sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

F...


segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Andrómeda

Foi Andrómeda uma bela virgem, filha de Cassiopeia e Cefeu, que na Ásia reinavam. Ainda menina era tão formosa que por todos a sua beleza era admirada. No entanto, quando Andrómeda atingiu o décimo sexto ano, a sua mãe ao ser interrogada acerca da beleza de sua filha disse ter a certeza ser Andrómeda mais bela que as Nerêides – ‘Desejava que tais ninfas do mar aqui pudessem estar. Assim todos poderiam constatar ser a minha Andrómeda muito mais bela que elas!’ Tais palavras chegaram aos ouvidos das Nerêides e estas, furibundas, de imediato se queixaram a Neptuno que, ao vê-las de tal guisa perturbadas, decidiu castigar Cassiopeia pela sua soberba. Assim, invocou um terrível monstro marinho que devorava os habitantes da Ásia e os seus campos devastava. Tantos foram caídos que Cefeu, temendo que todos os habitantes do reino perecessem, se dirigiu ao templo de Neptuno e orando ao deus, lhe rogou que daquele grande mal livrasse os seus súbditos e o reino. Neptuno, ouvindo as preces do rei não mudou de opinião e persistia na sua intenção de castigar a rainha pela sua muita soberba. Como Cefeu o tivesse interrogado sobre o que fazer para mitigar tamanho castigo, Neptuno respondeu, tonitruante, que devesse Cefeu sacrificar sua filha Andrómeda ao monstro marinho; apaziguaria tal oferenda a fúria da besta e cessaria assim a punição do reino de Cefeu e, por essa via, seria saldada ainda a soberba de Cassiopeia. Choroso, Cefeu ordenou que Andrómeda fosse despida e acorrentada de pés e mãos num rochedo sobranceiro ao mar batido pelas ondas. A esposa de Cefeu lhe disse –‘como podes perpetrar tamanha crueldade em nossa filha amantíssima, que na flor da juventude morrerá sob os apetites assassinos do cruel monstro?’ Cefeu lhe disse que, apesar do muito amor que sentia pela filha, não lhe restava outra solução, pois a alternativa seria permitir que este mesmo monstro continuasse a ceifar as vidas dos seus súbditos e campos. Perseu, que pela costa daquelas regiões andava errando, ao ver tão bela figura acorrentada às duras rochas, pensou primeiro tratar-se da estátua de uma deusa, senão quando viu seus cabelos agitando-se ao vento assim como lágrimas que lhe rolavam na face. Aproximando-se de tão bela figura, disse: ‘ dize, belíssima donzela – porque estais assim presa por fortes correntes neste ermo? Quem tal crueldade perpetrou?’ Andrómeda, como estava desnuda, teria por certo coberto a sua face de vergonha, mas prendiam-lhe as mãos as correntes. Correram-lhe profusas as lágrimas pelas faces enrubescidas, mas não deixou, por isso, de contar a Perseu a história de seu trágico destino originado pela soberba da mãe, Cassiopeia. Nisto, ouviu-se um som altíssimo e horrendo. O monstro emergia das ondas e surgia urrando. A besta imensa dirigiu-se célere em direção a Andrómeda. A donzela gritava desesperada e os seus pais paralizavam enlouquecidos de dor, pois nada podiam fazer para suster o ímpeto do monstro. As suas lágrimas eram dignas e decididas e contivessem algum derradeiro arrependimento, nada fizeram, contudo, para num último gesto ainda salvar a filha. ‘Não é tempo de chorar’ – disse Perseu. Tal como Mercúrio, Perseu tinha sapatos alados que lhe conferiam o poder do voo. Voando quase até ás nuvens e mergulhando sobre o monstro, uma vez e outra o feriu com a espada nas costas. Feriu-lhe fortemente o ombro usando toda a energia que tinha. O monstro, que se sentisse ferido de morte, mergulhou nas águas para volver a emergir berrandoe, qual visão horrenda, tentava morder Perseu. Este, velocíssimo, voava por sobre o monstro, para aqui e para ali, ferindo-o tanto e de tal modo que este acabou por se esvair em sangue e submergir para sempre moribundo sob as águas. Os pais, felizes e gratos, por verem sua filha salva de morte certa e horrenda, ofereceram a filha como esposa a Perseu. Este, soltou-a das correntes que a prendiam e consolou-a com suaves palavras. Andrómeda exultou pela sua liberdade e mais por se ver noiva de tão forte e tão belo homem.

segunda-feira, 17 de junho de 2013

Monstros simpáticos, II


"Olhe, escreva já aí que foi tudo sem querer. Ainda hoje ninguém acredita e eu tenho cansado as vistas a escrever cartas a todas a pedir desculpa. Que eu ainda penso nelas como vizinhas e amigas. E chamaram-me de tudo. Até no jornal do crime eu apareci. Veja lá bem. Eu a pensar que só ia aparecer no jornal quando me pusessem o retrato na necrologia, confiando que o meu Renato se lembrasse de tanto, e afinal... Não é que eu agora esteja à espera que ele se lembre. Manda-me um postal pelo Natal e apareceu cá uma vez com o meu netinho. É a coisa mais engraçada, havia de ver. Tenho uma fotografia mas está lá dentro, nem me lembrei de trazer. Mas também, olhe, se continuar com a pouca saúde que aqui tenho tido, não será preciso que ele se rale com o que há-de ser da mãe quando daqui sair. Falta-me o ar para tudo e não tenho articulação que não grite. E a minha cabeça também já esteve melhor. Olhe, ainda se vai rir: hoje acordei com um bocado de temperatura e não é que, estando eu muito convencida de que tinha o termómetro na cova do braço, não é que reparo, quando o tiro, que era o Predictor da minha colega de quarto? Ai, ainda se rimos as duas. Também lhe digo, não sei para que raio quer ela o Predictor aqui mas eu não sou pessoa de me meter na vida dos outros. Nunca fui. E chamaram-me de tudo... Ó filha, não bata assim com a caneta no bloco que me faz lembrar o meu advogado. Quer que lhe conte como foi, não é? Já estava quase desabituada, depois de tantos meses a repetir a mesma história a toda gente. Agora já ninguém quer saber. Nem o meu Renato, tão pouco. E olhe que foi quase tudo por causa dele. Dele e do meu Raúl que Deus tem, que já não faltará tudo para me juntar a ele. Escreva aí que o meu Renato foi criado com disciplina, que não era nenhuma criança estragada com mimo. O meu marido era escriturário na serração, que ao tempo era uma empresa grande, e eu olhava pela papelaria, que não dava muito mas pagava a renda e pouco mais. Com dez anos, o meu Renato já ajudava e já me ficava ao balcão, depois das aulas. Nunca teve uma grande queda para as letras mas era tão certinho com os números como o pai. Foi mais por ele que eu me comecei a entusiasmar. Ele não quis estudar quando acabou o liceu e também não o quiseram na tropa. Mas escreva aí que ficou apurado, que ele é uma bela figura. Nunca lhe faltámos com nada. Bom, chegam-se os 19 anos e o rapaz fica ali mais ou menos encostado à papelaria. E eu via que aquilo não lhe enchia as medidas. Uma mãe sente estas coisas que eu nem precisava de lhe tocar para saber que ele estava com febre, 'ai Renato José que andaste outra vez a jogar à bola e transpiraste e enxugaste a roupa no corpo e agora a mãe que te  faça o xarope de piteira'. Bom, o rapaz só falava de duas coisas, noite e dia, que parecia a canção da Madalena Iglésias. Era a ideia de vender máquinas de escrever eléctricas na papelaria, que o rapaz ateimava que era coisa de futuro, e era o carro. Morria e estalava por ter um carro. Ora o meu Raúl parecia o filho mas do avesso e só havia duas coisas em que ele era ainda mais teimoso do que no seu apego ao PPD, que era 'não enterrar nem um tostão na papelaria', como ele dizia, e não ser com o dinheiro dele que o meu Renato comprasse uma máquina que o podia matar. Que o meu sogro, que eu não cheguei a conhecer, morreu na nossa África num desastre de automóvel. O meu Raúl era um homem muito sério, que nunca ninguém teve coisa alguma que lhe pudesse apontar, mas lá no fundo era uma pessoa meiga. Só que teimoso como um muro. O meu Renato nunca foi de fazer fitas nem de mostrar má vontade. Continuava a trabalhar na papelaria, sempre certinho e educado e nunca houve nenhum problema de caixa. E olhe que o que se via pela mocidade em Tomar, naquela altura, era de dar graças a Deus por ele ser tão sossegadinho. Até a droga por lá havia, mesmo ali na nossa rua, que é uma rua boa. Chegou para lá um casal que tinha estado emigrado na França ou na Suíça, sei lá eu, e abriram um café... um antro!, não tinha quase luz nenhuma e só lá ia ter o refugo. Também, aqui para nós, lá a emigrada dizia que tinha sido empregada a fazer camas em hotéis mas havia muito quem desconfiasse que o mais certo é que tivesse ganho o dinheiro para o café a desfazê-las. O meu Renato nunca lá pôs os pés. O meu Raúl não bebia café por causa da azia e eu só punha uma colherinha de Tofina nas minhas sopas de leite, de manhã. Toda a vida me pelei por umas sopinhas de leite. O meu Renato gostava era da Farinha Pensal, que desbastava uma caixa por semana. Mas isso foi antes do... Ó filha, lá está você com a caneta. Desculpe-me mas uma pessoa aqui nem sempre tem oportunidade de conversar assim à vontade. Olhe, não é preciso ir muito longe: a minha colega de quarto. O mais das vezes responde a uma pessoa com quatro pedras na mão e depois escarnece de eu ser de Tomar e de estar aqui pelo que estou. Bom, mas então foi por essa altura, pelos dezanove anos do meu Renato, que eu comecei também a vender umas coisinhas da Tupperware. Costumava ser a Dona Idalina mas desde que o marido foi descoberto a fazer desfalques no Borges e Irmão ela achou melhor deixar-se disso e eu pensei para comigo 'ó Dores, tu já conheces quase todas as senhoras, que vem tudo à papelaria para comprar a TV Guia; tens uma casinha remediada mas graças a Deus com muito asseio, ferves uma pouca de água com erva príncipe, usas o Limoges que te deu a madrinha e ainda juntas para uns alfinetes'. Assim foi, juntava-se quase sempre o mesmo grupinho e eu lá ia vendendo uma coisa ou outra. Foi também por esta altura que o Rui da Graziela ganhou o Citroën nos sorteios do Cola-Cao, no 1,2,3. Aquilo foi como uma morte para o meu Renato, que ele conhecia o rapazito, que vivia duas ruas abaixo. Que ele nunca foi de remoques, o meu Renato, mas de cada vez que eu o ouvia ao jantar a dizer entre duas colheradas de juliana 'Hoje vi o Rui da Graziela no carro novo', aquilo era como quem jogava sal grosso numa ferida entre ele e o meu Raúl. O meu Raúl também era de gancho e só lhe dizia 'Zarolho como ele é, mais depressa o estampa.' Andou toda a vida de carreira e a pé, o meu Raúl. Não sei porque não tinha ele medo que o autocarro também se estampasse mas eram só os carros que lhe metiam aflição. Tudo isto para morrer de um escorregão na banheira, olhe que ele há coisas... A canetinha?... Obrigado, filha. Vai daí que eu, em segredo e em má hora, comecei de conluio com o Sr. Antunes do mini-mercado a comprar Cola-Cao por atacado com o dinheirinho que juntava da Tupperware. O que uma mãe não faz para ver um filho contente, não é? Perdi o conto às dezenas de rótulos que mandava. Perdi o conto e a compostura, que o carro não havia maneira de sair. O dinheiro da Tupperware acabou-se-me, cheguei a tirar da caixa da papelaria, fiquei com um grande calote com o Sr. Antunes... Eu, que tinha levado sempre uma vida tão sossegada, filha, que nunca ninguém foi pessoa de dizer que a Dores isto ou que a Dores aquilo, que o meu marido nem nunca me viu nua, só de combinação, e de repente isto. Comecei a pedir dinheiro adiantado às clientes da Tupperware e depois sugeri que fizéssemos a reunião em casas diferentes. Comecei a ir-lhes aos guarda-jóias, tudo isto ao mesmo tempo que corria a cidade inteira de madrugada a largar caixas de Cola-Cao sem rótulo em cada contentor do lixo que encontrava. E o carro não saía, filha. O meu Renato esmorecia, umas olheiras, um ar pesado, que eu cheguei a desconfiar que ele se andasse a... sabe, o que os homens sozinhos fazem... assim com a mão... mas graças a Deus não, que eu nem nunca uma manchinha lhe encontrei na roupa interior e quando lhe mudava os lençóis ao fim de uma semana era como se ninguém lá tivesse dormido. Eu também estava um farrapo. Não dormia, mal comia, a menopausa consumia-me e era uns nervos, uns nervos, uns nervos... As vizinhas começavam a falar das jóias que tinha levado sumiço e foi numa reunião em minha casa, quando elas começavam a juntar dois mais dois quanto às datas e assim, que eu fechei as janelas e abri o gás... Coitadinha da Dona Gina, era a mais fraquinha, foi a única que não resistiu antes de o meu Renato chegar. 

quinta-feira, 16 de maio de 2013

How to confuse an idiot

        
 
 
          

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Monstros Simpáticos, I

Depoimentos de criminosos improváveis


Gervásio Sousa, 72 anos, homicida

"Era levada do diabo. Não se fazia farinha às primeiras com a minha Gertrudes. Contavam que certa vez, estava ela sozinha no café (nota: o entrevistado era proprietário do café, estabelecimento sem nome registado, em Casal das Aboboreiras, concelho de Tomar), e chegou lá o Tóvão, que andava com o caminhon das bebidas, e vai ele e diz 'Ó Dona Getrudes, era uma mine e uma punhetazinha de mamas.' Qu'a minha Gertrudes tinha um seio que era uma coisa... Toda ela era maciça, certo, mas o seio aquilo quase lhe arrebentava as blusias. Certo. Mas ela vai e não foi de modas: arregaçou a blusia e vai e diz-lhe 'Tu, ó pinchavelho? Tu nem pró meu imbigo chigavas!' E ela tinha um imbigo que aquilo era uma coisa... Parecia assim o buraco de uma rodilha mas em grande, que nem se le via o fundo. Certo. Diz que o Tóvão que ficou par lá todo encavacado e a minha Getrudes em grande risada. Que quando ela se ria aquilo era uma coisa... Parecia que tinha chocalhos na pulmoeira e tudo o que era refego se lhe sacudia de mansinho como quem estendia uma manta ao vento... Uma mulheraça... Aquilo... Certo, ela fazia duas de mim, que eu nunca fui muito grande. Nem fiquei aprovado nas sortes. Mas nunca fuin de virar a cara ao trabalho. Certo. Eu às vezes matutava que ela escunfiava que tinha sido eu a atirar c'a minha sogra par dentro do poço. E não se enganaria ela. Certo. Qu'a minha sogra fedia que aquilo era uma coisa... Parecia chanfana em antes de ir ó forno: só cheirava a cabra velha e a vinho. Certo. Mas nem foi por isso. Que nem era má mulher. Mas o meu primo Ricínio contou-me o do senhor vigário bem contado e fugiu-se-me com mais de duzentos contos em dinheiro antigo. E a minha sogra não foi senhora de se chigar à frente só que fosse siquer ò menos com um mês da refolma. Não sei que raio de estimação tinha ela pelo dinheiro, a mais qu'a Gertrudes era filha única, que deitar a paridela dum animal daqueles é coisa pra derribar uma mulher. Certo. E eu vou e começo a pensar qu'aquilo era ganho em dois enviopes: era o que se poupava no comer e nos dicamentos da velha e mais o que vinha da herdança que ela não era mulher de comprar umas cuecas c'o dinheiro dela. E eu fize-a bem feita. A velha inda gostava de acudir à horta e eu escolhi bem a hora e vou de le dizer 'ó minha sogra, venha cá ver, ali no poço, aquilo não é...'. Ela confiou-se e eu virei-a que foi um repente, qu'a mulher era seca de carnes. Certo. A Getrudes não era de grandes apegos à mãe e passou bem sem ela. Inda a velha tava quente e já ela tinha ido à feira a Tomar comprar um valente cordão d'oiro com parte da herdança. Qu'ela era opiniosa. Nunca tivéramos dinheiro para luxos mas a minha Gertrudes era opiniosa. Certo. Mas nos dias em que lá lhe abanavam algum tanchão ela vinha com remoques sobre a velha e 'bom jeito te deu' e 'sei tanto disso como tu saberás porque raio foi ela ó poço'. Nunca mo disse às claras mas que escunfiava... Que não se le comiam as papas na cabeça assim às primeiras. Andava ligeira, a minha Getrudes. Eu era mais confiado do que era ela. E bem me custou, que o meu primo Ricínio enfiou-me o garruço bem infiado e viste-lo... Lá se foi ele com duzentos contos em dinheiro antigo. Andava tudo na ponta da unha, lá no café, qu'a minha Gertrudes não era trouxa pró negócio. O café era do mê pai, que ele era de Seia mas casou para ali. E eu às vezes escunfiava, eu tamém escunfiava, qu'a minha Getrudes casou mas foi c'o café e eu, olhe, falando mal e depressa, eu era gado da casa. Certo. Mas nunca dei porque m'enganasse. Eu inda andei por lá eriçado com a Domitília... Qu'aquilo nem siquer ò menos era vistosa mas como era um bocado porca e não eram precisas mais de duas falas antes de pregar co'ela no chão, eu tamém quis ir lá ver. Mas não era nem de três parte uma a mulher qu'era a minha Gertrudes. Qu'aquilo era uma coisa... Toda ela era maciça. Aquilo era uma anca qu'enchia uma saia qu'aquilo parecia um salpicão. Certo. A gente dávamos-se bem. Ela escarnecia, às vezes. Um animal daqueles... Aquilo cada perna dela era mais larga qu'a minha cintura. E ela escarnecia... Qu'ele havia vezes de eu estar em cima dela e dela se largar a rir 'ó hóme, que raio tás tu aí a charrinfalhar?, mais vale ires pedir um dedo ó Hinlário!' Qu'o Hinlário é um homenzarrão, cada mãozorra qu'aquilo sigurava duas enxadas sem custo nenhum. Certo. Mas dávamos-se bem. Que quando ela chigava a escamisar-me a maçaroca com a boca, eu ficava tão eissitado, olhe, tão eissitado que o meu membro chigava a ter dois dedos de grosso por um de cumprido. Dos meus. Certo. E inda hoje não sei o que me chigou à cabeça naquela altura. Qu'eu tinha-lhe estimação. Um animal daqueles... E inda estava cheia de viço, a minha Getrudes. E vou eu e deixo-me cair na esparrela de comprar uns comprimidos ao Bartolameu, ele a apregoá-los qu'aquilo ficava mais dereitinho que uma pinheira nova... E eu a ingoli-los qu'aquilo até parecia a hóstia e cá em baixo nada e a minha Gertrudes ria, alma do diabo, ria que se partia em duas, a bater as palmas e a afégar e aos ais de riso, e 'ai qu'o raio do velho inda não perdeu o sentido à cobrição'. Certo. Não me desceu a força ó instrumento, certo, mas ela lá me chigou às mãos, que lhas deitei ó pescoço e vou e fico ali a apertar até ela deixar de se mexer. E levou tempo, que um animal daqueles... E vou eu e largo a correr pela aldeia fora com o fato que me deram os mês pais, aos ais e 'acudam qu'eu matei a minha Getrudes'. Ajuntou-se um poder de gente e quem é que havia de aparecer? O enxertado de corno do meu primo Ricínio, qu'aqui à atrasado m'inludiu com umas prósegas cá de uma maneira que me levou duzentos contos limpinhos em dinheiro antigo. E vai ele e diz, a apontar-me pró pai de todos, 'ó primo Gervásio, vomecê parece que traz aí o pipo da prima Gertrudes!, vai-se a ver foi isso que a matou!', e tudo a rir c'as comédias daquele ladrão. Certo. Ora, digo eu, isto não é coisa que se faça a um velho, ou é? Calhou estar a gadanha do Praxedes ali à beira e foi quantos apanhei até que o fedelho da Domitília, que nunca soube quem era o pai e hóme nenhum sabia se não era, até que o fedelho vai e m'atira c'um valente pedraço aqui à cartilage da orelha que foi o que me fez cair p'ró chão. Como não acabaram comigo logo ali, isso não o sei eu. Certo. Prontos. E assim cá vim ter. Era o que queria saber?"

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

IRRVMATIO ROMANA

Críton de Halicarnasso enrolou o papiro que estava a ler e esfregou os olhos, fatigado. Era o décimo volume das Filípicas, de Cícero, um conjunto de diatribes escritas contra Marco António que o primeiro apresentara no Senado. A influência que Críton pudesse ter nos destinos da República era indirecta, pois o seu senhor, Orestes Túlio Mumio, tribuno do povo, ouvia sempre a sua opinião antes de subir à Rostra para discursar. Orestes tinha sido um feroz defensor de Catilina e era odiado pelos Optimatae em geral, incluindo os patrícios e os Equitate . Por isso, a sua posição, apesar do apoio que tinha dos mais pobres de Roma, era efectivamente de risco pessoal, sempre que descia a Rampa para o Fórum ou atravessava o Campo de Marte para as votações.Os defensores de Marco António juraram-lhe pela pele e por isso, nunca saía sem um contingente de guarda-costas ou estes abandonavam a porta da sua casa na Subura. Naquele fim de tarde, Critón ouviu um alarido pouco habitual vindo do jardim no peristilo. Eram uma espécie de urros. Levantou-se e deixou a biblioteca. Lá fora, Orestes zurzia o traseiro de uma escrava enquanto revirava os olhos, babava-se e resfolegava. Isto era uma cena comum, pelo que Critón passou indiferente e se dirigiu para a cozinha onde estava Aemilia, a cozinheira. ‘Ó Aemilia, também ouviste…?' Nisto, já a cozinheira, sem o deixar acabar a frase, lhe abocanhava o nabo até aos colei e abanava a cabeça freneticamente para trás e para diante enquanto segurava um rábano que se preparava para estufar com figos, papas de milho-paínço, azeite, garum, nabos e fígados de javali, para o jantar. A verpa (pichota) de Critón amassava com brutalidade a epiglote de Aemilia e as peles e as outras merdas que as gajas têm na garganta. Ela emitia uns espasmódicos sons de engasgo, enquanto se lhe esbugalhavam os olhos e os leites de Critón escorriam pelos cantos da boca, descendo pelo queixo e pingando no decote. As tetas de Aemilia abanavam, badalhocas, sob a túnica encardida e cheia de nódoas. Nisto, entrou Orestes, que parou por uns instantes, mas sem hesitar, tirou o rábano das mãos de Aemilia e besuntou-o com garum , o famoso molho de pasta de peixe fermentado com sal, esfregando com ele a sobressaliente landica (grelo da cona, clitóris) da cozinheira, enquanto agarrava a mentula (a picha) de Críton, que deu um guinchinho amaricado. Numa fração de segundo, já o traseiro de Críton albergava o grosso tarôlo do seu senhor, Orestes, que se esborratava pernas abaixo de gozo. O ânus fresco de Critón encantava-o. Entretanto, Aemilia rapava a pintelheira com uma faca da cozinha, aplicando na depilação uma pasta de cinza, salitre, urina e garum, pois os romanos desconheciam o sabão. Ela também se borrava pelas pernas abaixo, deixando um rasto nas lajes da cozinha até ao triclinium (sala de jantar). Aí estava Menelau, o porteiro, que se entretinha a despejar mel na glande, na qual colava varejeiras sem asas. Aemilia abocanhou, de supetão, a mentula e os colei de Menelau, pelo que ficou com a boca cheiíssima e com umas bochechas enormes por causa de ter um colhão de Menelau em cada uma delas. Tinha dificuldade em respirar e mais, as varejeiras zumbiam-lhe nos gargomilos e no esófago e ela estava com ânsias, pelo que – naturalmente – se vomitou toda de esguicho na tomateira de Menelau, sendo que este ficou deveras enfadado com o sucedido e a zurziu por trás à bruta, arrebentando-lhe pelo menos doze pólipos do intestino grosso. Até houve um que ficou mesmo enfiadinho na entrada da ureta de Menelau, como se fosse uma rolha. A bem dizer, a uretra de Menelau tinha muito que se lhe dissesse. Era porca e mal lavada; tinha grumos de meita seca pelo meio, o que fazia uns altos a meio da mentula, que a juntar ao enorme quisto sebáceo com pelos na raiz do pénis, lhe dava um aspeto repugnante e ascoroso. Nada disso importava a Aemilia, que esguichava sucos da próstata, que por acaso ela também tinha porque, no final de contas, era um gajo. As cuecas de Aemilia estavam ensopadas naquilo e os bichos sobrenadavam no feltro das cuecas que está encostado ao cunnus (cona). Esta peça de tecido estava amarelecida e ressequida da urina e tinha um pequeno coágulo menstrual esquecido na costura que o prendia ás cuecas. Isto a juntar aquele que tinha argamassado no clitóris, que Menelau teve de retirar, espantado, pois tinha um buraco que era o contra-molde do clitóris de Aemilia. Era assim uma espécie de carapucinha castanha-avermelhada com pelos e umas peles brancas secas pelo meio. Estas mesmas eram um pouco intrigantes. Talvez fossem restos de cera dos ouvidos, com a qual Aemilia tinha por hábito lubrificar os labia interiora, para melhor se manipular nas noites frias de inverno, quando não tinha garum à mão. Nisto, vzzzzzzzzzttt!!... Orestes introduziu-lhe o indicador no reto e ela acusou o toque porque largou de imediato uma copiosa e amarelenta larada que escorreu pelo antebraço de Orestes e pingou na pia do garum

. Iulia, a esposa de Orestes fiava no peristilo, junto á estátua de Minerva atrás da qual um escravo, Dirceu, ‘tocava à alvorada’ mirando as tetas da sua senhora que sobressaiam do decote justo da túnica, apertadas por uma fíbula de oiro e pedrarias, com motivos egípcios. FIM

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

BALADA DE HILL STREET

Miss Davenport levou a mão ao enchumaço que sobressaía da coxa do capitão Furillo. Tratava-se da sua Magnum 44 e não da sarda do capitão, que era minguada, mole, pequenina, mirrada, atrofiada, tinha varizes e peladas que lhe causavam pruridos. O testículo esquerdo, mesmo ao lado do quisto e que parecia um terceiro testículo, era enfezado e também varicoso, com pústulas malcheirosas e que vertiam um líquido amarelado. O períneo do capitão era uma badana encarquilhada, que quando atingia o ânus se transformava numa espécie de monco de peru e fazia a transição para a enorme hemorróida cronicamente inflamada e cheia de fezes secas. Miss Davenport suspirou e decidiu passar ás enormes mamas que o capitão tinha mor de uma desregulação hormonal grave. Normalmente era alvo de chacota na esquadra porque lhe ofereciam soutiens de copa 'A' no Natal e gritavam-lhe nas costas 'ó Furillo, faz-me aqui uma à espanhola!'. Ele até já tinha frequentado, em tempos, um grupo de apoio de homens com mamas. Miss Davenport tinha a sensação de estar a bater pratos com Silvia, a carcereira dos calabouços da esquadra de Hill Street, prática a que se dedicava quando sentia falta de um orgão sexual túrgido que lhe preenchesse o canal vaginal. Silvia tinha um clitóris hipertrofiado por causa das hormonas que Silvester, o dono da loja de suplementos para culturistas, lhe passava por debaixo do balcão. Nesse dia, na esquadra, uma das agentes, Rose Fernandez tinha acidentalmente adoçado o a café com um pó branco que a carcereira Silvia guardava no seu cacifo decorado com recortes da Hannah Montana. Tratava-se de testosterona cem por cento pura sonegada do laboratório ilegal que Silvester tinha na cave, onde também escravizava os chineses. Este composto, como se sabe, tem fortíssimos efeitos no nível da libido feminina. Rose começou por comer Edwart McThynney, o rececionista tetraplégico, ao que se seguiu Tim, o agente hiperobeso e um outro que era um monhé fuínha. A seguir foi para a rua onde se envolveu num gangbang com os 'Los tacos de cerdo', um bando de portoriquenhos, seguido das 'enchilladas de mierda', um bando de mulheres deliquentes adolescentes lésbicas e viciadas em metanfetaminas; depois comeu os 'nachos de polla', um bando de emigrantes de Trinidad & Tobago; depois fez uma geraldina aos mexicanos do bando 'los cuenas mueles'e ficou a escorrer um líquido pastoso das partes que parecia guacamole. Com a vagina lassa como um trapo velho, com as badanas ao dependuro, lá foi ela apresentar-se ao serviço para a ronda do dia. Passava o capitão Furillo e Miss Davenport que iam a caminho de uma audiência na companhia de um delegado do Ministério Público que era secretamente um psicopata torcionário de freiras carmelitas descalças e viciado em heroína fabricada por Silvester num armazém de conservas de peixe no cais de Manhatan onde trabalhavam uns paquistaneses escravizados. Os paquistaneses eram seviciados por capatazes búlgaros enquanto enchiam as sacas de droga à pazada e as carimbavam com um selo que dizia 'bananas of USA'. Por isso, os paquistaneses tinham grandes problemas, nomeadamente aqueles que resultavam da lassidão do esfíncter anal, pelo que se borravam nas ruas de Nova Iorque e era uma vergonha e um nôjo e toda a gente lhes cuspia em cima e os desprezava. Eles, como eram emigrantes ilegais,

aguentavam tudo com estoicismo hindu enquanto mascavam uma chamuça. FIM

sábado, 3 de novembro de 2012

O gajo que queria ir ao cu da mulher...














...e não sabia como a levar à certa!!!

Era uma vez um gajo que queria enrabar a mulher, mas...

Ó caralho, AHAHAHAHAHAHAH não consigo contar, desmancho-me a rir, ó ca...raças AHAHAHAHHAHAHAHAHAH... Fónix, desculpem lá, não consigo!!!

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Toma!


quinta-feira, 23 de agosto de 2012

...








segunda-feira, 30 de julho de 2012

MARTELO DE BIFES

Recebi ontem uma curiosa missiva. O seu autor é um conhecido professor de psiquiatria, o Prof. Alberto Marques, que por um qualquer capricho de um motor de busca, acabou por se interessar pelos textos acerca da vida da aldeia e Adozinda. Era uma volumosa epístola dactilografada a um espaço e sem correcções. O que ora transcrevo, em menos de uma página, julgo eu corresponder a uma imagem do essencial da interpelação de Marques. “Caro Assento da Sanita (…) Permita-me dizer-lhe em primeiro lugar, que se diverte a humilhar, despersonalizar – e não exageraria se dissesse - torturar- os seus personagens, submetendo-os a inenarráveis e doentias sevícias. Repare que, emanando da sua própria cabeça, eles mesmos são de algum modo versões metafóricas da sua própria pessoa. E assim sendo, pergunto-me porque se castiga a si próprio deste modo? Se merece castigo é por ser culpado de alguma coisa. Não sou nenhum detective, nem me passaria pela cabeça investigar a sua história pessoal para determinar algum evento menos feliz que possa ser a fonte dessa culpabilidade. Tudo o que posso aventar, dados os indícios seguros presentes nos seus textos, é que: seviciou um cão borrifando-lhe o anûs com aguarrás e o pobre animal fez dois quilómetros a arrastar o rabo para se tentar aliviar do agudo prurido. A aguarrás esguichou-a Alberto, um deficiente mental, incitado por si. Sei que também o convenceu a malhar violentamente com um martelo de bater bifes no tronco de uma árvore , ao que o martelo ressaltou e veio ferir a sua própria testa. Lembra-se de ostentar as marcas na testa, chegar à escola e ter deitado as culpas para cima de Alberto que não se conseguiu defender? Nas contas que Da Sanita fez, na pouca capacidade de resolução de dilemas emocionais que uma criança de seis anos possa ter, sopesaram a vergonha de se apresentar com uma grelha de pequenos hematomas dispostos regularmente na cabeça e, por outro lado, aquela de atribuir as culpas ao inocente Alberto. Percebo que essa culpabilidade o corroeu desde essa altura e agora, com sessenta e oito anos (não me pergunte como cheguei a este número, mas os psiquiatras são pessoas com recursos metodológicos poderosos), tenta Da Sanita expiar esse ‘pecado’ auto-martirizando-se. Sugiro que procure Alberto na instituição de saúde onde actualmente é clínico residente e lhe peça as mais sinceras desculpas. E procure também a Dona Adozinda, a sua professora primária e explique-lhe o sucedido, desta vez com verdade, nem que tenha de recorrer a uma mesa-pé-de-galo. Adivinho distúrbios neuróticos como ansiedade social, compulsões de higiene constante e propensão para a auto-manipulação genital com martelos de bater bifes ensanguentados. Tenho a certeza que coloca os testículos numa mesa e os golpeia com brutalidade com esse martelo, enquanto grita ‘Oh Alberto! Oh Adozinda! Oh Piloto!’ antes de atingir o clímax sexual e ejacular contra o tronco de um freixo. Espero sinceramente que seja apanhado em flagrante por uma patrulha da polícia nessa actividade, mas também que se veja aliviado do seu muito sofrimento (…) Atenciosamente. Alberto Marques

terça-feira, 24 de julho de 2012

Atirei o pau ao gato!

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segunda-feira, 25 de junho de 2012

Notas de crítica literária I: exegese de um personagem.

Foi Assento da Sanita, pseudónimo de um regular pai de família, fazendo sair, de forma casuística, uma peculiar e distorcida visão da vida na aldeia sob a forma de saga picaresca. Isto num blogue francamente aos caídos. No entanto, não se perdem esses exercícios de escrita e interessa ora analisar as condições da real biografia do blogger que levaram à criação deste peculiar universo. Estarão na posse do autor ainda mais umas centenas de páginas, mistas de diário, mas tergiversando livremente. Da análise desse espólio é patente que Adozinda é inspirada na sua mulher-a-dias vestida de traços de Maria Papoila. Queixa-se várias vezes de esta levar porcos à socapa lá para casa e mesmo encetar descabidas práticas agrícolas pelos cantos da casa e a ter surpreendido em divagações auto-manipulativas com peixes comprados na loja de congelados: safios, pargos e peixes-espada. Difícil de dissuadir, foge ao patrão, que entretanto se fascinou pelo seu espírito simples mas profundamente livre. Uma página do diário diz assim: ‘ Vanessa [Adozinda] acoitou-se na dispensa e eu tentei convencê-la a deixar-me vê-la a introduzir no bordedo uma garoupa de cinco quilos e meio, besuntada com mel e pasta tandoori. Só consegui convencê-la depois de lhe garantir que não reclamaria a lata de goiabada que introduzira no recto e que agora tinha dificuldade em expulsar. Prometi-lhe sigilo e propus-lhe certas práticas inconfessáveis. A primeira consistia na adoração do bidé, com os seus vários anos de sarro junto ao bordo superior, do lado de dentro, enquanto eu vestia as roupas dela e ela usaria as minhas cuecas ensopadas em piri-piri logo após rapar os pêlos púbicos com uma lâmina de barbear já muito romba. Corri a anotar no meu diário literário que ‘trepou pela parede de azulejos acima e só largou o candeeiro dos lavabos após mangueiradas prolongadas’. Entretanto, descurara o trabalho doméstico e a roupa, loiça suja e porcaria em geral, amontoaram-se pela casa, a ponto de termos dificuldade em circular com facilidade. Vanessa parecia regozijar-se com o factos singelos como o esmagar com o pé, um triângulo de queijo ‘la vache qui rit’ amolecido do calor, quando inadvertidamente pisou umas truces minhas com coraçõezinhos e com os elásticos já à mostra que o continha por desleixo. À noite sossegava e contava-me como era perseguida por um burro, ou talvez por um tio – não se lembra bem – lá na aldeia, que era pirómano e incendiava as matas por gozo, mas que estava sempre a pedir-lhe que o acompanhasse a beber uma ‘malga dele’, sendo que o que ele queria era apanhá-la e forçá-la ao coito ano-rectal. Não percebi se logrou o seu intento, esse tio ou burro, mas certo é que as torcidas de Vanessa eram grossas como paus de eucalipto e ela largava-os frequentemente, pois já não ‘se segurava’. E era em qualquer lado: no tapete da sala, enquanto passava a ferro ou puxava lustro às alpacas. Os meus dias de solidão tinham sido preenchidos por Vanessa, que estou sinceramente a pensar desposar’. Assento acabou por não casar com Vanessa pois esta fugiu com a cobradora da electricidade que lá foi a casa na véspera do matrimónio. Teve AdaS de cancelar o faustoso casamento e até tinha limpo a casa. ‘Se é lésbica, o melhor é não casar, pois certamente se veria numa situação de infelicidade e aparência apenas por conveniência social’ – conclui AdaS no seu diário.