sexta-feira, 13 de Novembro de 2009
quinta-feira, 12 de Novembro de 2009
quarta-feira, 11 de Novembro de 2009
segunda-feira, 9 de Novembro de 2009
Prédio para Venda
Concelho: Lisboa
Freguesia: São José
Área útil: 800 m2
Preço: 1.500.000 €
Zona/Local: Restauradores


domingo, 8 de Novembro de 2009
quarta-feira, 4 de Novembro de 2009
segunda-feira, 2 de Novembro de 2009
On Language
Calhou-me ontem, por intermédio de uma daquelas pessoas que me reconcilia com a noção da continuidade da espécie humana, ouvir uma palestra de Aldous Huxley, gravada nos anos 50 e habilmente convertida para mp3, como que num lembrete quanto à ideia da perenidade de tudo o que se diz on the record.
Calhou-me ontem, por intermédio da junção da marcenaria japonesa e da construção civil coreana, ouvir aquela palestra já tarde na noite, estendido num sofá de onde se viam pinheiros sacudidos pelo vento e a sua sacudida sombra numa parede imóvel. Esta frase é inútil; é até irritante porque há sempre algo de pretensioso em definirmos o “nosso” contexto. Está escrita, todavia, e escrevi-a porque, literalmente, embiquei para ali.
Dizia eu, então, que ouvi ontem uma palestra do Aldous Huxley. O seu título: “On Language”. Singelo e ambicioso, ao mesmo tempo. São 45 minutos em que o senhor fala, titubeia, vira umas folhas de papel, diz duas ou três graças e partilha. Partilha o que pensa, o que estava a pensar, o que tinha vindo a pensar. No caso dele, ouvindo-o, isso remonta a sabedoria. É isso então que ele partilha, sabedoria sobre este extraordinário sistema de símbolos. Sendo que Huxley era Huxley, a sua visão é abrangente, expressa numa forma elegante e é, também, profundamente sadia. Esta palestra faz bem.
Brevemente: sublinhando o carácter excepcional da linguagem humana no contexto animal; evidenciando o seu carácter determinante na existência da humanidade; e expondo muitas das suas limitações e alguns dos seus efeitos profundamente perversos, Huxley, como outros, traça uma clara distinção entre experiência e linguagem, apontando assim para aquilo a que chama a nossa natureza anfíbia. Fundamental, por ser uma verdade simples, experienciável e facilmente transmissível até por um meio tão corruptível como o é a linguagem, parece-me ser a repetição da ideia de que isto, esta linguagem, este conjunto de símbolos que agora nos é comum, não pode ser visto como um absoluto, ou seja, não deve permitir que, à semelhança do que sempre se fez, se escarneça, apedreje, enclausure ou execute quem haja por bem questionar a sua validade ou apontar coisas ou factos ou ideias que não “cabem” na linguagem como hoje a entendemos.
“Lá vem ele outra vez com aquela merda da linguagem”, pensarão vocês. Descansem; descansem que não é bem isso. O facto é que já aqui escrevi uma ou outra coisa que alinha com o teor da palestra de Huxley. E fez-me sentir uma frustração fininha, rememorando algumas coisas esta manhã, que uma palestra gravada nos anos 50, veiculando uma nova expressão de ideias que têm aparecido regularmente desde há milénios, só me tenha chegado aos ouvidos mais de 50 anos depois de ser gravada e, ainda assim, mercê da intervenção de uma daquelas pessoas que me reconcilia com a continuidade da espécie humana.
Essa frustração miudinha advém do que me parece ser a tendência para deixar as expressões do que é um (ou vários) pensamento pelo menos válido e de certa forma são, nas margens da expressão a que temos acesso, nas cimalhas das prateleiras da linguagem, onde só vai quem tiver paciência para subir o escadote ou se cansar de ter os tornozelos mordidos pela canzoada do mainstream. A imagem das cimalhas não tem a ver com qualquer ideia de “superioridade”, apenas de dificuldade de acesso. Há, porra; há mecanismos de auto-preservação deste sistema de símbolos e duas das suas principais armas são o ridículo e o white noise. Huxley ainda é um daqueles casos em que as pessoas conhecem o nome, até já leram o Admirável Mundo Novo, mas (MAS, claro, tinha que vir...) diz que ficou com a mioleira toda calcinada por mor da droga, não foi? Escreveu umas coisas sobre visões e o caralho, não foi? Ganda maluco, pá; inglês todo pipi e vai-se a ver era um janado daqueles!... Altamente! Mas outros, outros nomes, deixando-os apenas no volet de certa forma “contemporâneo”: Daisetzu Suzuki, Bertrand Russel, Alan Watts, Joseph Campbell, Christmas Humphreys, Witold Gombrowicz, Herman Hesse, mesmo... e sempre outros, outros nomes. Pode parecer uma salganhada, mistura de alhos com bugalhos; o que é facto é que todos eles foram num momento ou outro ridicularizados (alguns “reabilitados”, depois; alguns não) ou apenas ignorados porque o que diziam e escreviam não cabia na opinião dominante. É fácil: basta uma referência a escolas de pensamento orientais e lá vem o carimbo “ah!, é new age/auto-ajuda/mais um com a mania que é guru/tipo-Paulo Coelho”... Mais a mais se o discurso é simples, tendente a re-simplificar a visão sobre certos aspectos, logo se gera um “consenso académico” sobre a falta da validade de tudo aquilo, “disparates” sem solidez – porque ameaça o “Estado de coisas”, porque convida a pensar. E esse, esse é o novo pecado original. Pensar é impróprio, ainda para mais se não se consegue responder de imediato à pergunta “em quê?”. É uma vergonha e não deve ser feito em público...
Em virtude disso, passei por 17 anos de ensino sem que ninguém tenha tido a decência de explicar que o instrumento utilizado para tal, a linguagem, é apenas UM sistema de símbolos, conservador por natureza, que se arroga poderes que não devia ter como o de recusar considerar como válida qualquer experiência que não pode ser reportada por aquilo que se “costuma dizer”. O mesmo sistema que nos deu o conceito de “extraordinário” rejeita tudo o que não seja ordinariamente transmissível. Eu fui educado com uma linguagem absolutista e é ainda sob o seu jugo que vivo. E não tenho espaço, chiça. Não há espaço deixado fora da linguagem porque esta merda desta mente não se CALA, não consegue deixar de pensar com palavras, sempre e sempre e sempre...
Porquê, alguém me explica porque é que nas aulas de inglês no Ciclo Novo de Tomar não me mostraram a palestra do Huxley como inciação à língua inglesa em vez da tonteria do “Love me do” dos Beatles?
domingo, 1 de Novembro de 2009
sexta-feira, 30 de Outubro de 2009
Groselha
É refrescante ler o que Schoppenhauer escreveu sobre o espaço e o tempo – é refrescante ler Schoppenhauer, ponto final. Ainda que eu prefira groselha.
Felizmente, as duas coisas podem concorrer: posso sorver ruidosamente um copo de groselha com muito gelo (aqui não há groselha, donde que afinal não posso...) enquanto esfrego o focinho na ideia de que espaço e tempo são ideias, criações mentais, a nossa forma de “pôr ordem” no que experienciamos. Gavetas. Tupperwares para arrumos mentais.
Ora, se tanto pode ser dito sobre espaço e tempo, conceitos – CONCEITOS – aos quais se pode reconhecer alguma relevância e conveniência, será importante olhar à mesma luz para coisas como o dinheiro, o trabalho e o facto de supostamente estarmos integrados num “modelo” sócio-económico que já ninguém se lembra de ter escolhido e em que as decisões e acontecimentos parecem obedecer a uma causalidade de tudo quanto se toma por adquirido, por “nem é preciso dizer”, por “é mesmo assim”. Não conheço ninguém a quem os dias não “aconteçam”; ninguém que não seja “levado” na corrente do “tem de ser” inquestionado – ninguém em idade activa e com um emprego, pelo menos. De maneiras que ter Schoppenhauer numa mão, Roland Barthes na outra e uma simpática coreana a trazer-me a groselha à boca é o estado ideal para entreter a mioleira por uns minutos, tentando descortinar qual o motivo de andar tanta gente a correr de um lado para o outro e a fazer coisas.
É que isto de fazer coisas faz-me, em turno, impressão. Às vezes é giro mas o mais das vezes deixa de ser, assim que alguém diz “outra vez”. Extrapolando para um dia inteiro a fazer coisas, é uma grande chatice. E não tem um propósito; deixou de haver um propósito. Fazem-se coisas para alimentar o ciclo das coisas – e só não uso esse termo detestável da “coisificação” porque há, ainda, uma réstia miudinha de animalidade, de “vontade”, isto é: ainda há uma quota parte de responsabilidade assinalável de um factor natural nisto tudo, que se pode verter na bela expressão “fazem-se coisas para coisar”.
Pois é. Enquanto me engasgava com a groselha e cusipnhava a branca veste da coreana com pingos grossos de uma falsa menstruação e com um ou outro vestígio viscoso da vida a ser vivida nos meus pulmões, assomou-me uma consciência de que boa parte do “mal” está nos colhões. Podíamos localizá-lo noutros órgãos associados ao desejo mas colhões é palavra que (salvo seja) enche a boca e pode ser expelida com veemência e retumbância, algo que sempre se adequa aos pensamentos alimentados a groselha. O binómio dinheiro-colhões é um dos principais motores do actual estado de coisas. E porquê? Porque há uma ilusão, dentro da Ilusão, partilhada colectivamente e que faz crer que “coisas” potenciam a foda. E não falo do Viagra...
De certa forma, foder deixou de ser um acto físico e tornou-se, sob a formulação “querer foder”, na estrutura teórica do nosso existir. E sublinho TEÓRICA... ainda que o aumento da população mundial comprove a existência do lado prático. Até ao “grande milagre da progénie” trazer alguma ligeiríssima alteração de paradigma, o período que tem início no pós-instrução primária (para os mais lentos) é virtualmente determinado, parece-me, pelo querer foder. Independentemente do género, claro, factor que sempre contou para muito pouco com excepção de evitar alguns enganos embaraçosos no escuro. É o querer foder que dita, em primeiro lugar, a vontade de se “enfeitar”. Não venham com conceitos; venham com histórias mas não me venham com conceitos como “integração social” ou “aceitação social”... A tua filha, leitor, não te pede aquelas calças ou carteira ou pulseira ou o que for “porque as amigas também têm”; a tua filha quer aquele objecto porque não o tendo sente-se com menos hipóteses de que haja quem a queira foder. O teu filho não deixou de usar meia branca com sapatos de vela porque “os amigos faziam pouco”; deixou porque se continuasse a ser pató e pé de gesso tinha menos hipóteses de foder. Ou seja, desde a mais tenra idade, desnaturaliza-se o processo de “selecção natural” do parceiro sexual. As coisas, a aura material que se projecta, são encaradas como factores determinantes para o ensejo de foder. Vive-se num estado de MEDO, e esse medo é traduzível na expressão “se eu não parecer, não fodo”.
Estende-se a tudo; é também por isso que se vai para a Universidade, porque se crê que na Universidade há mais hipóteses de foder que trabalhando como magarefe ou calceteiro ou cerzideira ou bobinadeira – e, para além disso, pode abrir oportunidades para um emprego ou “posição” que, também esse, se comprove mais competitivo neste joguete para niños do “olha que bem que eu estou, bute foder?”. A raíz do problema está em que se juntam “pontos”, pontos esses que, chegada a hora, se mostram afinal não convertíveis em... foda. Mas como bons autómatos que somos, a foda, uma foda, qualquer foda, valida imediatamente toda a estupidez intrínseca ao processo – qualquer foda justifica a ida ao cabeleireiro, os ténis novos, o carro, a casa, o trabalho! A casa, sim; qual é a maior pressão para arranjar um emprego e sair de casa dos pais? A “independência”? Sim, se por isso entendermos ter um sítio para foder à vontade. Porque esse é outro espartilho: é preciso um sítio; é “ofensivo” que, citando o grande Assento, se “faça o amor” pelos cafés, pelas ruas ou no balcão dos congelados do LIDL... e a natureza do sítio é outro factor de competição. Entra-se nisto e é tal a pressão para ganhar pontos, para se parecer qualquer coisa que possa foder, que, de repente, nem "tempo" temos para... isso mesmo.
É que não há outro racional. Ou o sistema é puramente irracional ou, então, é ditado pelos colhões (num sentido universal que se estende a senhoras e senhores e ambíguos). E a alteração de percepção que a progénie possa acarretar pouca diferença faz: soma à continuada demanda por uma posição de alta fodibilidade a preocupação pela posição que os descendentes ocuparão nessa mesma competição. Uma pré-primária gira para que o miúdo não dê beijinhos a piolhosoas; uma carreira educacional que lhe permita ser “alguém”, ou seja: se ele ou ela não foderem, que não seja por incúria dos pais!! E dá-se-lhes quanto se pode e quanto não tivemos (e continuamos a acreditar que teríamos fodido mais se o tivéssemos tido; mais ou, pelo menos, outras pessoas).
Desafio-vos, então: parem um bocadinho, bebam uma groselha e pensem se há realmente necessidade de “fazer coisas” para se fazer sexo. E pensem na raíz última do estúpido conceito de “falhado” – o falhado, nos nossos dias, é o gajo ou a gaja que não fode e PARECE não ter hipóteses de o fazer, da solteirona amargurada ao sem abrigo que cheira a mijo. A ligação mental entre prosperidade e atractabilidade sexual é ainda mais perversa e perniciosa que a ideia de um Banco Central e da “dívida original”.
quinta-feira, 29 de Outubro de 2009
DOS AUTOS DE JOAN ARAÚJO
No anno da graça de N. Sr Iesu Christo de mil trezentos e noventa e does, ao sétimo dia de Juño, pelas matinas, Joan d’Araújo, cavaleiro, mestre d’ abóbada, tabelian do Tribunal d’Evora, Alcalde de Sousel foi em muihieramá tomado de sesões, feluxos e diarreias do ventre por ter comido carne de prediz podre dada por hum mau judeu, que foi apedrejado e queimado no pelourinho d´Evora, por sorte duã gran maldade no dia de Santa Maria e inda o seu amigo de vis amores carnais Luís Melgaz, fillo de Joan Melgaz também enforcado, queimado e acusado de perro judeu e por ter comido choiriças de galiña na seista feira santa e inda de muita impiedade e brutxaria. Leu o perlado dominicano do Santo Ofício duas perdictas de acusaçon ao judeu e o mregullou em augoa a ferver e arrancou as uñas dos pés, uma a uma e por grande força does fortes homes o cevaram por traz que ele ainda gostou e mais o padre dominicano que taobém pedio para els lle cevarem o traseiro a bruta e desatou aos brados empurrando um largo tallo de cove nas entrañas e mais hu jumento com gran verga que ali estaua de um mafareque sarraceno que vendia latas e unguentos banfazejos para as carnes saídas dos homes por cagar grossas tercidas. Pôs u padre na bouca a pitcha du burro e dise do demo muitas loas qãndo o burro largou muitos leites na pança do padre que até esguijou das orellas. Deu noticia em muitas légoas dali e uieram muitos homes de jeito como melheres ver do burro que dele se agradaram e da sua verga grosa.
(como são raras e boas as bostas do Varreta Charreta... desta maneira penso serem republicáveis de quando em vez...)
A questão é: porque raio há-de isto ser um punch-line? Porque raio há-de isto ser "escatológico", "grosseiro", de mau tom? É a verdade verdadinha. O próprio Kierkegaard esborraçava-se todo enquanto cogitava sobre o milagre da fé. E eu, que corri para um café depois do jantar, cantando salmos à legislação que obriga estes espaços a terem instalações sanitárias, caguei-me copiosamente depois de um serão de polida conversa de salão e ditos de espírito.
Não sei quem a encetou mas há uma campanha velha de séculos tendente a uma gradual desnaturalização do ser humano. E é (praticamente) global. Apesar de poder ser vista como sintomática das grandes falácias do pensamento ocidental (do "eu" controlador, superior e incorpóreo, preso na suja realidade do esburacado corpo), o facto é que também no oriente não se caga em público. Há uma marca de expiação sobre os nossos testemunhos de animalidade, de naturalidade. São "coisas nossas", feitas com carácter reservado - quando são precisamente aquilo que nos unifica. Não propugno por uma liberalização plena das funções excretórias - mas interrogo-me, por exemplo, porque é que, se não temos divisórias entre urinóis, nas casas de banho para senhores e crianças em idade escolar, porque é que as temos entre sanitas? E porque é que persiste a separação de géneros nas casas de banho? Porque é que eu não poderei ir à casa de banho de um café e perguntar à senhora que relaxadamente muda o penso se a sanita ao lado dela está ocupada? Se ninguém se incomoda com mudanças de fralda; se toda a gente acha graça à criancinha que diz "tenho chichi", que raio há no corpo adulto que motive tanto nojo, desconfiança e "moralidade" saloia? Há merda? Há em todos, que diabo! Nos novos como nos velhos, na Cristina Candeias como no Bento XVI.
Irrita-me um poucochinho, esta desnaturalização, porque eu a acato. Não só na hora de defecar mas em outras circunstâncias. No supermercado maior e mai'barato do bairro onde agora resido, só vendem papel higiénico em volumes adequados a famílias numerosas. Eu bem procurei mas debalde: o volume mais pequeno tinha 16 rolos MAS trazia mais 6 de bónus... E eu, confiando numa gestão criteriosa do inventário que ainda tinha em casa, não comprei. Não comprei porque me sentiria incomodado, nos 15 minutos de caminho entre o supermercado e a minha casa, ao passear frondosos 22 rolos de papel higiénico. Admito: nunca me ocorre coisa nenhuma quando vejo alguém passar carregando enormes volumes de papel higiénico. Mas se tal tarefa me é incumbida, logo eu interpreto cada olhar que me é dirigido como um "eh lá!! vai ser carilada potente, hoje, hein?" ou "com um cu que mal enche as calças queres tanto papel para quê?" ou "este deve ser daqueles que deixa as paredes da sanita bem rebocadas!". E sinto-me estúpido. Limitado. Timorato. Ímpio. Sarkozy. A campanha resulta. Eu sou um bocado desnaturalizado, como o leite é desnatado. Escagaço-me quando a natureza o clama - mas escondo-o, não só o acto como os acessórios, qual Pedro negando Cristo três vezes. Não quero ser visto em sociedade na companhia de papel higiénico (aquela coisa volumosa, sempre com mascotes ridículas que tentam tornar mais "suave" a sonora proclamação EU VOU CAGAR!...).
E estende-se a muito mais, a desnaturalização. Porque é que não é "aceitável" que um casal se despeça numa ocisão social com um "bom, nós vamos andando que eu e o meu marido queremos ir foder"? Porque é que a razão há-de-ser sempre os miúdos, a reunião da manhã ou a chaleira eléctrica que se calhar está ligada? Nenhuma das fórmulas "interessa" a quem a ouve; nenhum anfitrião quer saber da reunião ou da chaleira ou da escalfeta - ou da foda. Mas isto, meus amigos, isto é que a pedra de toque! A desnaturalização fez-se pela linguagem! Como é que pode haver um conceito como o de "linguagem ofensiva"? Ou "insulto"? Ou calão? Ou grosseirice? Ou ordinarice? Expliquem-me. COMO? É a auto-censura da linguagem um imperativo categórico kantiano? Se está ligado (por quem a defende) a qualquer espécie de moral universal, o argumento colapsa pelo pressuposto que um elemento universal pode ser universalmente experienciado através de um meio não-universal como o é o caralho da linguagem, pá!! Porque raio é que se cantam loas aos que captam "a beleza plástica da crua realidade da pobreza/droga/guerra/instituições com muitas pessoas com ar triste" e ninguém reconhece o fino recorte poético de uma expressão como cona da tua mãe? Sim; gostava que alguém me dissesse um dia: "Sabes, estava aqui a pensar gratamente na cona da tua mãe e em quão bendito é o fruto dali saído, Vareta." A cona da mãe de alguém de quem gostamos é um santuário original, um ponto de gratidão ao qual não é preciso prestar tributo directo.
Fica assim prometido: da próxima vez que fôr estrumar a porcelana, talvez sorria com bonomia lembrando-me dessa parte integrante disto tudo e do quanto isto tudo é intrinsecamente bom: as conas das vossas mães. E a da minha, também.
By Vareta




















