
sábado, 11 de abril de 2009
terça-feira, 7 de abril de 2009
Quem quer que tenha dito a frase que serve de título a este arrazoado, esteve coberto de razão. Quem quer que a diga agora, tem razão. Quem quer que a avente amanhã, razão terá. “Este” mundo está perdido – porque o afirmamos individualmente. E o mundo de cada um é, por natureza, para se perder.
O Mundo, no entanto, o Mundo-Mundo, a existência neste planeta e além, está longe de estar perdido. Confesso-me, até, bastante mais optimista agora do que antes. Há uma espécie de harmonia perversa nisto tudo. Ou talvez não; seja como for, hoje deu-me para profetizar.
Agrada-me especialmente aquilo que vou vendo nas gerações mais novas. Imagino o arrepio que uma frase destas causará em muita gente mas é a mais purinha da verdades. Ainda me agrada mais aquilo que não vou vendo nas gerações mais novas.
Vamos por partes: a popularização e a facilidade de acesso às drogas leves, por exemplo, é um sintoma francamente saudável. O charro descomprime, relativiza e expande a consciência. A estúpida noção de “importância” fica saudavelmente esfumada com uns bons bafos. Ou seja, a minha esperança é que os mais novos vão gradualmente percebendo que pouco ou nada é urgente.
Outra parte: a linguagem. Chats, SMS, emails – bênçãos!! Estaremos porventura a caminhar para uma melhor adequação entre o meio e o fim. Presumo que nos caiba defender a linguagem como a conhecemos, criticando e puxando orelhas, porque essa é a melhor forma de garantir que a linguagem “deles” será cada vez mais deles. Mais curta, mais simples, mais perto da consciência da linguagem enquanto meio básico e falhado por natureza. Agrada-me especialmente que os nossos putos portugueses já consigam passar dias inteiros a comunicar por pictogramas.
A internet, claro; santinha de particular devoção... É excelente o contributo que traz ao retalhar tudo o que é obra, cultura ou informação em fatias finas como o fiambre. É excelente porque também lá está o acesso ao resto do porco. O mais extraordinário é a dispersão – a internet é o inimigo mor da especialização. Goethe vê-se vingado pela internet! “O que é geral? O caso particular. O que é específico? Milhões de casos.” A internet ajuda a combater a crença quanto à valia da especialização. Sim, criemos especialistas se houver quem o queira ser – mas sem que isso tenha que corresponder à ideia de campos de conhecimento que se excluem mutuamente. Qual é o problema de uma coisa ‘assim pela rama’ se não nos puxa o pézinho para o tronco e não queremos fazer carpintaria?
E o que não vejo; agrada-me o que não vejo. Não vejo tanto temor reverencial. Não vejo grandes sombras de religiosidade. Vejo uma assunção básica de vontades, sem muitos fantasmas de culpa: queremos curtir, queremos gozo, queremos ganza, queremos foder. “Pois, mas não é assim que se constrói a vida!”, dir-se-á. Mas o que é que queremos construir? Nada. Queremos – ou querem, os que dizem isso – é perpetuar a vida que construímos e nem sequer é porque a achamos boa: não; é por puro medo, é uma procura de validação, é a estúpida demanda pelo ‘valeu a pena o sacrifício’.
Já ouço o barulho das pedras de amolar. Já antevejo os oponentes de mãozinha no ar, com a expressão do “espera aí que já te estampas” bem vincada no rosto. Deixem-nos soltar o argumento ‘definitivo’, a bomba de neutrões: “Tu dizes isso porque não tens filhos!” E é vê-los sorrir, agora, prazenteiros. “Pois, isso é tudo muito bonito mas se tivesses que contar os cêntimos para comprar fraldas já pensavas de outra maneira!” Pescadinha de rabo na boca: se calhar é porque penso assim que não tenho filhos. Ou se calhar não. Deixem-me tentar clarificar: o meu optimismo é a muito longo prazo. A muito longo prazo, isto muda. Isto que conhecemos. O Estado enquanto repositório das funções que correspondem aos falhanços da Humanidade (sim; o Estado assegura aquilo que nós ‘sentimos’ que não podemos assegurar: cuidados médicos, educação, construção de infraestruturas, ou seja, as áreas em que falhamos enquanto ‘providers’) irá mudar. A política enquanto a conhecemos irá mudar – a sua utilidade será certamente reequacionada, uma vez que ela se limita em exclusivo à gestão. A estrutura produtiva irá mudar, provavelmente com um fim relativo do actual endeusamento do trabalho e do lucro.
Parêntesis – já repararam como à retórica da crise vem sempre acoplada a velha máxima do “é uma sorte ter trabalho”? Já repararam como a crise é aproveitada para se esgrimirem argumentos como “a semana de trabalho de 35 horas é o fim da competitividade!”? Já repararam que a crise é sempre aproveitada para nos deixar convencidos que temos que fazer mais? E já repararam que ninguém ganha com isto? Claro, há quem ganhe poder e dinheiro – mas para quê?!... Não, não é nenhum lirismo sabujo na linha de ‘o dinheiro não traz a felicidade’; o facto é que o dinheiro não traz o tempo! Os que ganham muito dinheiro continuam a gastar quase todo o seu tempo na actividade de ganhar muito dinheiro e a fazer os outros trabalhar redobradamente para que eles possam ganhar muito dinheiro e NINGUÉM APROVEITA!!! O tempo é gasto a trabalhar para ganhar dinheiro para adquirir coisas que nos poupam tempo e coisas para matar o tempo que poupamos e que não temos. Hoje, aqui onde estou, o dia é perfeito. Está sol, céu limpo, uma temperatura agradabilíssima. É Primavera, uma Primavera cheia de força a explodir em todo o lado. Já almocei; ingeri calorias que me permitirão facilmente ficar sem comer até amanhã. Qual é o racional para estar a trabalhar?! Perguntem-se isto de vez em quando. Para quê agora? Para quê esta hora exacta? Para quê fazer agora um par de sapatos, um iPod, cem metros de estrada, uma aula de ETV, uma radiografia, um funeral? Se apetecer trabalhar, muito bem; mas porque é que ‘não se pode’ ficar sentado ao sol quando está um dia bonito? Porque é que se compra de barato que ‘utilidade social’ e ‘trabalhador’ é um binómio indissociável? Porque é que se pinta o desemprego como um estigma social, um vórtice pior que “esse mal terrível que é a droga”, de onde, uma vez caído, é muito difícil sair? Porque é que a estabilidade vingou como virtude? Porque é que nos deixamos agrilhoar ao conceito de família, de responsabilidade, de hipoteca, de acautelar o futuro? Porque é que não pensamos? Porque raio é que nascemos com esta predisposição de pensar que o presente, que “este mundo que está perdido”, sempre foi assim? Porque é que não paramos? – fim de parêntesis
Isto mudará. Muda sempre. Camões percebeu. Mudará – e nem vale a pena discutir a estupidez por trás de conceitos como “para melhor” ou “para pior”. Mudará. E, a muito longo prazo, estou optimista. Não no tal sentido de “mudar para melhor”; não. Apenas com a esperança que se goste mais disto. Que expressões como “a vida é um vale de lágrimas”; “anda-se cá é para sofrer”; “isto vai de mal a pior” ou “parar é morrer” sejam vistas como a falácia que são. Acima de tudo, que a história que o grande Joseph Campbell relata do pai que não deixa o filho escolher o que quer no restaurante porque “eu nunca na vida fiz o que quis!” deixe de ser uma presença tão permanente. Isto pode ser muito mais divertido. Podemos ser um bocado mais mamíferos e menos ridiculamente ‘humanizados’.
Duvidam? Excelente. É isso mesmo: a nossa maior ‘obrigação’ é duvidar.
segunda-feira, 6 de abril de 2009
sábado, 4 de abril de 2009
quinta-feira, 2 de abril de 2009
quarta-feira, 1 de abril de 2009
A MAÇÃ, SALVAÇÃO DOS DOENTES!

Desconheceis, alienados pela propaganda da tentacular e totipotente industria farmacêutica, que o consumo de medicamentos químicos vos envenena mais do que o que cura, quando a Mãe Natureza nos proporciona dádivas benévolas de Saúde através da alimentação racional, da crudivoria, naturopatia e trofoterapia. Pôs Deus as frutas e legumes à nossa disposição para que nos curemos. O consumo de alimentos cárneos é extremamente prejudicial! A carne não pode alimentar o corpo pois a carne está quimicamente morta! Os horrendos miasmas putrefacientes dos cadáveres dos animais que comeis, por seu turno, são causadoras de cancér, espinhela caída, problema de osso, tísica, astenia nervosa e vermes do anús! O comedor de carne se apresenta macilento, com olheira, alopécia, espinhela caída e impotência sexual! O ser humano não deverá se alimentar de cadáveres! Venho aqui, ao invés, falar a vocês de maçãs. A Macã é emética, estomacal, purgante, calmante da excitação cerebral, revigorante, expectorante, tonificante, anti-helmíntica, béquica, emoliente, peitoral, liquefaz os humores, é anti-pútrida, diurética, dissolvente do ácido úrico, rejuvenescedora e em suma: faz bem ao organismo! A introdução diária de meia-dúzia de maçãs descascadas no recto pela manhã curou um octogenário invertido de suas malsãs pulsões homossexualísticas, no estado de Rondónia. A combinação da trofoterapia à base de maçãs, como já diz muito bem, o já centenário médico português – o doutor Lyon de Castro – com a urinoterapia e o uso do alho (esse potente antibiótico natural!). Assim, um preparado resultante da maceração de maçãs cozidas com alho cru e urina, aplicado sob a forma de clister constitui uma efectiva cura para o reumático se co-adajuvada pela estimulação do corpo por chicotadas de urtiga, argila, chá de funcho, ipê-rôxo, guaraná e picadas de abelha. Já faz alguns anos que curei um homem raquítico e gravemente enfermo que era plastificador de cartões, de sua ciática recorrendo a este singelo remédio natural: a MAÇÂ. Sofria ele de graves desiquilíbrios mentais pois sua obsessão o levou a plastificar tudo em seu redor. Quando se apresentou em meu consultório naturológico tinha plastificado as orelhas, seu nariz, os pêlos das axilas e seu membro viril! ‘Pobre alma em sofrimento! ‘ – Pensei. E logo recorri a uma estrita dieta de maçãs. O paciente, cedo abençoou a maçã e passou a dedicar-lhe todas as horas e minutos de sua vida e todas as suas energias, comprando-as ás toneladas diárias e plastificando maçãs. Quis a Providência desviar-lhe as tresloucadas compulsões para muito mais salutar hábito vegetarianista e crudivorista e pior seria se plastificasse costeletas de novilho ou bifes da vazia! Tratai-vos pelo crudivorismo e vivereis felizes por muitos e longos anos!
24 de Dezembro de 1978
Sociedade Espírita de Feira de Santana 'Xico Xavier'
terça-feira, 31 de março de 2009
Hoje estou cá; daqui a uns meses não estarei. “Meses” é uma abstracção. É importante ter isto presente. O tempo é uma abstracção. A existir, o tempo é uma permanência, de total imutabilidade. O que “passa” somos nós, nós é que somos impermanentes. Não é o “número” de anos que traz o declínio; é o uso. O que há-de vir já cá está, assim como o que foi aqui continua. Quando o Johnny Rotten gritava “No future” estava longe de saber a verdade inquestionável que lhe saía da boca.
Não me lembro de ter feito planos. Escolhas, fiz uma ou outra. Pode-se passar uma vida inteira sem escolher coisa alguma. Há um “sistema”, como dizia o Animal sobre as calculadoras (perdoem-me a críptica reminiscência de infância...), e a vida pode acontecer-nos completamente dissociada da vontade. ALERTA: isto são palavras. Só isso. Se as lerem como conceitos, isso já é culpa vossa. A linguagem é um passatempo; a linguagem não responde a nenhuma necessidade; a linguagem é um prazer; a linguagem não devia ter “valor”; não foi concebida para isso – até que os palhaços dos Sumérios acharam que sim... As palavras não “dizem”; são precisamente uma evolação do indefinível e do indizível; uma palavra tem tanto significado como um pingo de chuva. Significado temos nós, somos nós. Nós é que aceitamos esta alucinação colectiva de que há regras para a linguagem; nós é que voluntariamente carregamos o jugo de aceitar e “entender” regras expressas em linguagem. Este é o “sistema”. Há linguagem como calçada e podemos seguir sempre por ali, sem sobressaltos e sem escolhas – sem escolhas reais, pelo menos; podemos ter a ilusão que optamos.
Quando é que terá sido?... Quando é que a linguagem ganhou este valor absoluto? Podemos não acreditar no que nos dizem, no que lemos – mas não duvidamos da linguagem em si. Se calhar devíamos. Pelo menos de uma linguagem como a nossa, que o uso deixou retalhada em pares de opostos. Antónimos. Parvónimos. Há um caracter japonês cujo significado me foi transmitido da seguinte forma: “estás no meio de uma ponte e podes ir para um lado como podes ir para o outro”. Ou seja, o mesmo símbolo transmite a ideia de “para a frente” e “para trás”, devolvendo-nos a noção básica de que tais noções – para a frente e para trás – implicam apenas sair de um ponto para outro; implicam exactamente a mesma acção: um passo é um passo, seja para a frente ou para trás. A burra mija... imaginemos que uma burrica transitava pela Auto-estrada do Norte, sentido Lisboa-Porto. Perto de Aveiras, a burra quer urinar. A burra encosta à berma e roda sobre si 180 graus, para poder verter águas olhando a igreja de Aveiras e pensando no bom vinho da sua Adega Cooperativa. A burra alivia-se num generoso jacto e esfrega-se nos rails de protecção à laia de papel higiénico. Pergunta: a burra mijou para trás ou para a frente? Percebem o maniqueísmo, a estupidez de tudo isto? Para trás e para a frente de quê?! Antes e depois de quê?! Melhor ou pior que quê?! Aceitamos a linguagem como um edificado lógico quando ela assenta precisamente em nada. NADA!!!
Todavia, aceitamos. Eu também. Não me lembro de ter feito planos. Mas, porque assim está escrito, – não no sentido fatalista do termo mas porque alguém o escreveu – hoje estou cá e daqui a uns meses não estarei. Não estarei porque “é assim”. São as regras... Não; não são as regras. Há uma folha de papel com uns símbolos convencionados (letras) dispostos de uma forma que reconhecemos (os alfabetizados) como querendo dizer que este ano (série de números correspondentes a um ritmo) é altura de deixar Tóquio e ir para outro lado. Alguém escreveu uma frase, num outro dia qualquer, que implica que, num outro dia qualquer, eu saia daqui. Tudo calcetado; “é por ali”. Claro: foi-me dada a ilusão da escolha; “podes optar pelo próximo destino” – porque também isso foi redigido. O que a linguagem me deixou vedado foi a opção “deixem-me estar”...
Ainda que escolhesse a página em branco de mandar a linguagem às urtigas, ela é insidiosa. Está em todo o lado, a cabra. Está, também, aqui, neste facto singelo: diz que há “países”. Diz que eu não sou “daqui”. Diz que para eu pisar esta terra – como outras terras – é preciso ter um estatuto contemplado na linguagem. Porquê? Ui, isso é complicado; mete o Estado, os impostos, a identidade nacional... coisas técnicas, percebe? O que é natural e parece bem é cada um com a cor de cabelo com que nasceu. Ou passas a ser dos nossos ou és dos outros e não cabes cá. Por mais saudável que uma linguagem seja – e a japonesa até o é – nenhuma linguagem é perfeitamente sã: também o japonês tem um caracter para “estrangeiro”, para “gente de fora”, para os que “não são como nós”, para “fronteira”. O que é um estrangeiro? Que sentido é que faz definir pela negativa aquilo que existe, afirmativamente? “Fulano é estrangeiro” – esta frase é uma falácia. Qualquer coisa mais aproximada à verdade limitar-se-ia a “Fulano é.” O verbo ser não precisa de – NÃO PODE SER – complementado. É absoluto. Daí que, o que presumo seja de especial interesse para a Vara, a única resposta plausível para a questão “És paneleiro?” seja “Não; sou.” Quando é que deixámos escapar esta noção absoluta? Nós somos. Porra; é magnífico! Somos. Existimos. Estamos. Não é “preciso” mais nada. Não “somos” mais nada. Podemos adjectivar-nos à vontade; é um prazer imenso fazê-lo – mas confundir isso com “aquilo que alguém é” equivale a confundir o olho do cu com a feira de Beja.
A linguagem não me deixa estar. A linguagem não me exorta a acção – pelo contrário, a linguagem limita grandemente aquilo que eu penso que posso fazer. Porque eu, pelo menos, eu penso com linguagem. É a ferramenta que tenho. Há quem o faça em imagens, ao que me dizem, ou num processo qualquer que evita palavras. Mas eu penso por extenso, numa bela caligrafia cursiva com respeito pelas margens. E NÃO QUERO!!!! Não, não oiço vozes na minha cabeça – só queria deixar de ouvir a minha caligrafia...
Começando a questionar a linguagem, esboroa-se tudo. Sobra o verbo: sou. “Eu” já é espúrio; já é em si um convite à oposição. Sou. E está tudo bem. Tudo se afigura leve, interessante, simples, risível. Um dia destes pediram-me que preenchesse o mapa de férias... O que eu me ri! “Ora portanto... há estas linhas que se cruzam e estes quadrados significam os meus meses e eu ponho aqui uns números que significam dias, é isso?”... Não é divertidíssimo?... Quando nos apercebemos de que tudo isto, como um destes dias me apercebi enquanto escrevia ao Lourenço, está preso por cuspo – literalmente; cuspinho, saliva – quando nos apercebemos que todo este edifício é ilusório, está mesmo tudo bem. E mal. Exactamente ao mesmo tempo. Está tudo. E nada. Está. E não está. Não faz sentido? E o sentido, o que é? Porra, é magnífico! Sim, isto sou eu a adjectivar o que é.
Diz que há uma calçada. Diz que eu não sei. Diz que há aqui uma coisa das muitas que não cabe na linguagem; daquelas que, como a chuva, não precisa de tradução. A ver se me calo e penso ou se finjo que escolho.
segunda-feira, 30 de março de 2009
Para lá do Marão mandam os que lá estão
E como não há uma sem duas: PARABÉNS, MARONÊS!
Que contes pelo menos tantos como o Vareta, e que as articulações te deixem ir fazendo uns swings e assim.
O sketch é velhinho, já sei, mas foi o que se arranjou. :)
O CULTO DO CHÁ

(Dedicado ao Vareta Funda, prezado amigo, no seu aniversário)
‘No Dai Nipon, o consumo do chá é feito com desvelo e reverência. É com graciosa devoção que o japonês serve o chá aos mais prezados convidados. É com grande precisão ritualista que o chá é preparado na presença do convidado e nos gestos simples repousa, com circunstância o mais essencial da alma japonesa. Do gokku, o chá-verde pulverizado prepara-se, com elaborada cerimónia, uma acre beberragem, que traduz uma íntima homenagem do anfitrião, por aquele que acolhe em sua casa. São as mais tenras e jovens folhas da Camelia sinensis, as primeiras que abrolham em bucólicos pomares de pessegueiros floridos, que servem para a cerimónia do chá. É frequentemente a esposa que obsequia o visitante com o chá. A precisão do gesto, que envolve todo o corpo e olhar, traduz assim mesmo, este obséquio. Aos olhos do europeu, tal cerimónia evoca um acto religioso, mas não se trata exactamente de culto, como numa religião. A cândida rudeza da Natureza é evocada pela presença das flores na jarra, no propositadamente imperfeito copo de barro ou no bule de ferro com alguma ferrugem aflorando já. Uma vez, uma senhora japonesa recebeu em sua casa um distinto cavalheiro aposto ainda de velhas insígnias familiares samurais, dizia-se e, decidiu seu marido obsequiar o ilustre convidado com a cerimónia do chá. Acontecia no entanto, que devido a um consumo excessivo de ameixas salgadas amasake e miso, a senhora se via a braços com violentos ataques de fermentações intestinais. Assim, durante a cerimónia do chá, enquanto manipulava os instrumentos de bambu, viu-se na circunstância de se aliviar, o que aconteceu estrondosamente e acompanhado de muitos e repenicados molhos. A senhora enrubesceu e o convidado, lívido de espanto e tolhido por tão inconveniente alívio, não teve outro remédio senão praticar o hara kiri mesmo ali, sem mais delongas. O sangue jorrou em borbotões para cima da desonrada senhora e dos seus utensílios. A vergonha abateu-se sobre aquela casa e esmaeceram no seu quintal os amorosos pessegueiros. O marido, no silêncio de seu quarto, logrou também retalhar voluntariamente as vísceras, pelo que a mulher mandou queimar a casa com os criados lá dentro; salgar os campos, desenterrar os antepassados e espalhar as ossadas ao deus-dará. Daí em diante, a mulher prostituiu-se nos arrabaldes mais viciosos de Tóquio para consumar um auto-infligido castigo pior que a morte: com bêbedos, leprosos, condutores de riquexó e plastificadores de cartões. Desgrenhada e piolhosa, percorreu ensandecida e por sobre o lamacento esgoto, as ruas dos arrabaldes, fumando ópio e dando a este e aquele todos os orifícios naturais para que deles se servissem a seu bel-prazer como vazadoiro de veneais exúndias e, em geral, de todas imundícias que expeliam dos corpos doentes. A desvalida já nem retinha as fedentes massas excrementícias nas suas próprias entranhas, pois lassos e esgarçados achavam-se-lhe os orifícios. Comida pelas pulgas, um dia, arrastou-se para um canto cheio de lixo e surgiu-lhe um monge. Era o monge Vare Tah Fun Dah, renomado e sapiente ancião, que no segundo em que a fitou ficou seguro de salvar a sua alma sofredora. ‘Retira o grosso talo de gengibre que tens na boca do corpo, mulher e levanta-te, pois a tua honra te devolverei se me retribuíres um favor’- disse. ‘Mas, homem-santo, se retirar o talo de gengibre, esguichará no beco podre gordura, pois estou com o período…’ ‘Mas, tu não estás na menopausa – ò velha encanecida e desgrenhada?’ ‘Não, monge, eu tenho vinte e dois anos!’ Nisto o monge logrou apanhá-la por trás e zurziu-a com toda a força contra uma parede até ela esguichar pelas orelhas e nisto – vzzzzzzzzzzzzzt – ela atingiu o satori, ou Natureza de Buda. E o monge foi-se embora para nunca mais voltar. Viu a mulher que, afinal, era ilusória a sua desonra e plantou mesmo ali um pessegueiro’.
domingo, 29 de março de 2009
Turning Japonese
Podia estar aqui com conversa da treta, mas falta-me o tempo e não me ocorre nada de divertido, oportuno, relevante, remotamente interessante ou sequer minimamente engraçado, maneiras que, uma vez que é quase meia noite e não sou dado a superstições e palpita-me que o Vareta também não, cá vai disto:
PARABÉNS, VARETA, GRANDE CORNO (salvo seja...), QUE CONTES MUITOS E COM SAUDINHA (DA BOA)!!!!
Podia ter ido buscar o Big In Japan dos Alphaville, ou o Japanese Boy, da Aneka, mas olha que porra apeteceu-me meter esta, a verdade é que dei com isto há bocado, por mero acaso, já não ouvia esta música para aí desde 1973, maneiras que cá vai disto.
The Vapours - Turning Japanese - 1980
I've got your picture of me and you
You wrote "I love you" I wrote "me too"
I sit there staring and there's nothing else to do
Oh it's in color
Your hair is brown
Your eyes are hazel
And soft as clouds
I often kiss you when there's no one else around
I've got your picture, I've got your picture
I'd like a million of you all 'round myself
I want a doctor to take your picture
So I can look at you from inside as well
You've got me turning up and turning down
I'm turning in I'm turning 'round
I'm turning Japanese
I think I'm turning Japanese
I really think so
Turning Japanese
I think I'm turning Japanese
I really think so
I'm turning Japanese
I think I'm turning Japanese
I really think so
Turning Japanese
I think I'm turning Japanese
I really think so
I've got your picture, I've got your picture
I'd like a million of them all 'round myself
I want a doctor to take your picture
So I can look at you from inside as well
You've got me turning up I'm turning down
I'm turning in I'm turning 'round
I'm turning Japanese
I think I'm turning Japanese
I really think so
Turning Japanese
I think I'm turning Japanese
I really think so
I'm turning Japanese
I think I'm turning Japanese
I really think so
Turning Japanese
I think I'm turning Japanese
I really think so
No sex, no drugs, no wine, no women
No fun, no sin, no you, no wonder it's dark
Everyone around me is a total stranger
Everyone avoids me like a cyclone Ranger
Everyone...
That's why I'm turning Japanese
I think I'm turning Japanese
I really think so
Turning Japanese
I think I'm turning Japanese
I really think so
I'm turning Japanese
I think I'm turning Japanese
I really think so
Turning Japanese
I think I'm turning Japanese
I really think so
[guitar]
Turning Japanese
I think I'm turning Japanese
I really think so
I'm turning Japanese
I think I'm turning Japanese
I really think so
Turning Japanese
I think I'm turning Japanese
I really think so, think so, think so
I'm turning Japanese
I think I'm turning Japanese
I really think so
sábado, 28 de março de 2009
Diss iz uai ui lave uímen....
Luk au ápi chi luques..........
**
** Diss image chud bi muving and de garl chud bi cimiulating a blaudjób.
Sôu............ uai da faq dasantit muve?
Faquin'xit!

