encantava-o. Entretanto, Aemilia rapava a pintelheira com uma faca da cozinha, aplicando na depilação uma pasta de cinza, salitre, urina e garum, pois os romanos desconheciam o sabão. Ela também se borrava pelas pernas abaixo, deixando um rasto nas lajes da cozinha até ao triclinium (sala de jantar). Aí estava Menelau, o porteiro, que se entretinha a despejar mel na glande, na qual colava varejeiras sem asas. Aemilia abocanhou, de supetão, a mentula e os colei de Menelau, pelo que ficou com a boca cheiíssima e com umas bochechas enormes por causa de ter um colhão de Menelau em cada uma delas. Tinha dificuldade em respirar e mais, as varejeiras zumbiam-lhe nos gargomilos e no esófago e ela estava com ânsias, pelo que – naturalmente – se vomitou toda de esguicho na tomateira de Menelau, sendo que este ficou deveras enfadado com o sucedido e a zurziu por trás à bruta, arrebentando-lhe pelo menos doze pólipos do intestino grosso. Até houve um que ficou mesmo enfiadinho na entrada da ureta de Menelau, como se fosse uma rolha. A bem dizer, a uretra de Menelau tinha muito que se lhe dissesse. Era porca e mal lavada; tinha grumos de meita seca pelo meio, o que fazia uns altos a meio da mentula, que a juntar ao enorme quisto sebáceo com pelos na raiz do pénis, lhe dava um aspeto repugnante e ascoroso. Nada disso importava a Aemilia, que esguichava sucos da próstata, que por acaso ela também tinha porque, no final de contas, era um gajo. As cuecas de Aemilia estavam ensopadas naquilo e os bichos sobrenadavam no feltro das cuecas que está encostado ao cunnus (cona). Esta peça de tecido estava amarelecida e ressequida da urina e tinha um pequeno coágulo menstrual esquecido na costura que o prendia ás cuecas. Isto a juntar aquele que tinha argamassado no clitóris, que Menelau teve de retirar, espantado, pois tinha um buraco que era o contra-molde do clitóris de Aemilia. Era assim uma espécie de carapucinha castanha-avermelhada com pelos e umas peles brancas secas pelo meio. Estas mesmas eram um pouco intrigantes. Talvez fossem restos de cera dos ouvidos, com a qual Aemilia tinha por hábito lubrificar os labia interiora, para melhor se manipular nas noites frias de inverno, quando não tinha garum à mão. Nisto, vzzzzzzzzzttt!!... Orestes introduziu-lhe o indicador no reto e ela acusou o toque porque largou de imediato uma copiosa e amarelenta larada que escorreu pelo antebraço de Orestes e pingou na pia do garum

. Iulia, a esposa de Orestes fiava no peristilo, junto á estátua de Minerva atrás da qual um escravo, Dirceu, ‘tocava à alvorada’ mirando as tetas da sua senhora que sobressaiam do decote justo da túnica, apertadas por uma fíbula de oiro e pedrarias, com motivos egípcios. FIM

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

BALADA DE HILL STREET

Miss Davenport levou a mão ao enchumaço que sobressaía da coxa do capitão Furillo. Tratava-se da sua Magnum 44 e não da sarda do capitão, que era minguada, mole, pequenina, mirrada, atrofiada, tinha varizes e peladas que lhe causavam pruridos. O testículo esquerdo, mesmo ao lado do quisto e que parecia um terceiro testículo, era enfezado e também varicoso, com pústulas malcheirosas e que vertiam um líquido amarelado. O períneo do capitão era uma badana encarquilhada, que quando atingia o ânus se transformava numa espécie de monco de peru e fazia a transição para a enorme hemorróida cronicamente inflamada e cheia de fezes secas. Miss Davenport suspirou e decidiu passar ás enormes mamas que o capitão tinha mor de uma desregulação hormonal grave. Normalmente era alvo de chacota na esquadra porque lhe ofereciam soutiens de copa 'A' no Natal e gritavam-lhe nas costas 'ó Furillo, faz-me aqui uma à espanhola!'. Ele até já tinha frequentado, em tempos, um grupo de apoio de homens com mamas. Miss Davenport tinha a sensação de estar a bater pratos com Silvia, a carcereira dos calabouços da esquadra de Hill Street, prática a que se dedicava quando sentia falta de um orgão sexual túrgido que lhe preenchesse o canal vaginal. Silvia tinha um clitóris hipertrofiado por causa das hormonas que Silvester, o dono da loja de suplementos para culturistas, lhe passava por debaixo do balcão. Nesse dia, na esquadra, uma das agentes, Rose Fernandez tinha acidentalmente adoçado o a café com um pó branco que a carcereira Silvia guardava no seu cacifo decorado com recortes da Hannah Montana. Tratava-se de testosterona cem por cento pura sonegada do laboratório ilegal que Silvester tinha na cave, onde também escravizava os chineses. Este composto, como se sabe, tem fortíssimos efeitos no nível da libido feminina. Rose começou por comer Edwart McThynney, o rececionista tetraplégico, ao que se seguiu Tim, o agente hiperobeso e um outro que era um monhé fuínha. A seguir foi para a rua onde se envolveu num gangbang com os 'Los tacos de cerdo', um bando de portoriquenhos, seguido das 'enchilladas de mierda', um bando de mulheres deliquentes adolescentes lésbicas e viciadas em metanfetaminas; depois comeu os 'nachos de polla', um bando de emigrantes de Trinidad & Tobago; depois fez uma geraldina aos mexicanos do bando 'los cuenas mueles'e ficou a escorrer um líquido pastoso das partes que parecia guacamole. Com a vagina lassa como um trapo velho, com as badanas ao dependuro, lá foi ela apresentar-se ao serviço para a ronda do dia. Passava o capitão Furillo e Miss Davenport que iam a caminho de uma audiência na companhia de um delegado do Ministério Público que era secretamente um psicopata torcionário de freiras carmelitas descalças e viciado em heroína fabricada por Silvester num armazém de conservas de peixe no cais de Manhatan onde trabalhavam uns paquistaneses escravizados. Os paquistaneses eram seviciados por capatazes búlgaros enquanto enchiam as sacas de droga à pazada e as carimbavam com um selo que dizia 'bananas of USA'. Por isso, os paquistaneses tinham grandes problemas, nomeadamente aqueles que resultavam da lassidão do esfíncter anal, pelo que se borravam nas ruas de Nova Iorque e era uma vergonha e um nôjo e toda a gente lhes cuspia em cima e os desprezava. Eles, como eram emigrantes ilegais,

aguentavam tudo com estoicismo hindu enquanto mascavam uma chamuça. FIM

sábado, 3 de novembro de 2012

O gajo que queria ir ao cu da mulher...














...e não sabia como a levar à certa!!!

Era uma vez um gajo que queria enrabar a mulher, mas...

Ó caralho, AHAHAHAHAHAHAH não consigo contar, desmancho-me a rir, ó ca...raças AHAHAHAHHAHAHAHAHAH... Fónix, desculpem lá, não consigo!!!

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Toma!


quinta-feira, 23 de agosto de 2012

...








segunda-feira, 30 de julho de 2012

MARTELO DE BIFES

Recebi ontem uma curiosa missiva. O seu autor é um conhecido professor de psiquiatria, o Prof. Alberto Marques, que por um qualquer capricho de um motor de busca, acabou por se interessar pelos textos acerca da vida da aldeia e Adozinda. Era uma volumosa epístola dactilografada a um espaço e sem correcções. O que ora transcrevo, em menos de uma página, julgo eu corresponder a uma imagem do essencial da interpelação de Marques. “Caro Assento da Sanita (…) Permita-me dizer-lhe em primeiro lugar, que se diverte a humilhar, despersonalizar – e não exageraria se dissesse - torturar- os seus personagens, submetendo-os a inenarráveis e doentias sevícias. Repare que, emanando da sua própria cabeça, eles mesmos são de algum modo versões metafóricas da sua própria pessoa. E assim sendo, pergunto-me porque se castiga a si próprio deste modo? Se merece castigo é por ser culpado de alguma coisa. Não sou nenhum detective, nem me passaria pela cabeça investigar a sua história pessoal para determinar algum evento menos feliz que possa ser a fonte dessa culpabilidade. Tudo o que posso aventar, dados os indícios seguros presentes nos seus textos, é que: seviciou um cão borrifando-lhe o anûs com aguarrás e o pobre animal fez dois quilómetros a arrastar o rabo para se tentar aliviar do agudo prurido. A aguarrás esguichou-a Alberto, um deficiente mental, incitado por si. Sei que também o convenceu a malhar violentamente com um martelo de bater bifes no tronco de uma árvore , ao que o martelo ressaltou e veio ferir a sua própria testa. Lembra-se de ostentar as marcas na testa, chegar à escola e ter deitado as culpas para cima de Alberto que não se conseguiu defender? Nas contas que Da Sanita fez, na pouca capacidade de resolução de dilemas emocionais que uma criança de seis anos possa ter, sopesaram a vergonha de se apresentar com uma grelha de pequenos hematomas dispostos regularmente na cabeça e, por outro lado, aquela de atribuir as culpas ao inocente Alberto. Percebo que essa culpabilidade o corroeu desde essa altura e agora, com sessenta e oito anos (não me pergunte como cheguei a este número, mas os psiquiatras são pessoas com recursos metodológicos poderosos), tenta Da Sanita expiar esse ‘pecado’ auto-martirizando-se. Sugiro que procure Alberto na instituição de saúde onde actualmente é clínico residente e lhe peça as mais sinceras desculpas. E procure também a Dona Adozinda, a sua professora primária e explique-lhe o sucedido, desta vez com verdade, nem que tenha de recorrer a uma mesa-pé-de-galo. Adivinho distúrbios neuróticos como ansiedade social, compulsões de higiene constante e propensão para a auto-manipulação genital com martelos de bater bifes ensanguentados. Tenho a certeza que coloca os testículos numa mesa e os golpeia com brutalidade com esse martelo, enquanto grita ‘Oh Alberto! Oh Adozinda! Oh Piloto!’ antes de atingir o clímax sexual e ejacular contra o tronco de um freixo. Espero sinceramente que seja apanhado em flagrante por uma patrulha da polícia nessa actividade, mas também que se veja aliviado do seu muito sofrimento (…) Atenciosamente. Alberto Marques

terça-feira, 24 de julho de 2012

Atirei o pau ao gato!

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Notas de crítica literária I: exegese de um personagem.

Foi Assento da Sanita, pseudónimo de um regular pai de família, fazendo sair, de forma casuística, uma peculiar e distorcida visão da vida na aldeia sob a forma de saga picaresca. Isto num blogue francamente aos caídos. No entanto, não se perdem esses exercícios de escrita e interessa ora analisar as condições da real biografia do blogger que levaram à criação deste peculiar universo. Estarão na posse do autor ainda mais umas centenas de páginas, mistas de diário, mas tergiversando livremente. Da análise desse espólio é patente que Adozinda é inspirada na sua mulher-a-dias vestida de traços de Maria Papoila. Queixa-se várias vezes de esta levar porcos à socapa lá para casa e mesmo encetar descabidas práticas agrícolas pelos cantos da casa e a ter surpreendido em divagações auto-manipulativas com peixes comprados na loja de congelados: safios, pargos e peixes-espada. Difícil de dissuadir, foge ao patrão, que entretanto se fascinou pelo seu espírito simples mas profundamente livre. Uma página do diário diz assim: ‘ Vanessa [Adozinda] acoitou-se na dispensa e eu tentei convencê-la a deixar-me vê-la a introduzir no bordedo uma garoupa de cinco quilos e meio, besuntada com mel e pasta tandoori. Só consegui convencê-la depois de lhe garantir que não reclamaria a lata de goiabada que introduzira no recto e que agora tinha dificuldade em expulsar. Prometi-lhe sigilo e propus-lhe certas práticas inconfessáveis. A primeira consistia na adoração do bidé, com os seus vários anos de sarro junto ao bordo superior, do lado de dentro, enquanto eu vestia as roupas dela e ela usaria as minhas cuecas ensopadas em piri-piri logo após rapar os pêlos púbicos com uma lâmina de barbear já muito romba. Corri a anotar no meu diário literário que ‘trepou pela parede de azulejos acima e só largou o candeeiro dos lavabos após mangueiradas prolongadas’. Entretanto, descurara o trabalho doméstico e a roupa, loiça suja e porcaria em geral, amontoaram-se pela casa, a ponto de termos dificuldade em circular com facilidade. Vanessa parecia regozijar-se com o factos singelos como o esmagar com o pé, um triângulo de queijo ‘la vache qui rit’ amolecido do calor, quando inadvertidamente pisou umas truces minhas com coraçõezinhos e com os elásticos já à mostra que o continha por desleixo. À noite sossegava e contava-me como era perseguida por um burro, ou talvez por um tio – não se lembra bem – lá na aldeia, que era pirómano e incendiava as matas por gozo, mas que estava sempre a pedir-lhe que o acompanhasse a beber uma ‘malga dele’, sendo que o que ele queria era apanhá-la e forçá-la ao coito ano-rectal. Não percebi se logrou o seu intento, esse tio ou burro, mas certo é que as torcidas de Vanessa eram grossas como paus de eucalipto e ela largava-os frequentemente, pois já não ‘se segurava’. E era em qualquer lado: no tapete da sala, enquanto passava a ferro ou puxava lustro às alpacas. Os meus dias de solidão tinham sido preenchidos por Vanessa, que estou sinceramente a pensar desposar’. Assento acabou por não casar com Vanessa pois esta fugiu com a cobradora da electricidade que lá foi a casa na véspera do matrimónio. Teve AdaS de cancelar o faustoso casamento e até tinha limpo a casa. ‘Se é lésbica, o melhor é não casar, pois certamente se veria numa situação de infelicidade e aparência apenas por conveniência social’ – conclui AdaS no seu diário.

sexta-feira, 15 de junho de 2012

Notas ociosas: contributo para um Dicionário Esotérico I

Alquimia – Prática mixordeira de certos indivíduos de longas barbas e chapéus pontiagudos que pretende transformar metais ‘vis’ em ouro aquecendo pacientemente sal, mercúrio e enxofre e passando a vida inteira nisto, enquanto vão citando, com um ar compenetrado, princípios filosóficos herméticos, como: ‘o que está em baixo é como o que está em cima’, que é sempre uma bela imagem se pensarmos em duas amigas nuas afocinhando nas miudezas uma da outra. Bruxaria – Umas velhas a roçarem-se em paus de vassouras e bodes a cheirar a bedum enquanto ‘metem’ drogas maradas para ver ‘coisas’, nomeadamente besuntando-se com banha de enforcado contendo meimendro, estramónio e beladona porque ‘já não têm idade para o MDMA’ – segundo dizem. Cabala – Prática de pendor mistificante inventada por uns judeus, que consiste em acreditar num homem gigante que se chama ‘Adão Kadmon’ e está no céu e é feito de umas bolas com umas letras dentro ligadas umas às outras por traços, uns para trás e outros para a frente e que se chamam sephiroths ou ‘emanações’, sendo que a primeira espichou a partir de coisa nenhuma – isto é, porque sim – e que se chama En Sof, para dar um ar sério á coisa. As bolas correspondentes aos tomates tendem a ser maiores que as outras e a ter pelos, dizem. Maçonaria – ‘Clube do Bolinha’ para crescidos, que nem os próprios percebem ao certo o que é que faz e para que serve. Os maçons adoram que quem está de fora ache que eles ‘mexem os cordelinhos desta merda toda’, mas geralmente só conseguem mandar umas bocas nas direcções de sociedades recreativas de bairro, clubes de canasta e comissões de melhoramentos. Uma boa parte dos membros acredita piamente na maioria das entradas deste Dicionário. Diz-se que andam todos nus, às escuras só com um pequeno babete à cintura enquanto meneiam, com ar sério, uns esquadros, compassos e outras ferramentas de construção civil da loja dos chineses. Medicina Ayurvédica – Prática terapêutica de monhés carecas ‘do antigamente’ com túnicas e sandálias, que mete ervas esquisitas que se vendem na Body Shop e nas lojas de brasileiros. Reflexologia – Prática terapêutica ancestral inventada nos EUA nos anos 90 em que se carrega nos pés de tansos para lhes sacar guito, enquanto se vai comentando os calos e as gretas dos calcanhares a precisar de hidratante. É praticado por cabeleireiras espertalhonas. Rosacrucianismo – Uma cena mística com cruzes e rosas que nunca existiu, mas que leva pessoas a fazer tertúlias em Campo de Ourique, Telheiras, Rua dos Bacalhoeiros e em restaurantes macrobióticos vários em que se distribuem cromos com o Conde de Saint Germain para ‘se concentrarem’. Wicca – Cena freak de góticas que mete velas e a Natureza e que se faz na mata com pentáculos e bodes ao som dos Moonspell.

sexta-feira, 1 de junho de 2012

Subsídios para a epistemologia e hermenêutica da cultura popular, 3

Dora e o SM

Ora mil nove e oitenta e oito... Onde estava eu? Andava por aí, com 12 anos, já moço feito, púbere e bem ensocado.

Antes de arder o Chiado, havia um programa na RTP chamado Deixem Passar a Música, onde António Sequeira, Valentina Torres e Ana Paula Reis se entretinham a, entre outras coisas, apresentar as cinco canções que a RTP encomendara a "compositores de renome" (e o que seriam senão 'de renome' indivíduos como Luís Filipe ou Luís Duarte?) para competirem com a cantiga vencedora do Prémio Nacional de Música de forma a que, de entre as 6, dealbasse a imaculada pomba que voaria até Dublin para nos representar na Eurovisão. Foi um ano de sincera revolta, para mim. Devo confessá-lo: o Prémio Nacional de Música TINHA que ter sido ganho por Ana e Suas Irmãs, belíssimo projecto com uma agradável cantiga de Nuno Rodrigues. Não foi, no entanto, e eu apanhei uma camada de nervos. Adiante...

Do Prémio Nacional de Música saiu vencedora Dora, com "Déjà-vu", sentimento partilhado por muitos portugueses quando a viram: "esta não é a serigaita que cantava o 'arreia as calças gabiru' ou 'não sejas ruim par'mim' ou qualquer coisa assim?". Pior ficariam quando coube igualmente a Dora interpretar a canção que José Calvário e José Niza, consta que num armazém ali a Braço de Prata, conceberam como hino às práticas sado-masoquistas: "Voltarei", a canção que, finalmente, nos foi representar a Dublin.

Se musicalmente "Voltarei" é um pastiche de power ballad à Meatloaf cantada pela Bonnie Tyler dos pobrezinhos, já liricamente a coisa é de outra água. José Niza confere uma toada noir, toda ela coiros curtidos, correntes, pulseiras de estrangulamento, ao que parece ser só uma cançoneta de ai jesus que lá vou eu. Atentemos nalgumas das subtilezas:

VOLTAREI P'RA TI
ESPERAREI POR TI
POR TE AMAR ASSIM - primeiro indício, com aquele indiscreto "assim", que isto não é só um amorzito banal
VOLTARÁS P'RA MIM

ESPERAREI POR TI
SOFREREI POR TI - e isto dito assim como quem nem repara...
VOLTAREI POR TI
VAMOS JOGAR ATÉ AO FIM - ora cá está; a componente lúdica, "isto somos só a gente a brincar, amor"

1, 2, 3 VOU COMEÇAR - belíssimo verso, prenhe de simbolismo, vertendo toda a ritualização do 'contrato prévio' sado-masoquista
É AGORA A MINHA VEZ - saudável visão de alternância
ESTOU AQUI E NÃO ME VÊS
PORQUE ANDAS CEGO - presume-se que o parceiro foi vendado, prática habitual no milieu

FINGI QUE TENHO OUTRO AMOR
PARA PÔR NO TEU LUGAR - isto sim, isto é poesia com responsabilidade social!, ao que cremos, é o primeiro verso português a popularizar o uso do vibrador
AGORA FICO A GANHAR
POR DOIS A UM SEM TI - (presume-se que fosse um daqueles que dá a volta)

MAS FIQUEI SEM TI
POR TE AMAR ASSIM
QUEM RI MELHOR CHORA NO FIM - o verdadeiro slogan do S&M português... 

O JOGO JÁ TERMINOU
A NOITE TAMBÉM PASSOU
QUEM PERDEU OU QUEM GANHOU
EU JÁ ESQUECI - o compromisso de reserva e discrição: fina a noite, ninguém precisa de saber quem foi açoitado por quem

AI, JOGO DE SORTE E AZAR
O AMOR É COMO O MAR
TEM MARÉS DE IR E VOLTAR
E EU VOLTAREI P'RA TI - Dora pungentemente retrata a submissa, a que volta para novas brincadeiras com velas e cordames de navio e plainas... não?... plainas não?

VOLTAREI P'RA TI
ESPERAREI POR TI
VOLTARÁS P'RA MIM

ESPERAREI POR TI
SOFREREI POR TI
VOLTAREI P'RA TI
TU VOLTARÁS P'RA MIM

VOLTAREI P'RA TI
VOLTAREI P'RA TI
ESPERAREI POR TI
VOLTARÁS P'RA MIM

O vídeo era uma coisa insossa; muito mais gratificante é esta versão em que se pode ver a Valentina e o Sequeira:




E foi assim, 1988. Depois disto, como não havia o Chiado de arder?

quinta-feira, 3 de maio de 2012

O QUOTIDIANO NA ALDEIA

O coveiro andava a matar toupeiras à pazada quando ouviu chocalhar os ossos de Armindo na cova ‘cloc, cloc, cloc’, mesmo ao lado do Jazigo do Dr. Telles e esposa. Aproximou a orelha da lápide e hesitante perguntou: -‘És tu Armindo?...’ Uma voz abafada soou lá de dentro: -‘Sou pois, caralhos ‘ta fodam’. O coveiro destapou a campa e tirou os ossos para fora. Armindo sacudiu a poeira dos andrajos putrefactos que lhe serviam de roupa e suspirou longamente, inalando o ar puro das serras. –‘Arre, caralho, já bebia duas malgas dele. Tenho mofo até aos…’ E olhou para o osso pélvico onde costumava estar a sua masculinidade e onde agora apenas havia um enorme vazio. Foram até á tasca do Merda Seca onde Josué estava a vomitar para a serradura no chão e a gritar: -‘A minha Adozinda cheira a peixe, rapaziada! Acreditem. Ainda no outro dia a mãe lhe deu umas bolas de naftalina para enfiar no vazadoiro e foi o mesmo que nada…Pachos de creolina, nada. Pegar fogo à pintelheira ensopada em álcool canforado…nada,…ai foda-se que preciso de apanhar ar…’ Uma golfada de vómito cor de vinho tinto atingiu Armindo e o coveiro que já estavam a petiscar umas peles de bacalhau assadas e umas malgas ‘dele’. Nisto, Adozinda perseguia um burro tinhoso que já quase não tinha pelo e tinha a pele coberta de chagas supurantes. O bicho zurrava de desespero e corria à frente de Adozinda tentando escapar. ‘Cloc cloc cloc’- Era Armindo que se aproximava. –‘Ó mulher, deixa lá o animal! Anda lá é beber umas malgas dele!...’ Adozinda deixou o pai a tentar ordenhar o burro, que entretanto se acalmou e foi com Armindo à tasca do Merda Seca. No caminho Armindo contou-lha da triste figura de Josué que gritava inconveniências sobre ela na taberna. No caminho passaram pela vala que tinha o pontão. ‘Armindo disse a Adozinda: -‘Sabes que sempre quis casar contigo’. E foram para dentro do pontão que continuava meio de lama e bosta e tinha lá dentro duas ovelhas mortas e cheias de larvas de varejeira que as ratazanas mordiscavam. Armindo tirou um enorme peixe-espada do bornal. A mãe de Adozinda estava a fazer umas benzeduras ao tornozelo inchado do pai de Josué, Aldemiro, que tinha levado um coice do burro, tropeçado e dado uma queda. Besuntava-lhe o inchaço com enxúndia de galinha rançosa com açúcar e dizia: ‘Zesus que é o Santo nome de Zezus, onde está o Santo Nome de Zezus não entra mal nenhum. A Virgem é filha de Santa Ana, Santa Ana é mãe da Virgem. Zezus Cristo é filho da Virgem e a Virgem é mãe de Zesus Cristo. Vestes e revestes sacerdotes no altar e assim como o sacerdote se veste e reveste no altar, ossos e linhas do meu Aldemiro vá ao seu lugar, isto seja tão verdade como Jesus Cristo disse missa no altar’. Nossa Senhora, Virgem pura, tragas linhas ossos e tendões do meu Aldemiro, amém ‘. De seguida rezou um salve-rainha à N.Srª dos Desmanchos e fez o sinal da cruz sobre o inchaço três vezes. Nisto, surgiu Josué cheio de vómito do peito até aos pés e disse:- ‘’ bênção, senhora minha sogra’. ‘Deus te abençoe’. Disse-lhe a sogra. O pai regorgitou uma golfada de esperma de burro e foi cortar um naco de toicinho com broa para a merenda que acompanhou com duas malgas ‘dele’. FIM

quarta-feira, 2 de maio de 2012

O DESTINO OFERECE PRESENTES EM DESACORDO COM O LIVRO

Josué ficou na aldeia a acabrunhar pelos cantos. Afiava paus e ia acrescentando baraças a uma bola de cordel que guardava por ócio no bolso. Uns pândegos da taberna do Merda Seca ainda lhe conseguiram pregar duas bezanas para o distrair, mas o rapaz morria de tristeza. Na procissão da Senhora dos Desmanchos ia em último com os cães e perdeu-se pelo meio das giestas a caminho da ermida. Só o encontraram uma semana depois amigado com um pastor que lhe dera cinco e quinhentos. O Pastor era Armindo, que tinha o hábito de se menear pela aldeia aos domingos com uma cantarinha à cabeça. O pastor tinha ficado assim desde que bebera um chá de lacrau receitado pelo virtuoso de Perneanes para uma quebradura num testículo. Antes era um rapaz folgazão e bem-disposto. Depois do chá, volta-não-volta, enganava Josué e aproveitava-se da sua infantilidade para lhe fazer mal. Um dia, Armindo apareceu pela manhã enforcado numa amoreira do adro da igreja. O pai de Josué foi o quem o descobriu com a face roxa e com a língua de fora, mas como tinha de ir entregar umas enxúndias ao sacristão não deu importância ao caso. O sacristão já não morava ali e tinha-se dedicado a curtir peles numa aldeia vizinha, pelo que o pai de Josué ficou sem saber o que fazer às enxúndias. O morto, ao fim de uma semana começou a cheirar mal e começou a haver abortos na aldeia devido aos ares pestilenciais. Os aldeões dividiram o rebanho entre eles, assaram todas as ovelhas, comeram e beberam. Josué alheava-se do ambiente festivo e continuava a suspirar. Especialmente na feira, de olhar vazio, afagando os peixes-espada, os safios, as bogas e mesmo as sardinhas de barrica. Uma vez, foi para o pontão, que entretanto estava já meio de lama e tinha uma ovelha morta, para poder afagar e cheirar sossegado um pargo-mulato, que comprara a custo com dinheiro roubado a seu pai. Apanhou o velho distraído a falar sozinho enquanto afagava um talo de couve e surripiou-lhe dois contos de reis. Uma carroça de pargos custava quinhentos escudos e o peixeiro prometeu-lhe que traria o resto dali a umas semanas. Josué, no pontão ejaculava na barriga do pargo e ria-se porque parecia que ‘o bicho tinha ficado com ovas de repente’. –‘Sus! Ó Josué! És tu, carago?!’ – Disse uma voz feminina vinda da entrada do pontão. Era Adozinda que tinha logrado conduzir a sua cadeira-de-rodas até ali. Tinha caído várias vezes pelo que se apresentava enlameada e com uma escoriação na cabeça por onde escorria massa encefálica. –‘Ó rapariga! Bons olhos te vejam! Ai o meu coração, que saudades eu tive de ti, tanto peixe que…’ – E enbargou-se-lhe a voz. Abraçaram-se longamente e depois saíram montados numa vaca em direcção à aldeia. –‘Conta lá moçoila, o que te aconteceu? Enriqueceste em Penajoia?’ –Perguntou Josué. – -‘Não foi Penajoia, foi Abrantes, caralhos!...’ –Retorquiu Adozinda sorrindo com o seu único dente. –‘Fui para lá servir na casa de um senhor que era talhante. Fiz tanto broche pá… Mas tinha cama e roupa lavada. E comida. Uns nacos de sebo, quando os conseguia tirar aos cães…’ – Mas fiquei rica, sim. Juntei quase dois contos de réis. Até comprei um penso higiénico, queres ver?’ – E mostrou uma toalhinha turca ensanguentada a Josué. Quando chegaram à casa do pai de Josué este assustou-se pois não reconheceu nenhum dos dois, desencavou do ânus do pai de Adozinda e ficou com o coração a bater e com a tensão arterial muito alta e a sentir-se mal. –‘Ai rapaz, que susto me pregaste…e essa velhota que vem em cima da vaca quem é? Já hoje tive de me zangar com o homem do peixe que veio cá deixar três carroças de pargos. O cabrão….Mas fodi-lhe o peixe todo ao pontapé, carago! Josué e Adozinda olharam a imensa pasta de peixe esmagado ao sol que se espalhava na rua em frente, pela entrada da loja dos animais, que saía pela janela do primeiro andar e pela chaminé. Uma velhinha varria serenamente a rua por entre os monturos de bosta de vaca e peixe. Depois, começou a introduzir o tortuoso cabo da vassoura de giesta na senaita, largando guinchinhos roucos e pequenos flatos. Era a mãe de Adozinda, que afinal estivera viva desde sempre e que o pai tinha tomado por morta porque se embebedou e foi a outro enterro nessa tarde e ela não lhe disse nada para não o aborrecer – que ele, nessa época, tinha mau vinho. FIM